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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 15-03-2009

    SECÇÃO: Destaque


    CENTRO SOCIAL DE ERMESINDE – UM RETRATO DO QUE É HOJE - SERVIÇO DE APOIO DOMICILIÁRIO A IDOSOS AUXILIA MAIS DE 100 PESSOAS E FUNCIONA ININTERRUPTAMENTE

    De porta em porta, a distribuir alegria há 23 anos

    No passado dia 11 de Março acompanhámos o Serviço de Apoio Domiciliário (SAD) a idosos prestado pelo Centro Social de Ermesinde (CSE), um serviço activo todos os dias do ano, sem intermitências. A rotina começa às 08h00, com a higiene pessoal e termina por volta das 21h30, com o fornecimento de jantares.

    O SAD surgiu em Fevereiro de 1986, com apenas 20 utentes, actualmente são apoiadas mais de 100 pessoas mas continuam em lista de espera mais de 70, isto, só em Ermesinde. Bela e Sampaio figuram como as zonas mais carenciadas da cidade, de onde vem grande parte dos pedidos de ajuda.

    À conversa com Carla Ferreira, responsável pelo serviço, e Anabela Sousa, responsável pelo Lar de S.Lourenço, percebemos que há muitas situações de isolamento e de pobreza, às quais não se consegue dar uma resposta, nesses casos os idosos são encaminhados para outro tipo de atendimento, ou ficam à espera, muito ou pouco tempo, consoante a gravidade da sua situação.

    Os serviços mais requisitados pelos utentes são o fornecimento de almoços, jantares, higiene pessoal e tratamento de roupa, mas as equipas que fazem as visitas ao domicílio não se limitam a isto. Acima de tudo, são os amigos com quem os idosos partilham as suas tristezas, desabafam mágoas e enganam a solidão provocada pela falta de retaguarda familiar, muitas vezes aliada a uma deslocação forçada.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    Às 11h00 é já tempo de começar a organizar os almoços na carrinha, que nos vai levar aos domicílios dos idosos, está situada mesmo em frente à lavandaria – uma zona de grande agitação que faz adivinhar a quantidade de trabalho que por ali se faz naquele dia. O plano semanal aponta para 20 utentes a visitar, só na hora do almoço. Nós apenas acompanhamos uma pequena parte do percurso.

    Durante o trajecto ficamos a conhecer um pouco melhor a realidade de Ermesinde. Carla Ferreira, responsável pelo SAD, afirma que há muitos casos de isolamento e pobreza, mas há também pessoas que rejeitam o apoio deste serviço, porque estão habituados a estar sozinhas e recusam-se a alterar seja lá o que for.

    As que pedem auxílio são normalmente pessoas com muitas carências emocionais, é necessário saber falar com elas, e acima de tudo saber ouvi-las. «É preciso ter vocação para isto, não é qualquer pessoas que consegue fazer este tipo de trabalho», refere.

    CARÊNCIAS

    EMOCIONAIS

    As duas primeiras paragens ficam mesmo no centro de Ermesinde. Manuel (nome fictício) demora a abrir a porta. Recebe-nos com um sorriso. Entramos e subimos as escadas. Do quarto vem o som da rádio. Dirigimo-nos à cozinha, onde Sandra Sousa, um dos membros da equipa, deixa o recipiente térmico com a comida e recolhe o do dia anterior. Enquanto isso, Manuel apressa-se a ir buscar uma foto da sua esposa, falecida recentemente, e emocionado mostra-a a Carla Ferreira. Não sofre de qualquer debilidade física, apenas emocional, vive sozinho, desde que ficou sem companheira e, por isso, custa-lhe enfrentar o dia-a-dia. Carla tenta reconfortá-lo com carinho e palavras de coragem, mas nada que lhe diga parece suficiente. À saída pede que lhe levem dois casacos para lavar.

    No próximo domicílio o caso é bem diferente. Antónia e Carlos (nomes fictícios) mudaram-se há pouco mais de um ano para a casa da filha que vive em Ermesinde. As debilidades do casal iam-se acumulando, a perda de autonomia estava iminente e a solução foi deixar a casa no Porto e passar a morar nos arredores, onde poderiam gozar de todo o apoio necessário.

