Subscrever RSS Subscrever RSS
Edição de 20-07-2022
  • Edição Actual
  • Jornal Online

    Arquivo: Edição de 30-01-2012

    SECÇÃO: Opinião


    foto

    A (des)concertação social

    No mesmo dia em que era assinado o denominado acordo social, almejado pelo Governo na prolongada reunião da Concertação Social, e no Parlamento se discutia a bondade e as maldades do documento, a CGTP protestava às portas da Assembleia da República contra o que considera ser um retrocesso nos direitos dos trabalhadores de que não há memória, classificando o dia histórico enfatizado pelo primeiro-ministro na cerimónia da assinatura do citado documento, como um dia tristemente histórico para os trabalhadores.

    A repetida circunstância da CGTP não assinar os acordos deveria levar a comunicação social a ser mais exata ao referenciar os entendimentos que saem da Concertação Social, substituindo a designação de acordo de patrões e trabalhadores, por acordo de patrões e UGT. Com efeito, sabendo-se que das duas centrais sindicais não é a UGT que representa o “grosso” dos trabalhadores, não será legítimo cometer-lhe uma representação que não tem, nem associar os trabalhadores a acordos que não subscrevem.

    Além disso, tendo em conta o comportamento do secretário-geral desta associação, assinando, sempre, por baixo das vitórias do “patronato” e derrotas dos trabalhadores, não será legítimo agregar às fraquezas deste “ajudante” dos governos, os milhares ou milhões de trabalhadores que, compreensivelmente, se sentem traídos.

    Não será, por isso, de estranhar os cartazes que se viu na referida manifestação da CGTP às portas do Parlamento, em que a efígie de João Proença é acompanhada de expressões como “Judas” e “Quantos Dinheiros?”, numa alusão ao conhecido episódio histórico-religioso, em que Judas vende o Senhor por trinta dinheiros.

    Acontece, porém, que Judas reconheceu imediatamente o seu erro e, em vez de assistir à execução da vítima, pôs termo à vida, revelando alguma dignidade, atitude que contrasta com a do secretário-geral da UGT que, embora com a sua irritação revelasse algum desconforto, não foi capaz de imitar a figura bíblica, preferindo alinhar no espetáculo da assinatura daquilo que considerou não ser um bom acordo. Há ocasiões em que faz falta um buraco para nos escondermos, ou um pouco de decoro que nos resguarde de ficarmos no “boneco” fotográfico que a História relatará como sendo os representantes do conchavo saído da concertação social em janeiro de 2012.

    Os políticos já nos habituaram às mais estranhas “cambalhotas”, razão por que o recuo de João Proença não causou qualquer pasmo na opinião pública. Ele atua sempre assim. De estranhar é haver sindicatos que continuem a afetar parte das quotas dos seus sócios, produto do seu laborioso trabalho, para sustentar quem, em vez de defender até à exaustão os interesses dos seus representados, acaba sempre por preferir mostrar-se na fotografia de família, ao lado do poder político e económico. A figura bíblica revelou-se possuída de mais e melhores sentimentos.

    João Proença, que vem anunciando que não se recandidatará novamente a secretário-geral da UGT, pensando “reformar-se” das lides sindicais, bem merece que o Governo lhe arranje um lugar numa dessas empresas, públicas ou privadas, em que poderá gozar a sua aposentação auferindo principescas retribuições e mordomias que causam inveja a muita boa gente. De resto, se assim acontecer, nada mais natural será, tendo-se presente a prática que vem sendo seguida no pagamento de “faturas” a imprescindíveis colaboradores, tão úteis e prestáveis em momentos particularmente importantes e difíceis para quem exerce o poder.

    PS: Estando na “ordem do dia” a exigência de mais anos de trabalho para se alcandorar à pensão por inteiro, de pensões calculadas em função de todo o tempo contributivo e ainda o corte de reformas já atribuídas, vale a pena dar a conhecer aos estimados leitores o texto de um e-mail que acabo de receber: Aos 38 anos de idade e com 16 anos de empregado num clube da Liga (hoje Sagres), um futebolista português acaba de requerer a pensão a que tem direito, no valor mensal vitalício de 12 905 euros. Contudo, um trabalhador normal tem de trabalhar até aos 65 anos e ter uma carreira contributiva completa durante 40 anos para obter uma reforma de 80% da remuneração média, apurada com base nos proveitos auferidos em quatro décadas de trabalho.

    O remetente aproveita para recordar o seguinte texto da autoria de Guerra Junqueiro, in “Pátria”, escrito em 1986 com o título “Um Povo Imbecilizado e Resignado”: «Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que quem nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas».

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

    Outras Notícias

     

    este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu Este espaço pode ser seu
    © 2005 A Voz de Ermesinde - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital.
    Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.