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Edição de 28-02-2021
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    Arquivo: Edição de 20-09-2008

    SECÇÃO: Arte Nona


    Outra vez o Portugal de Salazar

    Editada em Portugal pela prestigiada Campo das Letras, “As Paredes têm Ouvidos – Sonno Elefante” do italiano Giorgio Fratini, demonstra, com um exemplo singular – aqui uma obra de Banda Desenhada – a atenção dada à situação política no Portugal fascista de Salazar por criadores estrangeiros que se debruçaram sobre este assunto inesgotável (ou quase..., pois constitui cerca de 50 anos de matéria-prima disponível).

    Esta época histórica começa agora, com alguma regularidade, a aparecer finalmente nas temáticas da Banda Desenhada portuguesa (e agora, não só da BD portuguesa, como se vê).

    Num texto em posfácio, intitulado “Sobre Elefantes e Abutres”, Roberto Francavilla diz a dado passo. «(...) A cidade é Lisboa, a de ontem. E as cidades são assim, com as paredes das casas e dos quartos. Assistem e testemunham em silêncio. E se acordam do sono do esquecimento, podem contar a história das vozes, dos gritos e dos silêncios que foram obrigados a acolher (...)».

    A edição da Campo das Letras contém ainda, além da obra que lhe dá o título, outras peças acessórias a uma melhor compreensãoda obra e da época e lugar, a começar por umas notas do próprio autor, sobre o título da obra, e trechos e desenhos alheios incluídos nesta, uma “Breve cronologia” da História portuguesa, o referido texto de Francavilla e uma pequena nota do editor sobre “Alguns títulos relacionados com o 25 de Abril publicados no Campo das Letras”.

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    Antes de falarmos de “As Paredes têm Ouvidos – Sonno Elefante” recordemos “Salazar na Hora da sua Morte”, de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha, uma obra notável cujo tema era precisamente a vida do ditador. Aqui os autores dão pouco lugar à ficção, abordando sobretrudo o retrato físico, histórico e ideológico do antigo Chefe do Governo. Entre uma e a outra obra, há pois diferença muito assinaláveis.

    Editada num formato comic book, “As Paredes têm Ouvidos – Sonno Elefante” é uma obra de cerca de 80 páginas (com as peças acessórias, capas, etc., o livro atinge as 110), a preto, branco e cinza.

    A obra estende-se por dois períodos históricos diferentes, 1970 e 2006, sendo as personagens desta segunda parte as sobreviventes da primeira (física ou politicamente sobreviventes), Zé, Marisa e Afonso, além de dois elefantes, representando a consciência e a memória, e que surgem mais intensa ou quase exclusivamente num capítulo que o autor significativamente subintitulou Intervalo – o Elefante Adormecido e o Elefante Falante.

    Esta deambulação para fora do realismo torna a obra ainda mais interessante e conseguida.

    As outras personagens, do período de 1970, são Maria, Leon, o Menino do Prédio em Frente e o Inspector Chefe da PIDE, o Chefe de Investigação da PIDE, um Agente da PIDE e o pide Lopes.

    O enredo contempla uma história de resistência anti-fascista e o seu acompanhamento da delação e prisão.

    O prédio da Rua António Maria Cardoso é também personagem de corpo inteiro, importante e incontornável. É nele que decorrem os interrogatórios e mesmo a morte, que ficcionalmente aqui acontece. Num período histórico em que, na realidade, Salazar já tinha dado lugar a Caetano e em que, já desde há anos, a violência boçal já tinha dado lugar a outra mais subtil e eficaz, com o recursos aos infelizmentos famosos métodos da tortura do sono ou da estátua.

    A censura surge aqui também em plena acção, quando os jornais noticiam o assassínio do preso anti-fascista morto pelos exageros brutais do interrogatório, como um suicídio: «Um homem morreu ontem, atirando-se do terceiro andar de um edifício do centro citadino. Tratava-se de Leon Alves, 52 anos, artista desempregado e sem morada fixa. O corpo foi levado para o Instituto de Medicina Legal».

    O pequeno texto da notícia é um curso completo sobre reconstrução da realidade policial. O edifício citadino é, evidentemente, a sede da PIDE. Quanto ao «artista desempregado e sem morada fixa», é como que um enredo novo, ante-novilinguístico, recobrindo a realidade e exemplo avulso nesse Portugal de Salazar e Caetano.

    Do ponto de vista gráfico, “As Paredes têm Ouvidos – Sonno Elefante” parece igualmente bem conseguido, adoptando um registo expressionista, aqui e ali mais próximo do figurativo realista, como quando apresenta a sede da PIDE ou alguns recantos de Lisboa. Obra importante no contexto da BD, pode bem ser adoptada como figurando no universo da Banda Desenhada portuguesa.

    Por: LC

     

     

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