    Este é um dos caso frequentes em que os idosos têm retaguarda familiar, mas que por motivos profissionais, os filhos não têm disponibilidade para lhes prestar cuidados a tempo inteiro.

    «ELE GOSTA

    É DE BEIJOS!»

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    Antónia mostra-se disposta a receber-nos e encaminha-nos para o quarto onde o seu marido, vítima de um acidente vascular cerebral, passa os dias deitado numa cama. Nem dá pela nossa presença. Raramente fala, mas reconhece perfeitamente Eva Sousa e Carla Ferreira de quem aprecia os carinhos. «Ele gosta é de beijos!», diz Antónia, a sorrir. Quem não se mostra muito satisfeito com os intrusos é Carrera, o fiel cachorro, que não arreda pé da cama de Carlos, primeiro protesta, mas já cansado, resigna-se e aceita a nossa presença.

    Eva prepara-se para alimentar Carlos: «Vamos comer, vamos?», ele esboça um sorriso. Enquanto isso, Antónia, apoiada na cama do marido, relembra tempos passados. «Já foi campeão de boxe!», refere orgulhosa. «Também foi instrutor no Automóvel Clube de Portugal, mas eu nunca tirei a carta, era muito pequenina», justifica. Relembra que na sua juventude era apelidada de catraia. Carlos apercebe-se do tema da conversa e ri-se. Mas não pronuncia uma palavra sequer, apesar dos esforços de Eva e Carla. «Só fala quando lhe apetece», declara a esposa.

    Os dias de Antónia são passados em casa, com o marido, entre o quarto e a cozinha. As pernas recusam-se a fazer longos passeios, e as poucas pessoas que conhece em Ermesinde, não a fazem sair muitas vezes à rua. Carla Ferreira insiste para que Antónia saia de casa, quanto mais não seja para se distrair. «Não tenho do que me queixar, sempre que saio as pessoas prontificam-se a ajudar-me a atravessar a passadeira, não tenho qualquer problema, mas não gosto muito de sair», murmura.

    Terminada a refeição Carlos é acomodado de forma a ficar confortável e são feitas as despedidas. Mais logo voltará outra equipa para fornecer o jantar.

    «TENTAMOS MANTER

    OS IDOSOS

    EM SUAS CASAS»

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    Carla Ferreira confidencia que a estratégia actualmente adoptada é manter os idosos em suas casas, preservando a sua autonomia, porque a maioria dos cidadãos e primacialmente a população sénior, deseja permanecer em suas casas – «é aí que as pessoas se sentem bem». Além disso, a entrada num lar, não é bem encarada por alguns idosos, podendo constituir uma situação traumática nas vidas deles, referiu a responsável pelo serviço.

    A seguir paramos na Costa. Elvira (nome fictício) vive com os dois filhos, ambos portadores de deficiência física, e um deles dependente de uma cadeira de rodas. Sozinha, a cuidar dos dois, vê-se a braços com um volume de trabalho que não consegue suportar. João (nome fictício), também portador de deficiência mental, reclama da comida – não gosta de batata – é-lhe explicado que todos os alimentos são importantes para a saúde. Fica na cozinha a comer, na companhia da mãe. Despede-se de todos com um sorriso.

    A próxima paragem fica em Sonhos. Maria (nome fictício) vive sozinha. Num momento inicial mostra-se reticente quanto à nossa presença. Mais tarde, já com mais à vontade deixa-se fotografar. Recentemente deslocada, não está satisfeita com a sua situação. A responsável pelo serviço, juntamente com Eva, tenta tranquilizá-la e insiste para que continue a participar nas actividades ocupacionais desenvolvidas pelo Centro Social de Ermesinde, especialmente para os idosos.

    Maria não gosta muito de sair de casa, prefere estar sozinha. É uma das poucas utentes (há cerca de nove utentes a participar regularmente) que já participou neste tipo de actividades.

    Carla Ferreira declarou que há um grande esforço para levar os idosos a sair de casa, de forma a que convivam com os utentes do CSE. Normalmente são realizados passeios, espectáculos de dança, ginástica, idas ao cinema, e há também programação especial para as festividades e época balnear.

