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Edição de 31-05-2017
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    Arquivo: Edição de 10-07-2008

    SECÇÃO: Especial


    XV FEIRA DO LIVRO DO CONCELHO DE VALONGO

    Fernando Nobre contra os loucos do petróleo no Alaska

    Para nós, é o destaque da primeira fase da XV Feira do Livro do Concelho de Valongo. De facto, Fernando Nobre tem feito um percurso surpreendente, profundo e doloroso, como ele próprio confessa e o leva a proclamar-se “politicamente incorrecto”. As dores do mundo transporta-as ele como uma mulher grávida pela vida fora e, por isso, teme o futuro dos netos de todos nós, sobretudo agora que ficou tempo de afiar as facas em vista da obtenção de maiores lucros e de negócios mais chorudos. Teme o canto do cisne do mandato de Bush e denuncia aqueles que vêem no aquecimento global uma boa oportunidade para a exploração do petróleo do Alaska.

    Foto MANUEL VALDREZ
    Foto MANUEL VALDREZ
    É com simplicidade que conversa connosco, momentos antes de fazer a sua intervenção na sala do Fórum Cultural de Ermesinde, usado como alternativa dada a chuva e o frio deste início de Julho.

    Veio a Ermesinde com a AMI, a associação humanitária que fundou e dirige para, no stand da Ágorarte, associada à Associação José Afonso e à Afrontamento, fazer o lançamento do seu livro “Gritos contra a Indiferença”, o segundo da trilogia em que trabalha.

    Percorrendo os stands da feira dizia-nos do seu percurso doloroso, e do seu estado de alma aflito, ele a quem confidenciaram que a intervenção no Irão e uma guerra nuclear no Médio Oriente já era imparável.

    Assusta-se com o estado do mundo e disso mesmo dá conta, mais tarde, quando fala para um numeroso público quer o foi ouvir, no dia da inauguração da Feira.

    Estão lá o presidente da Câmara, o vereador José Luís Pinto, os presidentes de Junta de Ermesinde e Alfena, a presidente da Assembleia Municipal, o presidente da Assembleia de Freguesia de Ermesinde.

    Conta como contribuiu para a eleição de Durão Barroso em 2002, participando nos debates que iriam definir o seu programa, mas duramente, e referindo-se a este e aos dirigentes políticos mundiais que ordenaram a invasão do Iraque à revelia da lei internacional, dirá também que «não sabe se amanhã algumas pessoas não terão que comparecer perante o Tribunal Penal Internacional».

    Fernando Nobre é apresentado pelo presidente da Direcção da Ágorarte e que com ele compartilha a mesa, «um privilégio», como refere.

    Carlos José Faria traça um breve perfil do notável médico, lembra a sua passagem pelos Médicos sem Fronteiras, faz recordar que le abdicou de uma carreira brilhante como médico (Fernando Nobre era cirurgião, assistente da Faculdade de Medicina, em Bruxelas).

    Fala da sua passagem por mais de cem países. Apresenta depois o novo livro do ilustre convidado, que «chama a atenção para os povos que vivem em condições infra-humanas».

    Nobre reconhece: «Conheço mais o mundo do que o país das minhas origens paternas».

    De facto, Fernando Nobre é um homem do mundo, com origens familiares, que fez questão de citar, em paragens diversas, mais a norte nesta Europa em que vivemos.

    Não é escritor, insiste, mas agora, depois de mais de trinta anos de saltimbanco, sentiu a necessidade de fazer a fotografia do seu mundo.

    «Ninguém fica intocável perante o sofrimento das crianças», como que se justifica, para fundamentar o seu caminho.

    Conta como viu morrer crianças afegãs porque pediam farinha às portas do Afeganistão, em Jalalabad.

    E afirma, depois de tudo o que viu passar e que passou, que quer «dizer exactamente o que pensa, como homem livre» que é. E contrariando antigas proximidades, revela que nunca pertenceu a nenhum partido político.

    Denuncia depois a corrupção, que aqui, como diz, ganha eufemisticamente o nome de “desgovernação”.

    Fala depois do estado do mundo e da sua tripla tragédia: crise financeira, crise dos combustíveis e crise dos alimentos.

    Sobre o preço dos combustíveis é claro a acusar o sistema financeiro, o que mais lucra com a actual situação. «O que é preciso é impedir que os grandes bancos possam especular». Mas Bush alimenta esta política, porque está ligado à indústria do petróleo, acusa.

    E revela depois uma tenebrosa expectativa de que o Alaska descongele, com o aquecimento global, para tornar viável a exploração das suas jazidas de petróleo. «Isto é a demência, ser cientista não basta para ter coluna vertebral, os estudos também se compram».

    Sobre a Guerra do Iraque revela que todos temos culpa em não tê-la evitado e é com alguma pena que recorda que, tendo nelas participado, a primeira manifestação contra a guerra em Lisboa terá tido cerca de 85 mil pessoas, enquanto a segunda não terá tido mais que 15 mil.

    E sobre a situação actual lembra como os orçamentos militares estão a disparar e de como, alguns amigos seus, bem informados, lhe confirmam que a guerra nuclear no Médio Oriente é inevitável, diz repetindo a ideia já a nós em privado expressa, e que o atormenta.

    Os desmandos do planeta teremos que pagá-los todos nós e não podemos pensar na salvação da vida refuguando-nos noutro planeta.

    E tornando mais claro o seu pensamento: «Temos de fazer entender ao Estado e ao mercado que estes só têm razão de ser se contribuírem para uma maior estabilidade e segurança» das pessoas.

    E passando depois os olhos pela História de Portugal, considerou que depois de D. João II, sem excepções, toda a monarquia foi um tempo de “fartar vilanagem!”.

    «Não faria mal nenhum à democracia ter, de vez em quando, uma pitada de democracia participada, nós merecemos ser ouvidos».

    E com o estado do mundo a rebentar de penúria para a grande maioria das pessoas e o luxo para alguns, deixou o aviso: «Ai daquele que pensa que está seguro por viver num condomínio fechado». E sobre a loucura securitária, referiu até o caso daqueles que punham minas até no jardim da sua própria casa.

    E terminou, apelando a uma melhor redistribuição da riqueza, contra a política do “quero lá saber!”, «... se não for em nome do humanismo seja em nome da inteligência, se não for em nome da inteligência, que seja em nome do egoísmo esclarecido».

    Todos, mas todos, aplaudiram no fim.

    Por: LC

     

     

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