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Edição de 31-01-2020
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    Arquivo: Edição de 31-12-2019

    SECÇÃO: Crónicas


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    A GUERRA COLONIAL PORTUGUESA (4)

    “As campanhas de pacificação”

    Como deixámos dito em anteriores apontamentos, a Conferência de Berlim de 1884-85 desencadeou uma verdadeira corrida à partilha de África. A revolução industrial e o desenvolvimento tecnológico em curso desde finais do século XVIII, iniciado em Inglaterra, mas agora alargado a países como França, Alemanha, Rússia e Itália, por exemplo, proporcionando produção industrial massiva, obrigava estes países a procurar novas fontes de matérias-primas, novas fontes de riqueza que aquele continente praticamente inexplorado vinha mantendo intactas. Daí a sua enorme cobiça, pese embora o que se vinha propagandeando como motivação fosse o chamado “impulso civilizacional e evangelizador”, um altruísmo que, como os factos o demonstram, apenas servia para camuflar um fim bem mais egoísta, bem mais materialista.

    Na verdade, os europeus não entraram em África a convite dos africanos. Sim, porque o continente não estava desabitado e as portas não lhes foram cortesmente franqueadas. Não só não foram convidados como eram vistos pela população residente, autóctone, como intrusos, usurpadores, ilegítimos ocupantes dum território que só a eles historicamente pertencia. Logo, a sua presença não lhes inspirava qualquer simpatia, considerando-a, por isso, abusiva. Tratava-se, na sua óptica de civilizações com pouco ou nenhum contacto com o mundo branco, passe a expressão, de gente estranha, de outra cor, com outros hábitos, outras religiões… Daí que as diversas tribos fossem hostilizando os intrusos europeus, nomeadamente os colonos portugueses, que é o que para o caso nos interessa, que se foram paulatinamente instalando no território, como já se disse, a partir das zonas costeiras. Aliás, para a generalidade dos nativos dos territórios ocupados por Portugal, ser branco era ser português, o alvo da sua ira, nele projectando todo o seu azedume. Mas esta incompatibilidade existencial não se cingia às diferenças da cor da pele. Na verdade, não só hostilizavam os portugueses, como eles próprios, organizados em reinos ou simples tribos, na sua multiplicidade étnica, se digladiavam entre si, sendo frequentes as razias aos territórios das tribos vizinhas, saqueando tudo o que pudesse ser saqueado, fazendo reféns e posteriormente convertendo em escravos os vencidos, para os usarem ao seu serviço ou para serem vendidos, como fonte de receita, como se de simples mercadoria se tratasse.

    Daí, e da urgente necessidade, decorrente da Conferência de Berlim, de se ocupar efectivamente o território e do consequente exercício da soberania sobre o mesmo, que o regime vigente em Portugal tivesse apelidado de “Campanhas de Pacificação” todo um conjunto de expedições militares levadas a cabo, no início do século XX, designadamente, em Moçambique, Angola e Guiné (actual Guiné-Bissau), sendo certo que, em boa verdade, do que se tratou foi duma verdadeira invasão com a consequente conquista do território e submissão das suas gentes. E é aqui que, na realidade, quanto a nós, se situa a génese da luta emancipalista, é aqui que radica toda a problemática que envolveu a Guerra Colonial Portuguesa, nosso tema em apreço, enquanto sequelas desse passado cujas feridas profundas duas ou três gerações não lograram esquecer.

    Como já se disse, a Conferência de Berlim, para além de ter desencadeado uma corrida ao continente africano e decidido a sua partilha, definiu as regras de direito internacional que, doravante, justificariam a cada país a titularidade dos territórios a que se arrogavam. Ora, Moçambique era, ao tempo, um dos territórios mais cobiçados por outras potências europeias, dada a sua privilegiada posição geo-estratégica. Além disso, alegava a opinião pública internacional que Portugal vinha negligenciando a sua soberania sobre aquele território, palco dum conflito tribal permanente, que, na prática, era governado com mão de ferro pelo imperador Gungunhana, conhecido pelo cognome de “Leão de Gaza”, último monarca da dinastia Jamine, grande déspota e líder dum império com o mesmo nome que ocupava uma vasta área territorial que, para além da região sul de Moçambique, abrangia ainda uma parte de territórios de outros países vizinhos. O reino de Gaza havia sido fundado pelo seu avô, Sochangane, também conhecido por Manicusse, um chefe tribal vátua (nguni, em linguagem nativa), um dos ramos dos Zulus que havia fugido da guerra que, no início do século, grassava no sul do continente, actual África do Sul, entre as várias tribos ali existentes.