    Da parte da tarde seguimos o serviço de limpeza habitacional. Por volta das 14h30 começa a rotina das limpezas. O ponto de partida é o mesmo, a boa disposição também, a equipa é nova. Paramos em frente ao domicílio e entramos, recebem-nos de braços abertos.

    Vítor e Alzira (nomes fictícios) vivem em Ermesinde há pouco mais de cinco anos. Já viveram em vários sítios do país e estrangeiro mas as necessidades de auxílio ditaram a fixação de residência em Ermesinde. Alzira sofre de Alzheimer e Vítor não consegue dar conta das lides domésticas sozinho.

    Lina Carneiro, de aspirador em punho, começa pelo quarto do casal, enquanto David Brito, estagiário, orientado por Carla Ferreira, dá conta da limpeza da casa de banho. Segue-se a cozinha e a sala. As janelas são abertas, tapetes retirados e móveis limpos. É feita uma limpeza geral em casa.

    Enquanto isso, à conversa com Vítor, percebemos que este serviço é muito importante na organização da sua vida. «Se não tivéssemos ajuda não sei como seria!», refere. «São pessoas excelentes que estão sempre dispostas a fazer alguma coisa por nós, estou-lhes muito agradecido», diz ainda.

    Alzira está na sala, sentada e sempre sorridente. Transparece alegria e não esconde a satisfação ao ver a sua casa cheia de pessoas. A televisão e o Chico Fininho, o periquito, fazem-lhe companhia nos momentos em que o marido se ausenta. «Raramente saio de casa mas basta ir a outra divisão da casa que ela chama já por mim, está muito dependente», conta Vítor.

    Depois deste domicílio seguem--se outros. O espírito é sempre o mesmo: ajudar quem mais precisa.

    QUEM SÃO

    OS IDOSOS QUE MAIS

    PROCURAM APOIO

    De acordo com dados de Novembro de 2008 e, ao contrário do que se pudesse pensar, a maioria dos cidadãos auxiliados (56%) são do sexo feminino e as idades predominantes ficam entre os 60 e os 79 anos. Mas este seviço não apoia apenas idosos, há uma pequena parte, cerca de 12% dos utentes com idades entre os 40 e os 59 anos que, por diversas razões, recorrem a este tipo de ajuda. Metade do total de utentes é casada e apenas 31% perderam o cônjuge.

    GRUPO DE VOLUNTÁRIOS

    DA PARÓQUIA

    DE ERMESINDE

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    Além dos serviços já descritos, o SAD disponibiliza ainda um serviço de atendimento e apoio psicossocial a utentes e famílias, que decorre à quinta-feira, desde as 09h30 às 13h30.

    O serviço domiciliário conta com a colaboração de um grupo de voluntários da paróquia de Ermesinde e é realizado por cinco equipas durante a semana e por duas ao fim-de-semana, que utilizam um total de quatro viaturas.

    Tal como já foi referido, há um crescente número de pedidos de auxílio a que o SAD não consegue dar resposta. Carla Ferreira refere ainda que há pessoas a efectuar inscrição sem precisar ainda dos cuidados, como forma de prevenir uma situação futura, o que evidencia o receio que as pessoas têm de perder a sua autonomia e estabilidade.

    As exigências profissionais são na maior parte das vezes a principal causa do escassear de tempo dedicado à família e são os mais carentes, neste caso os idosos, os primeiros a sentir as consequências. O envelhecimento da população no nosso país é preocupante e move-se a uma velocidade galopante – o grupo etário das pessoas acima dos 75 anos é o que mais tem crescido (segundo dados do INE).

    Coloca-se a questão de proporcionar qualidade de vida, prolongando a autonomia e bem-estar à população idosa.

    E é aqui que entram em campo as instituições de solidariedade social, organismos, por excelência, dedicados aos mais desfavorecidos, mas que por falta de meios são obrigadas a fazer uma selecção rigorosa dos seu utentes, consequentemente deixando a descoberto casos problemáticos.

    Por: Teresa Afonso

     

     

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