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Edição de 30-09-2020
Jornal Online

SECÇÃO: Ciência


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O saber não está só nos livros

Ao contrário daquilo que por vezes podemos pensar, o conhecimento vai muito para além daquilo que encontramos nos livros. A sabedoria popular, que vai passando de geração em geração, tem um papel determinante e, se não cuidarmos dela, poderá, eventualmente, desaparecer com os novos estilos de vida.

O certo é que todas as pessoas, ao longo da vida, adquirem as mais diferentes manifestações do que se costuma chamar de sabedoria popular. A transmissão deste conhecimento é, muitas vezes, feita através de provérbios. Estes provérbios que podem ser de tom sério, sarcásticos ou religiosos, são transmitidos oralmente, perpetuando-se como parte de cada cultura. É o conhecimento do dia-a-dia, ao qual a ciência se refere como senso comum.

O senso comum tem origem no empirismo e o conhecimento acumulado de diversas gerações. Em alguns momentos pode não estar totalmente correto, porém são várias as situações em que está certíssimo. Podemos resumir este conhecimento como o conjunto de crenças, opiniões, valores, gostos, preferências, modos de pensar e agir que uma comunidade tem por verdadeiro e partilha durante um determinado tempo. O senso comum é um conhecimento que advém da experiência de vida individual e coletiva. Os hábitos e costumes, as tradições e rituais, os dizeres e provérbios são habitualmente referidos como manifestações do senso comum.

Como já vimos, este tipo de sabedoria popular não tem necessariamente vínculo com a Ciência ou mesmo com o processo de aprendizagem escolar. Não é difícil encontrar exemplos de sábios populares, curandeiros, entre outros portadores desta erudição ancestral, conhecedores das ervas medicinais, da culinária regional e do comportamento do clima e da natureza em determinadas localidades. Se não estivermos atentos a esta sabedoria muito conhecimento pode ficar para sempre perdido nos últimos conhecedores populares que habitam as tão variadas regiões em solo luso.

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“IDOSOS AJUDAM NO CONHECIMENTO E PRESERVAÇÃO DE ESPÉCIES RARAS

Estudo da Universidade do Minho sobre papel da memória dos mais idosos em espécies ameaçadas foi publicado em revista internacional. (Artigo científico em www.sciencedirect.com/science/article/pii/S004896972033567)

As pessoas mais velhas são uma importante fonte de informação ecológica, mesmo em espécies raras ou localmente extintas, e o seu saber deve chegar às novas gerações, para que haja uma maior consciência e defesa da biodiversidade. A conclusão é do investigador Ronaldo Sousa, da Universidade do Minho, num estudo publicado na revista “Science of the Total Environment”. O trabalho baseou-se em 200 entrevistas feitas em 2019 nas aldeias junto aos rios Cávado (concelho de Montalegre) e Neiva (concelhos de Esposende e Barcelos), sobre a presença passada e recente do mexilhão de água doce, que está sob severa ameaça em Portugal e na Europa.

No rio Cávado, amostragens recentes concluíram que a espécie está provavelmente extinta, mas quase 50% dos entrevistados, sobretudo as pessoas idosas, lembraram-se da sua existência naquele curso de água até final da década de 90. No rio Neiva, a espécie ainda está presente, mas apenas 4% dos entrevistados se recordaram da sua existência. A poluição e as barragens foram citadas como as principais razões do declínio desta espécie, com o nome científico Margaritifera margaritifera. “Os mais velhos conhecem com detalhe a condição dos ecossistemas passados e a sua biodiversidade, como sucede no caso deste invertebrado difícil de ser observado – e isso revela que essas pessoas teriam antigamente uma maior conexão aos habitats naturais”, nota Ronaldo Sousa, investigador do Centro de Biologia Molecular e Ambiental (CBMA) e professor do Departamento de Biologia da Escola de Ciências da Universidade do Minho, em Braga.

JOVENS DESCONHECIAM QUE HÁ MEXILHÃO “TÃO AFASTADO DO MAR”

Os inquiridos que contactavam regularmente com o rio (pastores, pescadores, lavadeiras) “lembraram-se perfeitamente” do mexilhão de água doce e, ao ver as suas conchas durante a entrevista, expressaram alegria e felicidade, evocando vivências da sua infância e da estreita ligação ao rio, diz Ronaldo Sousa. Já a maioria dos entrevistados mais jovens respondeu que “é impossível” encontrar este tipo de espécies a distâncias tão afastadas do mar. “A informação retida pelas pessoas idosas precisa de ser levada às novas gerações, pois não podemos conservar espécies se desconhecermos a sua existência e a biodiversidade atual e passada”, continua o biólogo da Universidade do Minho. Aliás, no estudo, muitos dos inquiridos com maior conhecimento ecológico superavam os 80 anos de idade. “Corre-se o risco de perder este saber, por isso a sua partilha é urgente”, anui, sugerindo que instituições locais, grupos de investigação e escolas deveriam cooperar nesse processo.

O acentuado declínio na distribuição e abundância do mexilhão de água doce em Portugal requer planos que visem a sua conservação. A espécie tem um ciclo de vida de mais de 50 anos e as suas larvas precisam de um peixe hospedeiro para completar a metamorfose. “Estas caraterísticas naturais e as crescentes pressões humanas – mudanças climáticas, poluição, pesca excessiva, barragens e introdução de espécies invasoras – tornam a sua conservação muito difícil”, afirma Ronaldo Sousa. Este investigador propõe várias ações, como restaurar populações desta espécie no Cávado e Neiva, incluindo a criação de áreas protegidas, restauração de habitats e produção de juvenis em cativeiro e posterior libertação.

No estudo referido – que tem a colaboração de investigadores da Universidade do Porto e do Instituto Politécnico de Bragança –, o grosso dos inquiridos concordou em contribuir financeiramente (ou com trabalho voluntário) se o governo local/nacional apostar na recuperação do mexilhão de água doce. Ronaldo Sousa apela que os decisores considerem os resultados desta investigação, reabilitando a espécie Margaritifera margaritífera em troços fluviais nos quais fez historicamente parte do ecossistema e da própria cultura das gentes locais.

Gabinete de Comunicação, Informação

e Imagem - Universidade do Minho

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva”

Por: Luís Dias

 

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