    No império de Gaza, que estava dividido em capitais que, por sua vez, serviam de templos, fortalezas, quartéis, escolas de recrutas, tribunais, cemitérios, o rei ou imperador detinha todos os poderes. A sua população, para além de viver da exploração agro-pecuária, tinha como principal fonte de riqueza o comércio de marfim. Ora, Gungunhana (Ngungunhane), com 34 anos de idade, ascendeu ao trono em 1884, ano do início da Conferência de Berlim, após uma luta fratricida com seus irmãos, principais herdeiros da coroa. Governava cerca de um milhão e meio de almas num território de cerca de noventa mil quilómetros quadrados.

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    É neste contexto que, em 1885, ele se recusa a assinar com emissários enviados do reino, tratados de submissão e reconhecimento da soberania portuguesa. Além disso, Manicusse, seu avô, à frente dum grande exército, formara o império à custa da submissão de cerca de duas centenas de tribos cujos chefes se haviam tornado seus régulos vassalos, mas que, agora, inconformadas com a arbitrariedade governativa e tirania de Gungunhana, vinham criando conflitos permanentes, dando azo a inúmeras perseguições e massacres. Enquanto parte desses chefes tribais se havia, entretanto, submetido à soberania portuguesa, uma outra parte mantinha-se fiel a Gungunhana que, apoiado pelos ingleses, através de Cecil Rhodes, ia conflituando com os representantes e interesses da nação portuguesa. Ao ponto de, aproveitando algum mal-estar reinante no seio dos que se haviam submetido à soberania nacional resultante do aumento do designado imposto de palhota (mussoco) e de certa intolerância e maus tratos de que se diziam vítimas por parte da administração portuguesa que, com o apoio de grande número de chefes tribais seus vassalos, resolve atacar Lourenço Marques (Maputo), em 1894.

    Como resposta à pressão internacional e a toda essa conflitualidade interna, em 2 de Fevereiro de 1895, forças militares portuguesas, incluindo praças recrutados em Angola e na ilha de Moçambique, em número de 37 oficiais e 800 soldados, sob o comando do major Caldas Xavier, usando canhões, metralhadoras e outro armamento ligeiro, com recurso a trincheiras e à táctica do quadrado, confrontam-se em Marracuene com um exército de 4000 homens da tribo Ronga que, graças à superioridade do seu armamento, os portugueses acabam por vencer.

    Seguiram-se diversas tentativas diplomáticas promovidas pelo então Comissário Régio em Moçambique, António Enes, no sentido de levar à submissão ou rendição do imperador Gungunhana, mas que se vieram a revelar infrutíferas, tanto mais que ainda contava com a ajuda dos britânicos, apostados na intriga para com os portugueses.

    Daí que, em 8 de Setembro desse mesmo ano, uma nova investida dos portugueses constituída por uma força integrando 275 militares europeus e 500 auxiliares africanos, comandados pelo capitão Freire de Andrade, confronta-se, em Magul, com 13 regimentos (mangas), num total de 6000 a 6500 rongas. Referir que os rongas eram aliados de Gungunhana. Utilizando a mesma táctica do quadrado e armamento privilegiado, como se viu, acaba por vencer a resistência indígena que ali terá perdido cerca de 400 homens. Batalha esta em que ficou ferido, do lado português,um dos considerados seus heróis, o tenente Paiva Couceiro.

    (continua)

    Nota: o autor opta por utilizar a grafia anterior ao Novo Acordo Ortográfico.

    Por: Miguel Henriques

     

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