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Edição de 31-12-2019
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    Arquivo: Edição de 15-04-2011

    SECÇÃO: Destaque


    COMUNICAÇÃO SOCIAL OU COMUNICAÇÃO ANTI-SOCIAL?

    PCP local debateu comunicação social com César Príncipe e “A Voz de Ermesinde”

    A organização concelhia do PCP levou a cabo, no passado dia 26 de Março, no auditório da Junta de Freguesia de Ermesinde, um debate com a presença de César Príncipe, sobre o tema “Comunicação Social ou Comunicação Anti-Social”. O jornal “A Voz de Ermesinde” foi, de igual modo, convidado a participar nesta conversa, tendo também tomado lugar na mesa a sua directora, Fernanda Lage.

    O debate, com participação do público, tentou perceber as tendências, limitações e espaço da comunicação social, bem como os entraves que lhe são colocados pelo mundo dos negócios, impedindo ou dificultando a sua isenção perante os factos.

    Fotos URSULA ZANGGER
    Fotos URSULA ZANGGER
    Feita a apresentação dos presentes por Adelino Soares, o líder da Concelhia comunista, deu este início ao debate, tecendo uns breves comentários sobre um livro recente de César Príncipe: “Expresso & Avante: Dois Espelhos do Mundo” e apresentando também o jornal “A Voz de Ermesinde”, que se quer «manter o jornal o mais independente possível, que tem sido».

    César Príncipe, na verdade um príncipe do jornalismo, cuja figura se faz notar na oposição ao fascismo antes do 25 de Abril, inicia a sua intervenção apontando o facto de que, enquanto consumidores de televisão, todos corrermos aparentemente o mundo inteiro, tendo o mundo à mão. Mas ser essa uma realidade enganadora, pois não temos livre escolha. «Tudo foi formatado para certos públicos», aponta o jornalista e investigador da comunicação. Ficamos impotentes perante a oferta que temos, adianta ainda, «tudo pode ser social e anti-social», não é por acaso que, em vários órgãos de comunicação se dão os títulos mais gordos a notícias menores e crescem os conteúdos de diversão e distracção. E precisando melhor a orientação dos meios de comunicação: «Há sempre duas agendas, a agenda explícita e a [agenda por] omissão».

    E respondendo para si próprio sobre a questão de haver censura ou não, diria: «[Hoje] a liberdade tem dono».

    «Ao comprarmos o produto – comparou ainda –, ele pode fazer-nos melhor ou pior, como certas comidas».

    E ainda: numa televisão, «quem tem maior liberdade é o seu dono». E explicando todo um processo de selecção e promoção, nesses órgãos de comunicação: «Os melhores nem precisam de ser chamados à atenção sobre o que escrevem, e até chegam a directores», «há redactores de mil euros e redactores de cinco mil euros, com carro, cartões de crédito, etc.».

    E relacionando depois a comunicação social e o poder: «Com dinheiro, eu comprava uma televisão e dois ou três partidos, que estão aí à venda».

    E explicitou depois um pouco da geografia do mundo da comunicação social com nomes como PT Multimedia, Impresa, Mediacapital, Cofina, Impala, Prensa Iberica, Controlinvest, Sonae, também Igreja Católica e IURD, também o Estado.

    No fim, a conclusão de César Príncipe: «Uma grande malha de investidores privados, que escolhem os políticos que vão ser eleitos».

    NOVAS CENSURAS

    E AUDIÊNCIAS

    Fernanda Lage iniciou a sua intervenção pegando precisamente na questão da censura, exercida pelo poder económico ou de Estado. No tempo do lápis azul às vezes o director não permitia a intervenção do jornalista, mas hoje em dia as novas censuras podem ser muito variadas, algumas delas até tecnológicas.

    Agora decide-se quem fica ou quem sai [de um lugar de chefia ou de um emprego] por questões de maior ou menor fidelidade.

    Qual é a preocupação das televisões estatais? As audiências. Por isso, em função das audiências, os programas têm vindo a decrescer de qualidade.

    «O que é pago pelos dinheiros públicos não deveria sujeitar-se a audiências».

    E abordou depois a questão da verdade, dando o exemplo da Lusa: «a informação vai filtrada conforme os nichos (...), a comunicação social é cada vez mais igual e amorfa. O que sai fora disto é marginal».

