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    Arquivo: Edição de 15-04-2010

    SECÇÃO: Crónicas


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    O que é ser feliz?

    A vida é uma sequência temporal em que bons e maus momentos se misturam, umas vezes de forma imprevisível, outras por acção humana reflectida e aplicada, outras ainda por circunstâncias várias. Se a conjugação dessas circunstâncias nos favorece e alegra, consideramo-nos felizes, embora ninguém até hoje tenha conseguido definir a felicidade de maneira exacta e muito menos indicar o caminho que a ela conduz. Várias correntes filosóficas e quase todas as religiões prometem a felicidade se não nesta vida, ao menos noutra que se afirma eterna.

    Mas, poder-se-á entender felicidade como sinónimo de alegria duradoura, contentamento tranquilo, exaltação positiva das emoções? Creio que não, porque, quase sempre, um momento de alegria, além de passageiro, inebria os sentidos mas não faz esquecer múltiplos problemas que nos alfinetam a mente tal como o sono mais profundo não consegue vencer uma persistente dor física. Vinícius de Moraes, no poema A Felicidade que Tom Jobim musicou e foi tema dominante em Orfeu do Carnaval de Marcel Camus, rodado no Rio de Janeiro, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1959 e vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro nesse mesmo ano, escreve:

    Tristeza não tem fim

    Felicidade sim.

    A Felicidade é como a pluma

    Que o vento vai levando pelo ar

    Voa tão leve

    Depois de um tempo breve

    Precisa que haja vento sem parar.

    O grande poeta brasileiro compara também o que denominamos felicidade a uma gota de orvalho suspensa na pétala da flor, que

    brilha tranquila

    depois de leve oscila

    e cai como uma lágrima de amor

    e aos dias de Carnaval vividos intensamente mas na perspectiva das Cinzas: p’ra tudo se acabar na quarta-feira. Consciente da transitoriedade dos bons instantes, tentou conduzir a sua vida de modo a evitar a ressaca que, por regra, sobrevém a uma euforia infrene. Casou nove vezes e mais vezes o teria feito, se a morte o não viesse buscar tão cedo. Quando um relacionamento não lhe proporcionava a tão almejada satisfação amorosa, colocava-lhe um ponto final. Numa dessas ocasiões, publicou o Soneto de Fidelidade cujo terceto final era assim:

    Eu possa me dizer do amor (que tive):

    Que não seja imortal, posto que é chama

    Mas que seja infinito enquanto dure.

    Consoante as épocas, a concepção de felicidade alterou-se. Ao início do último terço do século XIX, a felicidade estava muito ligada à moral cristã como ainda vem acontecendo, embora em menor grau. Durante a célebre Questão Coimbrã, que assinalou a passagem do Romantismo ao Realismo, quase todos os grandes escritores da época intervieram. Camilo Castelo Branco escreveu um opúsculo tendo como alvo o patriarca Castilho e subordinado ao título Onde está a Felicidade? Castilho respondeu-lhe, utilizando o mesmo processo: Na Consciência, era este o título.

    Desde crianças, habituámo-nos aos Contos Maravilhosos que terminavam com a expressão “E foram felizes para sempre” e acreditámos nessa perspectiva risonha. A vida ensinou-nos a ser menos confiantes e, ao invés de crermos numa concepção determinista, aprendemos a contar com a força de vontade indispensável para enfrentarmos e vencermos dificuldades, desânimos, frustrações, e a decidir livremente o próprio destino. Temos hoje a vantagem, que aos nossos ancestrais foi recusada, de fazer as escolhas que entendermos por adequadas.

