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Edição de 30-04-2022
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    Arquivo: Edição de 30-10-2010

    SECÇÃO: Editorial


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    A morte

    «(…) A morte afronta-nos e confronta-nos com tudo o que fomos e somos. Obriga a pensar em respostas que não existem. Faz-nos sentir emoções que marcam para sempre a vida. A morte dita a forma como se vive a vida». (1)

    «(…) Na verdade ninguém morre para sempre. A sua voz, a sua luz existe e persiste enquanto continuar vivo na memória dos afectos de quem fica.» (1)

    Com o aproximar do dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou Dia dos Finados, lembrei-me da morte, do conceito de «bela morte e morte bela».

    No século XIX os burgueses morriam em casa. Aos seus olhos o hospital era «lugar de horror», onde morriam aqueles que não tinham dinheiro nem família.

    Desde o século II que alguns cristãos rezavam pelos falecidos visitando o túmulo dos mártires. No entanto parece que foi a partir do século XIII que se passou a comemorar o dia dos fiéis defuntos a 2 de Novembro.

    Vivi muitos anos junto da igreja e do cemitério, habituei-me a ver passar os funerais e a distingui-los, sempre me fez muita impressão os funerais com três padres e os meninos órfãos, vestidos de cinzento e de cabeça rapada, que rezavam e cantavam algo que me chocava mas não entendia. Muitas vezes perguntei à minha avó quem eram, porque lhes rapavam o cabelo!

    Eram uns belos funerais! …

    Tal como em vida há classes nos funerais, os rituais também se diferenciam em função das crenças religiosas e dos hábitos das regiões.

    Em Ermesinde quando morria alguém que fosse conhecido na terra ia um grupo de homens de porta em porta comunicar o falecimento – não havia telemóveis!

    No século XIX e até meados do século XX a morte era integrada na própria concepção do alojamento.

    Em 1875 o abade Chaumont escreve que o quarto conjugal era um «santuário» que um dia abrigaria a agonia. Por isso há que colocar lá uma «doce mas instrutiva imagem da morte de S. José». (2)

    A morte era acompanhada pelos membros da família que se revezavam à cabeceira do moribundo.

    Nalgumas terras recorria-se às carpideiras, mulheres treinadas para chorar os mortos.

    Enquanto o morte permanecesse na sua residência estava sempre acompanhado de familiares e amigos, o velório era contínuo e durante a noite serviam-se café e biscoitos.

    Com o crescimento das grandes cidades, a construção de apartamentos cada vez mais diminutos tornou impossível para o maior número de pessoas este acompanhamento. Por outro lado uma maior preocupação com a higiene leva a que a morte, que até então estava de certa forma integrada na vida, comece a ser mais escondida, passando a ser usual num hospital. A proximidade da morte é encarada como algo de penoso que se tenta evitar.

    Esta questão de evitar o contacto com a morte leva a que as pessoas não se preparem para encarar uma realidade da vida, que é o seu fim, independentemente das convicções religiosas de cada um.

    É aqui que eu penso: O que será uma bela morte?

    Uma morte em paz, sem sofrimento!...

    Hoje está a chegar a Portugal um negócio da morte que oferece uma morte bela, se possível o mais parecida com a vida, preparam-se os mortos para que estes pareçam vivos e belos…

    Para quem fica é muito importante fazer o luto, que não é sinónimo de vestir de preto.

    Fazer o luto não significa esquecer quem partiu, mas aceitar essa partida guardando tudo o que de melhor nos ficou do convívio com esses nossos familiares, amigos ou simplesmente gente que admirámos em vida.

    (1) Strecht, Pedro, “Uma Luz no Meio de Nós. As Crianças e os Adolescentes Perante a Morte”, Assírio & Alvim.

    (2) Ariés, Philippe, e Duby, George, “História da Vida Privada. Da Revolução à Grande Guerra”, Edições Afrontamento.

    Por: Fernanda Lage

     

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