    E por fim, o facto de haver uma comunicação toda igual é um perigo e um dano maior do que haver o medo do risco azul.

    A informação, hoje, em geral, está sujeita a vários filtros.

    COMUNICAÇÃO

    GLOBAL

    César Príncipe abordou de seguida uma outra questão, a da informação a nível global: «70 ou 80% da informação [que circula] parte dos Estados Unidos» e ainda «a máquina tremenda de venda de informação é total».

    E concluindo esta abordagem, comparou-a à lógica da droga e do traficante, com este empenhado em criar a necessidade.

    «As pessoas julgam que estão a consumir e estão a ser consumidas».

    PERÍODO

    DE DEBATE ALARGADO

    AO PÚBLICO

    foto
    Entre as muitas intervenções do público, o primeiro a usar da palavra foi Carlos Coutinho (membro da Assembleia de Freguesia de Ermesinde), que apontou o próprio debate como um exemplo do peso do circo mediático, pois apesar de um grande esforço de divulgação, o seu efeito tinha sido diminuto.

    Falou depois da história da TVI e da passagem da sua propriedade das mãos da Igreja Católica para outras mãos e de como foi esse processo.

    Outras intervenções do público saudaram a presença de César Príncipe, e questionaram a possibilidade de contrariar a actual situação, em favor de meios (ou de um meio) de comunicação social em que se pudesse manifestar um maior espírito crítico, democracia, diversidade...

    Outra intervenção deu como um exemplo dessa televisão independente o caso da Telesur.

    «Faltam meia dúzia de capitalistas do nosso lado, que sei que os há», comentou alguém.

    E novas achegas foram chegando ao debate: «Até fica bem haver um jornal em que alguém diz qualquer coisa de pouco comum – uma diversidade controlada –, mas há sempre formas de abrirmos umas brechas».

    Outra reflexão surgida no debate foi a de que «as ideias dominantes eram as ideias da classe dominante».

    Comentando algumas destas intervenções, César Príncipe citaria o escritor italiano Antonio Tabucchi, que tinha afirmado que, «em Itália há toda a liberdade para se dizer o que se quiser. O problema é aonde».

    Falou depois de exemplos de resistência, como o da Guerra do Vietname, cujo povo conseguiu vencer mesmo apesar das bombas de fragmentação, fósforo, napalm, minas e três milhões de mortos!

    «Devemos ter capacidade de indignação!».

    E denunciando uma técnica conhecida do tempo do fascismo: a censura só dá notícias de arruaça [nos movimentos alterglobalização], para poder criminalizar os movimentos sociais.

    E aludiu depois à forma distinta como a comunicação social aborda a situação na Líbia e na Arábia Saudita. Quanto à primeira é preciso concentrar o ódio num só homem, diabolizar («ditador», «tirano»), enquanto no segundo caso, sobre a ditadura medieval saudita, nada é dito.

    IMPRENSA

    LOCAL

    Abriu-se então aqui um espaço de debate sobre a imprensa local, naturalmente centrado em “A Voz de Ermesinde”, tema mais uma vez introduzido por Adelino Soares.

    A história do jornal, a sua postura e dificuldades foram abordados de passagem, bem como a sua luta para sobreviver com dignidade e independência.

    Passando de novo a um debate mais geral César Príncipe abordou ainda nesta nova situação de censura, o surgimento de uma sindicalização clandestina, o facto dos poderes fazerem as mudanças e só depois as passarem à letra.

    E recordou ainda uma velha técnica do poder: o “pão e circo” dos Romanos.

    Por fim respondeu acerca da forma como a comunicação social tinha tratado, de forma distinta, as manifestações da Geração à Rasca e da CGTP, em semanas consecutivas. Sobre aquela referiu que agora, naquele movimento, tudo vai depender da sabedoria, prudência e coerência. «Se incomodar, irá ter as provocações clássicas», comentou.

    José Caetano, ex-deputado municipal referir-se-ia, entre outras coisas, também à imprensa local: «Temos algumas críticas a fazer, mas “A Voz de Ermesinde” tem mantido a sua independência».

    Por: LC

     

     

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