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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 10-12-2011

    SECÇÃO: Crónicas


    Ouro, incenso e mirra

    Presépio feito pelas crianças do Centro de Animação das Saibreiras
    Presépio feito pelas crianças do Centro de Animação das Saibreiras
    Eu assumo não me atrever a abordar o sentido teológico do simbolismo da oferta de ouro, incenso e mirra feitas a um menino de nome Jesus. Não sei e não quero saber tudo, contudo, tendo em conta que consideraram aquele bebé, Rei, ofereceram-lhe as preciosidades que acharam dignas de tal.

    Ao nascimento deste menino associamos-lhe uma gruta onde estava deitado em palhinhas e falamos de humildade e partilha, que é a grande mensagem do espírito de Natal.

    A esta época natalícia está associado o conceito de “pobreza” – lembrar as pessoas desfavorecidas de quem não nos devemos esquecer. Só que atualmente, e tendo em conta as transformações que estão a ocorrer na nossa sociedade, penso que estamos já em situação de abolir este termo – “pobre” –, dado que agora é estranha a pobreza que atribuímos aos outros, quando nós, por vezes, somos os verdadeiros “pobres” numa ausência de solidariedade, generosidade, humildade. Ao ponto de ir ao encontro do outro, que amiúde vive dentro de nós e até dentro da nossa casa e só conseguimos ter paz e ser felizes, numa única noite, de Natal.

    Ouvimos e ensinamos as crianças dizer: «Vou dar isto aos pobrezinhos» e, às vezes, somos nós que somos tão “pobres” que nem a simples saudação de um bom dia dizemos, e à atitude de ir ao encontro de pessoas que muitas vezes próximas de nós sabemos que estão a passar dificuldades, substituímos esse gesto pelo simples escárnio e maldizer, escondendo-nos atrás de todo o tipo de desculpa e justificações para não o fazer.

    Contudo, todos nós havemos de conhecer gente que foi apanhada pelos azares da vida, gente que nunca sonhou que o seu castelo desmoronasse, gente que pensaria sempre: Eu? Porquê eu? Isto nunca me deveria ter acontecido. A vida foi e sempre será uma caixinha de surpresas porque também nunca foi e nunca será uma ciência exata traduzida numa simples regra matemática.

    Se o Natal do ano passado me tinha chegado pelas mãos de crianças que, com amor e carinho, nos fizeram o pinheirinho de Natal lá nas Saibreiras, este ano foi-me enviado o espírito de Natal nos olhos brilhantes também de meninos quando, extasiados, olhavam chuteiras de futebol, que já andaram nos pés de outros meninos e que receberam como uma dádiva, um presente.

    O que eles não viram, porque a alegria não lhes deixava, foram as lágrimas nos olhos da sua mãe que, seguramente, pensava não ser aquilo que queria para eles, mas também senti que essa tristeza foi superada pela felicidade que sentiu nos filhos por quem aquela mãe guerreira tanto tem lutado para lhes minorar o efeito nefasto de uma crise que não se compadece com nada, nem com ninguém, e seremos nós que teremos que nos pôr a salvo, enquanto temos tempo, reinventando uma nova forma de vida.

    Porque, se calhar, o outro de hoje seremos o nós de amanhã, a partir deste ano devíamos colocar como prenda no nosso sapatinho de Natal a audácia de provocar a sociedade civil e agir numa união que fará a força que por si impulsionará a mudança, fazendo-nos “acordar”, olhar ao nosso redor e perceber onde poderemos ser úteis, confiar nas instituições de solidariedade e perguntar de que forma poderíamos contribuir com o que nos sobra, com o que nos é excedentário.

    Felizmente que isso já se vem a verificar aqui no nosso Centro de Animação das Saibreiras, onde temos o apoio do Centro Social de Ermesinde e também de “supermercados amigos” que nos entregam aquilo que lhes é permitido e nós, numa simples regra de multiplicação, partilhamos no nosso refeitório comunitário, ajudado pelas mãos amigas de quem lá trabalha e de quem orienta e assegura que tudo é encaminhado da forma mais justa e equilibrada possível.

    Como simbolismo de estabelecimentos comerciais que são impulsionadores da solidariedade com que nos distinguem ao longo do ano aqui uso um nome – Fátima –, uma pessoa que tem comércio de porta aberta e a quem ouvi dizer que conhece e identifica as pessoas que passam por momentos menos bons na sua vida e com quem partilha, em silêncio e com discrição algo de seu, que considera não lhe fazer falta e sente ter recebido como uma dádiva. Diz nunca se ter esquecido dos momentos difíceis porque passou no início da sua vida e sabe dar-lhe o valor, e também é uma forma de se sentir humana e de dar graças por tudo aquilo que recebe da força do seu trabalho.

    Falamos de Natal, falamos de família, e este ano devíamos ter a coragem de fazer um presépio, simples e singelo, de preferência com a ajuda dos nossos filhos, explicando-lhes que a família é o pilar onde assenta a sociedade e mesmo em caso de famílias monoparentais em que na casa não está um dos progenitores eles devem saber que existem porque um dia, numa fração de tempo mais ou menos longa alguém os amou ao ponto de os conceber e esse sentimento vai sempre existir em pessoas que só têm “estranhas formas de amar”.

    Mesmo aos meninos que precisam de crescer em instituições um dia, ser-lhes-á permitido fazer os presépios das suas vidas com as famílias que eles próprios irão constituir, dando origem a novas famílias e ao desenvolvimento de uma sociedade que, justa ou não, estará nas suas mãos mudar.

    E, nesses presépios de que falo, devemos também abrigar todos os que já cá não estão porque partiram da nossa mesa, da nossa vida, mas nunca irão partir dos nossos corações.

    Os reis magos dos nossos presépios serão as pessoas que deixarmos entrar nas nossas vidas e o ouro, o incenso e a mirra serão substituídos pela amizade, pelo respeito, pela tolerância e pela gratidão, que é um dos sentimentos mais nobres do ser humano. Daí preciso dizer obrigado menino grande, por me teres emprestado as tuas memórias, de um tempo em que presépios havia que, pelas mãos de crianças, eram feitos de escória deixados por um comboio que vos transportava para os sonhos que ficaram a fazer parte da vossa história.

    O Natal foi e será sempre quando o homem quiser, só que agora efetivamente precisamos dele todos os dias da nossa vida, porque significa o renascimento e a fé de alguém que, na figura de um menino, chega para nos salvar, e todos sabemos que se quisermos e tivermos vontade de O encontrar Ele está vivo e abrigado na sua gruta que é dentro de nós mesmos.

    Finalmente, e porque uma das grandes lições que a vida me deu e nunca esqueci foi num Natal em que pedi a duas pessoas, de orientação sexual diferente, que me ajudassem a fazer um presépio e no final, vi-os de mãos erguidas, em gesto de oração emocionados, a chorar, com o coração cheio de fé, uma fé mais forte do que a minha, só posso terminar desejando um

    Feliz Natal para TODOS, sem qualquer tipo de exceção!

    Por: Glória Leitão

     

     

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