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Edição de 31-01-2021
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    Arquivo: Edição de 10-09-2009

    SECÇÃO: Arte Nona


    Mistérios e teorias nas cidades obscuras

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    Mais um capítulo da saga das Cidades Obscuras, de François Schuiten e Benoît Peeters, uma criação fundamental da Banda Desenhada europeia. Desta vez, o palco de cena é Brüsel, no ano de 784 e, mais uma vez nos acercamos de um universo que goza com o nosso na formas, nas referências, por exemplo um canção de Charles Trenet, ou reacende um outro, inquietante, longínquo e próximo, a um tempo.

    Em “A Teoria do Grão de Areia” (Casterman, 2007 e 2009), obra em dois volumes, dos quais apenas o primeiro está já editado em Portugal, pelas Edições Asa, o universo estende-se desta já conhecida Brüsel até à geométrica Urbicanda e a personagens que regressam, como Mary von Rathen, a “menina inclinada”, aqui investigadora dos mistérios que assolam Brüsel depois da chegada de um “gigante” nómada, alto dignitário, chefe de uma tribo do Bulaquistão - os bugtis que traz consigo, para negociar, várias jóias.

    Depois é o sua morte, aparentemente causada por um vulgar acidente na via pública, quando é colhido por um eléctrico. «Apitei demasiado tarde...», lamenta-se o condutor.

    Mais uma vez encontramos um argumento refinado com a subversão das regras físicas ordinárias, como na já referida “A Menina Inclinada”, mais uma vez uma incursão pelo fantástico.

    Mais uma vez nos deparamos com os jogos de cor, que brotam inesperados, do grafismo a preto e branco de todo o conjunto, como em “A Torre”, na qual, a dado passo, irrompia a cor, ou como em “A Menina Inclinada”, com a introdução de fotografias (de Marie-Françoise Plissart).

    Ou aqui, em que a cor introduzida é... o branco. O branco? Sim, o branco.

    Para chegar a esta sofisticação cromática da evidenciação da cor branca, o artifício de Schuiten foi a produção de toda a obra num fundo beige próximo do branco mas claramente distinto, permitindo então a inclusão de uma cor branca, excepcional, para a coloração de certos objectos.

    O fantástico revela-se, ao mesmo tempo, patologicamente, digamos assim, numa série de eventos inexplicáveis, como são o surgimento de novas pedras sucessivamente, em lugares inesperados e sem que se saiba de alguém que lá as ponha - surgem simplesmente, ou a acumulação de montes de areia em outros locais, do mesmo modo sem que ninguém perceba como aparecem, num crescendo de volume e massa, uma e outra ameaçando derrocadas e o transbordar em avalanche para a via pública, ou ainda o estranho fenómeno do senhor Maurice, cozinheiro e proprietário de um restaurante que, de um momento para o outro começa a ficar mais leve, mais leve, até já não poder aguentar-se no chão.

    Como sempre na obra de Schuiten, uma rigorosa atenção às formas, com as personagens a mexerem-se em locais bem arquitectados e definidos. As cidades são todas diferentes umas das outras, mas o universo fantástico é claramente o mesmo. E é notória uma carga propositada de arcaismos ou futurismos contemporâneos uns dos outros e igualmente paradoxais.

    Depois as personagens, cada uma cumprindo um papel, definidas mais por funcionalidades do que por psicologias.

    Por: LC

     

     

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