    Ao tio Alípio Nunes concertaram-lhe o casamento com uma jovem de apenas 16 anos natural de uma aldeia próxima. Como acontecia muitas vezes, a jovem nubente, se não desconhecia o noivo, tinha dele muito vaga informação. Após a cerimónia, teve artes de se escapulir para a casa paterna, aproximadamente a cinco quilómetros de distância. Mal o Alípio deu conta, foi buscá-la e teve o precioso apoio da sogra para que a Gracinda Maria compreendesse que era, agora, uma mulher casada e tinha os direitos e também os deveres inerentes a tal estado. Não houve fadas nem varinhas de condão neste matrimónio desde o início atribulado. Impossível saber se o amor, condição essencial para uma relação saudável (feliz?), alguma vez terá sido determinante neste caso. O tio Alípio, além de herdeiro de uma boa casa de lavoura, era considerado um homem de agradável aparência, alto e bem proporcionado, que muitas moças das aldeias vizinhas cobiçavam, enquanto a Gracinda estava longe de ser bonita, só a juventude pelejava a seu favor. Pareceu, finalmente, ter aceitado o que outros haviam decidido por ela.

    Os filhos sucederam-se a intervalos regulares, dois faleceram ainda crianças, três cresceram e integraram-se na rotina familiar e nas tarefas agrícolas proporcionais à sua idade. Pouco mais de uma década volvida, um boatério (beatério?) começou a circular, pondo em causa os votos de fidelidade da Gracinda, por consequência a honra do marido. As más-línguas argumentavam com diferenças físicas entre os filhos que vieram a seguir e os que os antecederam, trazendo à colação o nome do abade da paróquia. É fácil imaginar como o ambiente familiar se degradou, não tanto pelos componentes do casal, mas, sobretudo, pelos filhos mais velhos que não aceitavam os cochichos, os silêncios, as meias palavras quando se juntavam à rapaziada da aldeia, e até os gracejos e as nomeadas dos garotos sobre os filhos mais novos. Se a brincadeira dava para o torto, lá vinha a ofensa:

    - Padreca!

    O tio Alípio ignorava alguns olhares maliciosos que lhe endereçavam uma vez que de nada o podiam acusar. Certa vez em que um amigo, com a maior delicadeza lhe perguntou porque não reagia a uma situação como aquela, respondeu, com toda a calma e naturalidade, que já tinha tomado as providências que estavam ao seu alcance, o resto entregava-o na Mão de Deus.

    Contudo, o senhor Alípio não deixou de ser uma pessoa muito considerada em toda a parte, Bragança incluída, e todos os amigos continuaram a frequentar a sua casa nas funções e nas festas e a convidá-lo para as suas, convite a que raras vozes acedia. Sem prejuízo do respeito que lhe era votado, tinha um sentido de humor muito peculiar e ninguém se apercebia do profundo desgosto que lhe envenenava a existência.

    Outras mágoas vieram, no entanto, atingi-lo. António, o filho mais velho do casal, amava uma moça da terra mas, fiéis aos costumes antigos e não obstante o insucesso do próprio casamento, os pais destinaram-lhe outra esposa. Contrariado, aceitou a decisão e as consequências negativas não se fizeram esperar. No mesmo ano em que nascia a primeira filha do novo casal, também a mulher que o António amava o presenteou com uma menina acolhida e criada pelos avós. Os ciúmes da esposa tornaram-lhe a vida demasiado amarga. O António suportou enquanto pôde mas, um dia, não aguentou mais e abalou para França onde veio a falecer longe de tudo quanto amava. O casamento do segundo filho ficou também marcado por uma série de acontecimentos dramáticos de que este nunca mais logrou libertar-se. E os dias nefastos repetiram-se com quase todos os filhos só conseguindo algum alívio com os netos que lhe foram enchendo a casa e a vida. Entretanto, a tia Gracinda falecera com pouco mais de cinquenta anos, acrescentando mais esse desgosto ao extenso rol de eventos funestos que acompanharam a família do tio Alípio.

    Neste ponto me encontro em imensa perplexidade. Apesar de todas as coisas más que vão descaracterizando uma vida que se desejava plena de felicidade, os momentos bonançosos surgem a espaços para nos dizer que há sempre algo de positivo mesmo quando tudo parece desmoronar sobre nós.

    Por: Nuno Afonso

     

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