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    Arquivo: Edição de 15-03-2008

    SECÇÃO: Editorial


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    E agora os professores...

    Nunca o escondi e continuo a afirmar que a profissão de professor é uma profissão única, em nada comparada com qualquer outra que eu conheça. Dura, combativa, aliciante, renovadora, actuante, compensadora (numa perspectiva de realização pessoal), extremamente desgastante.

    Ao contrário do que se diz, é uma profissão das mais expostas, das mais transparentes, onde o professor é avaliado todos os dias, a todas as horas, muitas vezes para além do seu horário de trabalho.

    Como em todas as profissões há bons e maus professores – que se detectam à légua!..

    Os alunos sabem-no muito bem e os pais também, assim o queiram fazer com a mesma independência e verdade com que a maioria dos professores avaliam os seus alunos.

    Não é um sistema burocrático de preenchimento de fichas desajustadas das realidades educativas de cada escola, região e nível de ensino que vai melhorar a educação.

    Se recuarmos trinta e cinco anos, o que eram as escolas?

    Concluí o meu curso numa turma com vinte e tal alunos, única turma de 6º Ano de Arquitectura existente na cidade do Porto. Comecei a trabalhar em Santo Tirso, onde fui muito bem recebida porque tinha habilitação própria, coisa pouco comum nesses tempos. Sujeitavamo-nos a ter os piores horários, aprendíamos com os mais velhos, e vivia-se um período de grande empenhamento social e cultural. Muitos de nós aderimos à carreira de professor com paixão. Fizemos estágios pedagógicos, participámos em muitas formações sérias e honestas, prestámos provas públicas, e os nossos alunos foram avaliados em exames nacionais.

    As escolas cresceram em número e as turmas também, os professores lidaram com muito esforço com esta primeira mudança – o acesso à escola de um grande leque de alunos, oriundos das mais diversas origens sociais.

    Recebemos alunos vindos de África, lutámos pela inclusão na escola de crianças de etnias diferentes.

    Aumentou o número de alunos problemáticos, resultantes de uma sociedade que no seu crescimento e globalização arrastou consigo uma série de problemas, conflitos familiares, desemprego, droga, pobreza, abandono, miséria.

    A tudo isto podemos juntar todo um crescente desajuste entre reformas e mais reformas, programas e mais programas, que nunca duraram o tempo suficiente para se fazer uma verdadeira avaliação, mas que se descartava cada vez que havia uma mudança política ou até simplesmente, sempre que mudava um director geral, um secretário de Estado.

    Porém a escola não é uma ilha, ela é o reflexo do mundo que a envolve. Tudo o que de mal acontecia aos jovens, a culpa era da escola. O professor, para além de preparar as suas aulas, de leccionar, educar, tem vindo a acumular nos últimos tempos todo um trabalho burocrático e de actualização de legislação que tornou esta profissão um verdadeiro inferno, remetendo para 2º plano o essencial.

    A profissão de professor perdeu prestígio e a sociedade deixou de a respeitar.

    A área da educação entrou em crise e o poder não teve sensibilidade para lidar com esta situação, os professores foram maltratados como nunca, passou-se a imagem de uma classe incompetente, irresponsável, culpada pelo baixo aproveitamento dos alunos.

    Foi nesta conjuntura que o Ministério da Educação decidiu, em gabinetes isolados da realidade, fazer umas contas, apontar umas metas... e toca a trabalhar para as estatísticas.

    Encomendaram-se grelhas e mais grelhas, perfeitamente desajustáveis, no tempo e no espaço.

    Quem não perceber que vem aí a verdadeira revolução do ensino é oportunista, não quer ser avaliado, não quer avaliar porque é preguiçoso, só quer é progredir na carreira de qualquer forma.

    E é masoquista porque retém alunos que se recusam a aprender – quando era tão simples passá-los, diminuir as estatísticas dos iletrados. Na realidade eles são cada vez mais, e a sociedade ainda não conseguiu demonstrar que aprender é uma mais-valia, para quem aprende e para o País.

    É neste contexto que os professores disseram:

    – Alto e para o baile!

    Na verdade, depois de terem dedicado uma vida a uma causa, de receberem os filhos de todos nós, serem tratados como réus das políticas dos sucessivos governos, apoiadas pelos diferentes partidos do poder, os professores vieram para a rua e mostraram a sua indignação, ganharam força, e passaram a acreditar que merecem ser respeitados com dignidade e seriedade e não como um número (por sinal elevado) de indivíduos sem os quais não será possível fazer reformas na educação.

    Por: Fernanda Lage

     

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