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Edição de 31-07-2019
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    Arquivo: Edição de 30-12-2007

    SECÇÃO: Crónicas


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    A caminho de S. Paulo

    Chegados aqui, indagar-se-ão: «Não diga que vai continuar com as impressões de viagem!». Suspeita que eu confirmo: porque não? Viajar é uma das melhores coisas que podemos fazer, sobretudo quando os lugares visitados nos enchem a alma e as surpresas são tão boas e variadas que, no próprio acto de as usufruirmos, já temos saudades.

    Estamos entre Belo Horizonte e S. Paulo, a nossa quarta viagem aérea no interior do Brasil. Não há melhor opção do que utilizar o transporte aéreo neste país imenso: economia de tempo e maior comodidade, logo, menos fadiga. Se este envolve risco, a alternativa rodoviária também. O avião pode cair? Sem dúvida, mas o autocarro tem um grau de probabilidade muito superior. As estradas neste país, genericamente mal conservadas e perigosas, implicam ainda outros riscos: as grandes distâncias são propícias ao cansaço do motorista, que pode adormecer ao volante; os veículos nem sempre se encontram em bom estado de conservação e a possibilidade de um assalto não é de excluir, muito pelo contrário. Daí que o turista seja amiúde aconselhado a escolher o meio de transporte que lhe ofereça um rácio custo/benefício mais favorável e, neste confronto, o avião ganha em toda a linha. Quanto à ferrovia, hoje não passa de uma vaga lembrança dos áureos tempos em que o café seguia por comboio do interior ao litoral e os grandes fazendeiros dele faziam uso nas suas deslocações aos grandes centros. Por razões que não vêm ao caso, neste momento, estiolou, ao contrário do que sucedeu noutros antigos territórios como os Estados Unidos da América.

    Ao meu lado, vai um cidadão brasileiro que, a todo o momento, chama a hospedeira de bordo para exigir ora os auriculares para ouvir música, ora um refresco, ora ainda um qualquer esclarecimento sobre o tempo ou a duração do voo. Disse-me que trabalhava na Prefeitura de S. Paulo e que fazia deslocações frequentes para visitar a família. Não se poderia dizer que tem boa aparência, e esse facto não parece incomodá-lo. As hospedeiras que, com toda a probabilidade, já o conhecem "doutros Carnavais", negligenciam o atendimento quando interpeladas. No entanto, a pedra no seu sapato era outra:

    – Veja só, agora esse tal de Jobim (a princípio, julguei que se referia ao imortal compositor da "Garota de Ipanema" quando, afinal, increpava o recém-empossado ministro da Defesa, responsável pela aeronáutica civil, após o fatídico acidente com o avião da TAM no aeroporto de Congonhas) exige que as filas no interior dos aviões tenham três assentos e mais largos do que os actuais. Nem todo mundo tem a bunda grande como ele que nem sequer viaja em classe económica como nós, mas quem paga o pato é o passageiro, porque as companhias vão ter de comprar aviões maiores e as viagens ficam mais caras.

    Como eu não partilhei o seu protesto, reparou melhor na minha pessoa e perguntou:

    - O senhor não é brasileiro, pois não?

    Expliquei-lhe que sim, que era brasileiro, mas tinha sido criado em Portugal, vivera bastante tempo no Rio de Janeiro e há muito tinha residência fixa no país dos meus avós. Como eu esperava, declarou a sua devoção a Portugal, o desejo impossível de conhecer esse país, lembrou os seus amigos portugueses, "gente bacana". Notava-se que era um homem politizado, cônscio dos seus direitos e dos seus deveres e que fazia questão de exercê-los. A conversa fez voar o tempo e, em menos de um fósforo, estávamos a sobrevoar a grande metrópole paulistana.

    O nosso destino não era a cidade fundada pelos Jesuítas em 1554 e que hoje se encontra entre as mais populosas e industrializadas do mundo. A nossa reserva tinha sido feita na Riviera de S.Lourenço pertencente ao distrito de Bertioga no litoral do Estado de S. Paulo. Este é um local muito procurado pela burguesia paulista e por muitos estrangeiros para gozarem a suas férias. Toda a extensa costa desde S.Sebastião até Peruíbe é um deslumbramento constante, aqui se incluindo Bertioga e, um pouco mais a sul, Santos e Guarujá. O mês de Agosto não é o mais apetecível, turisticamente falando. O tempo não convida a banhos e a estância denominada Riviera de S. Lourenço apresenta um ar desolador. Estão lá algumas infra-estruturas: hotéis e pousadas, centro comercial, os transportes essenciais. Falta a animação dos balneários, as multidões que procuram o sol e o descanso à beira-mar. Por esse motivo, detivemo-nos ali apenas durante um fim-de-semana e rumámos ao norte do Estado do Paraná.

    Nesta região de forte desenvolvimento, iniciado com a cultura do café na década de cinquenta do século passado, fixámo-nos em Apucarana, "longa floresta" na língua dos indígenas que ali viviam antes da chegada dos portugueses. Estive cá em 1958, quando uma constelação de pequenas cidades semeava a terra vermelha daquele extenso território com plantações do chamado "ouro negro". Regressei, então, até S. Paulo, no trem apelidado Maria Fumaça, atravessando vales e planaltos, extensões de mata atlântica e descampados numa viagem tão maçadora como deslumbrante. De S. Paulo ao Rio de Janeiro, onde vivia, viajei numa pequena aeronave quase sem pressurização a que davam o nome de "teco-teco". Lembro-me de ter chegado meio surdo e extremamente cansado. Maringá, Mandaguaçu, Apucarana, Mandaguari, Nova Esperança e tantas, tantas outras povoações ocupavam um espaço definido. Actualmente, formam um "continuum" até Londrina, o grande centro aglutinador da crescente actividade comercial de toda a zona norte do Estado. O nosso programa incluía uma visita à Foz do Iguaçu e a derivação para sul até Curitiba, a capital do Estado. Disso falarei na próxima crónica.

    Por: Nuno Afonso

     

     

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