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Edição de 28-02-2021
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    Arquivo: Edição de 30-11-2007

    SECÇÃO: Arte Nona


    A menina com coração de pássaro

    Desta vez, ao contrário do mais comum, partiu-se da Animação para a Banda Desenhada. O que, em termos de reflexão sobre as técnicas narrativas, é muito interessante e revelador.

    A animação de que falamos é a celebrada “História Trágica com Final Feliz”, de Regina Pessoa, Grande Prémio do Festival de Animação de Annecy 2006, SICAF 2006 (Coreia), Animated Shorts SXSW 2007 (EUA), e além de mais cerca de 40 prémios e distinções internacionais, nomeado ainda para os César e Oscar 2007 – trata-se do filme português mais premiado de sempre!

    A edição em papel (bilingue Português/Francês), com apoio do Ministério da Cultura e Instituto do Cinema e Audiovisual é uma co-edição da Afrontamento, Ciclope Filmes e bazaar&Co (Paris).

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    «Vivi no campo, numa aldeia perto de Coimbra, até aos 17 anos. O meu universo era rural. E não tínhamos televisão, o que na altura era uma grande maçada. Mas hoje, reflectindo bem, acho que isso me ajudou...», recorda Regina Pessoa, que estudou no Porto (Soares dos Reis e Faculdade de Belas Artes), antes de começar a trabalhar, em 1992, no Estúdio Filmógrafo, colaborando como animadora em vários filmes.

    “História Trágica com Final Feliz” é um filme de animação que se inspira «nos mistérios e na poesia que se escondem nos pequenos dramas de vidas aparentemente banais. Algumas pessoas são diferentes e tudo o que desejam é ser iguais a toda a gente, misturarem-se deliciosamente na multidão. Umas lutam por isso, negando ou abafando essa diferença. Outros assumem-na, elevam-se e conseguem por fim um lugar... no coração».

    Registo simbólico de uma história trágica, a obra está assente numa técnica de gravura sobre gesso (a preto e branco), que terá sido desenvolvida pela própria autora, que já a ela tinha recorrido para realizar “A Noite”, o seu primeiro filme de animação. Quanto a este “História Trágica...” vale a pena citar a opinião de Charlotte Garson, nos “Cahiers du Cinéma”: «O filme não usa apenas a arritmia como uma metáfora da diferença, mas torna-se ele próprio um ensaio sobre o ritmo na animação». Exemplo disso mesmo é o final do filme que, aparentemente prolonga o tempo e o espaço da cena para além do clímax do específico desenrolar do enredo.

    A edição em papel usa um formato de álbum deitado, preservando o melhor possível os fotogramas da animação.

    A maquete do design é de Abi Feijó e Atelier Nunes e Pã.

    São 64 páginas de recriação da obra que colocam em cima da mesa a questão de uma espécie de tensão ecológica narrativa, já que a BD, sendo uma forma de expressão artística que privilegia uma contenção e selecção de momentos e ritmos para salvaguardar o essencial da mensagem a comunicar, envereda sempre, por definição, por um desbaste, como se estivéssemos em trabalho de escultura, da matéria-prima que é a base a partir da qual a obra se cristaliza.

    Neste caso, pré-existindo uma animação, o trabalho de selecção (e, por conseguinte, exclusão) é ainda mais literal e óbvio.

    A natureza essencial da forma de expressão artística Banda Desenhada fica, neste caso, bem mais à mostra no que é essencial, a definição pelo autor não só das escolhas gráficas de cor e forma, das espaciais de plano e enquadramento, das sequenciais de movimento e ritmo, mas também e sobretudo, da arte da fixação e escolha dos registos que, como vértebras funcionais e articuladas, permitam dar corpo e vida à obra, sem que ela se escangalhe num simples amontoado de aparentados fragmentos.

    A nosso ver, foi muito bem feito este trabalho de desbaste constitutivo, embora pensemos que o final, na obra em papel, vem demasiado depressa após o clímax, sem ficar claro se se trata de simples apontamentos gráficos pós-faciais, ou de uma pequena extensão da obra.

    Mas voltemos a esta, quanto à questão do enredo que, como vimos, aborda a questão da diferença.

    O texto de Regina Pessoa é, ele também, já uma elaboração escultórica, como a poesia, senão veja-se o texto com que se inicia a Banda Desenhada extraída do filme:

    «Era uma vez uma menina/cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas.../Isso incomodava toda a gente/por causa do barulho... O coração batia tão alto!/».

    Muitas pranchas à frente, ei-lo que regressa:

    «Ela tentava explicar:/É um coração de pássaro.../Eu estou no corpo errado! Daí o coração bater tão rápido (...).

    Até voar...

    Por: LC

     

     

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