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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 30-07-2010

    SECÇÃO: Destaque


    III FESTA DO MUNDO – FESTIVAL PELA INTERCULTURALIDADE

    O mundo... em Ermesinde

    Entre os passados dias 16 e 18 de Julho decorreu no Parque Urbano de Ermesinde a III Festa do Mundo – Festival pela Interculturalidade, mostra de actividades e de cultura dos povos do Globo, precedida, no dia 15, pela teatro-conferência “Tomar a Palavra”, já sobre o tema da interculturalidade, evento esse que se debruçou sobre a realidade cigana.

    Este primeiro evento contou com uma dramatização de testemunhos recolhidos de mulheres da comunidade cigana portuguesa, levada a cabo por um grupo teatral amador do concelho (Grupo Dramático e Recreativo da Retorta), testemunhos esses comentados depois por um painel em que participaram Sara Falcão Casaca, presidente da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Zaida Garcez e Luís Braga, professores, em Darque – uma comunidade escolar com a maior concentração cigana do continente – e com uma experiência pedagógica estimulante e, ainda, a vereadora Maria Trindade Vale e a comissária concelhia para a Igualdade de Género Eunice Neves.

    Fotos URSULA ZANGGER
    Fotos URSULA ZANGGER
    Após uma breve introdução de Eunice Neves, a anfitriã do evento, apresentando a Agência para a Vida Local e os participantes do painel, o Recreativo da Retorta deu início à série de sketches com que pretendeu representar os testemunhos das mulheres ciganas auscultadas.

    A situação da mulher, na tradição da vida cigana – como um certo desprezo pelas viúvas, segundo testemunho das próprias –, ou nos seus mais recentes desenvolvimentos, alguns inesperados – como estar a baixar muito a média de idade com que as mulheres ciganas se casam, fruto ao que parece, dos apoios sociais disponíveis –, foi então escalpelizada pelo painel, que não deixou, todavia, de identificar outros sinais, como por exemplo, o orgulho na identidade cultural específica, a cada vez maior valorização da escola ou das mulheres poderem participar na escolha do seu próprio marido.

    Zaida Garcez ajudou a explicar alguns dos motivos pelos quais a escola era recusada pela cultura cigana e que tinham muito a ver com o facto de as crianças serem fechadas num edifício.

    «A escola precisa de aprender a estar com os ciganos», defendeu.

    A experiência pedagógica positiva da escola de Darque em que os professores se deslocam com regularidade pré-determinada ao acampamento mostra como não é a escola em si, que está em causa, mas sim a questão da perda da liberdade.

    Quando a vereadora Maria Trindade Vale se queixou da prática de algumas famílias ciganas de retirar as janelas das suas casas nos bairros sociais que habitam, a discussão também evoluiu no sentido de exigir à sociedade que em vez de impor um modelo de habitação aos moradores, o faça na concertação, ajudando a identificar necessidades diferentes de cultura para cultura.

    O vice-presidente da Câmara e vereador com o pelouro da Cultura, João Paulo Baltazar comentou que, em relação ao povo cigano, nos assusta a sua diferente relação com a liberdade. Relativamente ao seu modo de vida «eles não têm as mesmas âncoras que nós», comentou ainda.

    Nos depoimentos ciganos, a discriminação aflorou mais de uma vez, com as mulheres ciganas a queixarem-se que a polícia por vezes batia, sem qualquer razão aparente. Curiosamente este foi um tema que o painel não comentou.

    Mas comentou outros, muito por “culpa” de Luís Braga, director do Agrupamento de Escolas de Darque, ou da também a essa experiência ligada, a educadora de infância Zaida Garcez. A experiência de ambos demonstrou a possibilidade de diálogo, quando este é pautado pela justiça e o respeito. Zaida Garcez falou da necessidade de se passar da mera coexistência para uma prática de diálogo inclusivo. E Luís Braga insistiu muito, aliás, na questão das pessoas serem tratadas por igual, com justiça, e demonstrou que mesmo num Agrupamento em que a etnia cigana atinge cerca de 10% dos alunos, é possível uma boa prática de convivência intercultural na comunidade.

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    O director da escola de Darque fez até uma experiência interessante, a de questionar a sala sobre o número de ciganos em Portugal, verificando-se que esta, por larguíssima maioria, avaliou muito por cima esse número, chegando-se a apontar cerca de 1 milhão de pessoas quando, na verdade, como o confirmam os censos do SOS Racismo e da Pastoral cristã dos Ciganos, estes não serão mais que 50 a 60 mil. Ora isto indica que existe um problema de avaliação, baseado provavemente em relatos desfazados da realidade.

    Uma técnica municipal ligada à Habitação também comentou, por exemplo, que muito do que agora sucede nos bairros recém-habitados por pessoas de etnia cigana, também aconteceu há alguns anos atrás com outras pessoas e deu o conhecido exemplo do início Bairro das Saibreiras, em Ermesinde.

    E quando no período de intervenções do público alguém comentou o comportamento anti-social dos ciganos à porta do hospital, por exemplo, Zaida Garcez contrapôs que eles nunca abandonam um familiar e devem ser tratados com justiça e não com medo.

    Nos dias seguintes o palco da festa foi o Parque Urbano, onde os visitantes puderam responder a variadas propostas culturais, no domínio da dança, artes plásticas, artesanato, desporto e outras actividades tão diversas como capoeira ou origami, por exemplo e assistir a espectáculos musicais.

    Por: LC

     

     

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