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    Arquivo: Edição de 30-04-2009

    SECÇÃO: Destaque


    Golpe de Estado ou Revolução?

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    O programa de comemorações do 25 de Abril da Junta de Freguesia de Ermesinde teve início ao princípio da tarde do dia 24, com a entrega de prémios do Concurso Escolar de Cartazes alusivos à data.

    Américo Silva, tesoureiro da Junta, entregou o 1º Prémio, que foi atribuído a Rui Manuel Teixeira Salabertt. Premiados com o 2º e 3º Prémios foram respectivamente, Pedro Filipe Araújo Mota e uma turma do 2º Ano da Escola EB1 da Gandra. Os prémios foram entregues pelas vogais da Junta Alcina Meireles e Sónia Sousa.

    Logo de seguida, no mesmo anfiteatro da Junta de Freguesia de Ermesinde onde decorreu a cerimónia, assistiu-se a uma palestra de Jacinto Soares sobre o 25 de Abril, mas a tarefa do orador viu-se muito dificultada com a a heterogeneidade dos públicos presentes, a audiência adulta que acorreu ao evento, os alunos dos últimos anos da Escola Secundária de Ermesinde e os muito mais pequeninos alunos da Escola Básica da Gandra.

    Ainda assim Jacinto Soares, que invocou a sua experiência de muitos anos como professor, aliás com vários ex-alunos seus na sala, deu boa conta do recado. Começou o palestrante: «Conheci o 25 de Abril antes, durante e depois», para de seguida estabelecer uma breve comparação com as grandes revoluções de 1385 e 1820 e reconhecer ainda similitudes com as revoluções francesa e russa.

    Escolheu, para ilustrar esse conceito de revolução de forma compreensível para o público presente a coeducação de géneros, impensável antes do 25 de Abril, referiu algumas das instituições do anterior regime, como a Mocidade e a Legião Portuguesa, a censura, a falta de liberdades gerais, e destacou a existência da «guerra colonial, em que morria muita gente».

    Depois apresentou a ideia caracterizadora do 25 de Abril como um golpe de Estado seguido de uma revolução, questão a que haveria de se voltar.

    O ideal dos militares seria então “Democratizar, Desenvolver e Descolonizar”.

    O objectivo de democratizar foi mais ou menos alcançado com a aprovação da Constituição de 1976, que substituiu a de 1933. Mas o processo político foi cheio de vicissitudes.

    Num período de perguntas e respostas, uma ex-aluna sua, filha de um casal de retornados, questionou o processo de descolonização – os pais sentiam muita mágoa pela forma como tinha sido feito. Jacinto Soares explicou que, ao contrário de outras potências coloniais, Portugal não preparou a descolonização e se alguma coisa não correu bem, tal se deve sobretudo à responsabilidade dos anteriores governantes, as revoluções sacrificam sempre inocentes, juntou ainda.

    José Manuel Pereira, na qualidade de moderador/dinamizador do debate inquiriu o orador: revolução ou Golpe de Estado?

    Jacinto Soares, falando da grande alteração que se produziu ao nível das estruturas de poder, ilustrou: «Tivemos aqui um indivíduo que nem falar sabia e que foi procurador à Câmara Corporativa».

    Tavares Queijo, coordenador do PS/Ermesinde, presente na assistência, defendeu que os capitães de Abril não tinham, de início a ideia de fazerem o que fizeram. O que se passou foi um golpe de Estado, defendeu, os partidos da Esquerda é que vieram ultrapassar os militares.

    Jacinto Soares concordaria em parte, e lembraria até processos anteriores em que o regime poderia ter mudado: «Em 1956, se houvesse eleições livres, o regime teria mudado. [Em 1974] os militares apenas foram o instrumento de forças mais poderosas que queriam a democracia».

    Sónia Sousa, eleita do PCP na Junta, reforçou: «Foi uma revolução! A diferença entre o antes e o depois é enorme. E defendeu mesmo a liberdade de se poder agora dizer umas “patetices”.

    Jacinto Soares lembrou esses primeiros tempos de euforia e participação popular: «Toda a gente participava», e voltando ao presente apontou depois que, muitas vezes, as pessoas escolhidas para poderem vir a ocupar um cargo político nem sempre são as melhores». A Democracia ainda não está totalmente cumprida.

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    Tavares Queijo foi ainda mais longe: «Nunca mais vamos cumprir o projecto do 25 de Abril com esta ordem social, o problema não é dos governos. Pode-se pôr lá A ou B, que é igual! O que é preciso é mudar a ordem social e económica!». Jacinto Soares anuiu e considerou poder-se estar num momento de viragem. Após o capitalismo selvagem, procure-se outro sistema económico!

    Após um breve e azedo quiproquó entre Américo Silva e José Manuel Pereira, o primeiro, enaltecendo o papel da escola, contestou, contudo, o excesso de liberdade. Respondeu-lhe precisamente um aluno da Secundária de Ermesinde, que defendeu que todo o caos posterior ao 25 de Abril era perfeitamente justificado, declarando-se orgulhoso de participar no sistema de ensino actual, e ter pena de não ter participado pessoalmente do 25 de Abril.

    De seguida Jacinto Soares defendeu uma parte do legado teórico de Karl Marx (brevemente citado – e criticado pelo referido aluno), aludiu a uma tentativa de mudança por parte de um ministro de Caetano, Veiga Simão.

    Artur Costa, membro da Junta, PS, ainda recordou alguns episódios da sua vida antes do 25 de Abril, nomeadamente uma altura em que, tendo ido pedir um aumento ao patrão, foi ameaçado por este de o denunciar à GNR.

    Por: LC

     

     

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