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Edição de 31-01-2021
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    Arquivo: Edição de 10-12-2007

    SECÇÃO: Arte Nona


    Protagonistas e testemunhas que se cruzam por aí...

    “Nos Bares” é uma obra de 2002, editada em Portugal pela Asa no ano seguinte (com tradução de Pedro Cleto e adaptação de Maria José Pereira). Neste volume José Muñoz e Carlos Sampayo juntam algumas estórias do mundo (Buenos Aires, Paris, Barcelona, Nova Iorque, Milão), dos dias de hoje, mas ancoradas, algumas delas, num passado tão negro como o da ocupação nazi da França da Segunda Guerra Mundial, da Espanha franquista ou da ditadura dos coronéis argentinos. Como sempre, o preto e branco impressionista de Muñoz e o texto inteligente, adulto, e crítico de Sampayo casam-se de tal modo e há uma tão grande cumplicidade entre eles que é a dupla e não apenas Muñoz quem justamente assina mesmo as vinhetas da obra.

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    Cinco estórias: “Questões Económicas”, “Chez Jeanette”, “Quatro Velhos e Um Café”, Ninguém”, “Onda Após Onda”. A História como pano de fundo sempre presente, a meter-se agora e sempre pelo quotidiano dentro das personagens, quase apanhadas ao acaso aqui e ali, nestes sítios onde se encontram para conversar e recordar (ou esquecer). Nos bares. Como no bar de Joe, da saga de Alack Sinner, uma das mais fascinantes personagens da Banda Desenhada de todos os tempos.

    Apesar de tudo, neste “Dans les Bars” (título original da edição da Casterman), a forma sincopada da ilustração de Muñoz encontra o seu equivalente no argumento de Sampayo, tornando menos linear o entendimento da obra. Se do ponto de vista estilístico podemos considerá-lo fascinante, como se estivéssemos diante da obra de um único autor, com a sua própria e específica forma de expressão revelada quer nos grafismos, quer nas palavras, também é verdade que a sua legibilidade fica assim mais complexificada, afastando-a ainda mais do infantilismo epidémico que tende a tratar toda a obra de Banda Desenhada no registo menor da literatura para a infância e juventude. Menor como o destino, quando nem essa literatura infanto-juvenil tem de baixar a guarda da exigência estética ou formal.

    Um homem precisa de um táxi. Na Buenos Aires mergulhada na crise e na miséria, três taxistas disputam a murro quem fornece o serviço. Um músico cigano tenta reaver a sua guitarra deixada em França quando teve de fugir, na ocupação alemã. Quatro velhos tomam juntos o café. Mas não estavam juntos sessenta anos atrás, quando as barricadas os separavam ou quando a Falange impôs a sua lei. Um homem ainda muito jovem cai ao mar quando limpa o casco de um navio. Ignorado de propósito, o tempo que passa na água gelada obriga a castrá-lo para lhe salvar a vida. Um poeta italiano deixa grafittis nas paredes, onde faz a denúncia dos poderes, mesmo dos mais “sagrados”.

    É assim a obra de Muñoz e Sampayo. Enfim, como diria uma das personagens de “Questões Económicas”, a propósito de uma qualquer futilidade justificativa: «Não podemos renunciar à memória».

    Por: LC

     

     

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