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    Arquivo: Edição de 30-04-2005

    SECÇÃO: Editorial


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    À procura de uma identidade

    Ermesinde, terra agrícola por excelência, situada nas margens do Leça – donde bebia água pura que a terra absorvia, que transformava o grão em farinha (e esta lhe dava o pão), que movia serrações e pisões –, também transportava uma cultura muito própria das terras por ele banhadas.

    Cortada mais tarde pela linha férrea, outras culturas invadiram a nossa terra.

    Ermesinde era um lugar de eleição para receber toda uma população que, vinda do interior, procurava um emprego na cidade do Porto. A indústria também cá chegou: junto ao Leça a Resineira, um pouco mais afastada a indústria – a têxtil, a cerâmica, a metalomecânica –, mas as grandes transformações deram-se ao nível da habitação. Ermesinde foi e ainda é um grande dormitório da cidade do Porto. Assistimos, no entanto, nos últimos tempos, a algumas transformações sobre as quais tenho ainda algumas dúvidas:

    Será que a cidade do Porto nos está a absorver de tal forma que torna a característica de dormitório mais atenuada?

    Deve-se essa absorção a um crescimento simultâneo de duas cidades cujos limites sociais e culturais são cada vez mais difíceis de marcar? Ou Ermesinde começou a ter capacidade de criar uma vida própria, de ter uma vida social activa, marcada pela diferença?

    Será que estamos a conseguir agregar de uma forma qualitativa os residentes, sejam eles gente da terra ou não, criando uma vida convidativa que receba de bom grado a participação das cidades nossas vizinhos?

    Neste mundo global já não fazem sentido disputas bairristas, mas é importante não esquecer as diferenças culturais de cada região, numa perspectiva de combate à massificação, e procurar desenvolver e aplicar com criatividade as nossas tradições, as nossas diferenças, integrando-as com qualidade no nosso quotidiano.

    A cultura de um povo, de uma região, é esse somatório crescente, em que gerações sobre gerações acrescentaram a sua mais-valia, muitas das vezes trazida de povos longínquos e que, ao longo dos tempos, se transformaram e adquiriram uma forma própria.

    Grafismo sobre foto de Manuel Valdrez
    Grafismo sobre foto de Manuel Valdrez
    Ermesinde tem uma população jovem significativa, que nas mais diversas organizações começa a mexer, espero que não seja uma situação efémera, como muitas iniciativas que vi nascer e morrer nesta terra. Hoje os jovens já passam mais tempo nesta cidade, assim o entendam os nossos autarcas, apoiando as iniciativas locais, criando equipamentos colectivos, necessários, sejam eles culturais, de lazer ou desportivos.

    O combate ao insucesso escolar não passa só pelas escolas, é importante que os nossos jovens cresçam num mundo com referências que se orgulhem da sua terra, dos seus antepassados, que sejam críticos, solidários, que lutem por causas que contribuam para o bem comum. Que reconheçam que a sua liberdade também depende do seu grau de conhecimentos.

    Já pensaram no papel dos professores primários que ensinaram a ler os ermesindenses, as mais-valias que eles introduziram na nossa terra?

    Alguém se lembra deles?

    A maioria eram pessoas de fora que se fixaram por cá, deixando raízes e descendência. Estudiosos, investigadores, médicos, políticos, escritores, que viveram na sombra da ribalta social e que foram marcos importantes de que a nossa cidade se devia orgulhar.

    Se queremos marcar pela diferença, temos que criar condições, apoiar a investigação sobre os nossos antepassados, divulgar as nossas tradições, criar condições para que a população de Ermesinde se organize e trabalhe nas diferentes áreas que contribuem para o bem-estar da população, que integre os que vêm de outros países ou de outras culturas.

    Encontrar a nossa identidade como povo de uma região, conhecer e divulgá-la parece-me um bom caminho para aprendermos a gostar de nós próprios, do nosso povo, da nossa cidade.

    Só desta forma é possível a cidade assumir-se pela diferença e não ser absorvida culturalmente pelos vizinhos que demonstrarem mais força.

    Por: Fernanda Lage

     

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