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    Arquivo: Edição de 31-07-2023

    SECÇÃO: Crónicas


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    O meu avô

    Todos sabemos que os mortos não voltam. No entanto, a incapacidade para lidar com a ideia da extinção da vida leva-nos a imaginar os nossos mortos em forma carnal incorrupta, como quando os conhecemos.

    Um avô meu morreu em 1950, quando eu tinha dois anos. Uma lembrança que tenho dele é, provavelmente, falsa. Era agricultor e viveu sempre na aldeia — exceto a passagem por França, na Grande Guerra — e cuja informação se fazia nos mercados e nas conversas de vizinhos. O mundo dele era duro, mas calmo e equilibrado. Vivia ao ritmo das estações.

    A curiosidade de o conhecer é natural. Como seria se o encontrasse hoje, ele parado nos cinquenta e tal anos da fotografia da parede, bem mais novo do que eu agora? Como nos relacionaríamos, se convivêssemos durante, digamos, um mês? Como camaradas? A sua ascendência prevaleceria, ou a minha maior idade fá-lo-ia reverente, vindo ele de um tempo em que o respeito pelos mais velhos era norma?

    Se bem o vislumbrei, melhor o fantasiei. O meu avô esteve connosco um mês. Acompanhou a minha família em todos os momentos, desde os de lazer caseiro, aos da azáfama dos afazeres citadinos. Mostrei-lhe as maravilhas do meu tempo e indaguei-o sobre vários aspetos do dele. Levei-o velozmente pelos lisos tapetes das autoestradas do país, mostrei-lhe a ponte de dezassete quilómetros sobre o Tejo, mergulhámos de metro no ventre da cidade em hora de ponta, guiei-o pelas avenidas dos grandes centros comerciais e outros formigueiros.

    Ilustração: @RODOLFO.BISPO.77
    Ilustração: @RODOLFO.BISPO.77
    Ele parecia um pouco confuso, mas ia-se adaptando. Gostou da televisão por cabo e devorava sobretudo as notícias. Embora se admirasse com os telemóveis, o computador e a Internet, ficava particularmente desconfiado com o microondas e divertido com a máquina elétrica de barbear. Apreciou o serviço de aconselhamento médico pelo telefone, a que tive de recorrer. Achava piada às roupas deste tempo e às pessoas nos ginásios. Ver-me a pedalar em seco levava-o às lágrimas. Gostou de encontrar roupa pronta a vestir e prateleiras carregadas de mil e um produtos alimentares em embalagens ligeiras. Admirava a utilidade de conservação do frigorífico e a frescura das bebidas e da fruta, embora achasse esta insípida, apesar das cores fortes e dos tamanhos surpreendentes.

    Finalmente, chegou o dia em que o prazo planeado acabava. Chamou-me de lado e — cito de memória — disse-me:

    «Joaquim, meu homónimo, meu velho neto, gostei muito de conhecer a tua família e o teu mundo. É um mundo admirável, mas difícil de compreender para um homem do meu tempo. Custa-me a crer que os homens foram à Lua, que desvendaram as entranhas da vida, que criaram tantas maravilhas tecnológicas. Talvez tenham feito tudo isso, mas parecem-me menos solidários com os próximos e mais ferozes com os estranhos. Continuam as guerras e, em inúmeros pontos do planeta, há milhares de pessoas a morrer de fome — que conceito abominável —, enquanto nos países ricos se destroem alimentos, para não deixar baixar os preços. As cidades estão atulhadas de carros, cheias de fumo e sobrepovoadas. As pessoas amontoam-se em pequenos espaços, trabalham toda a vida para pagar a casa, quase não veem os filhos. Toda a gente tira cursos superiores, mas poucos conseguem exercer uma profissão na sua área de estudos. Os jovens conseguem apenas trabalhos precários.

    E, no entanto, nunca trabalhaste de sol a sol, tiveste fins de semana e férias, recebes o suficiente para viver, tens tempo e saúde, podes fazer o que quiseres. E o que fazes tu? Passas demasiado tempo ao

    (...)

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    Por: Joaquim Bispo

     

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