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Edição de 30-09-2019
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    Arquivo: Edição de 31-07-2019

    SECÇÃO: Ciência


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    O vento e as suas transformações

    Este mês iremos explorar o vento e aquilo que ele provoca na superfície da Terra. Como habitantes deste maravilhoso planeta, desde cedo, contactamos com este elemento natural mas pouco sabemos sobre ele. Como é que o vento se forma? Quais as consequências do vento na superfície da Terra?

    A definição do que é o vento não poderia ser mais simples: o vento é o ar em movimento! Resumidamente, o vento nada mais é do que o deslocamento do ar. Este deslocamento pode ser mais forte ou mais fraco dependendo da sua intensidade.

    Quando o ar se encontra praticamente parado, ou seja, quando nem conseguimos observar a movimentação das folhas das árvores, dizemos que estamos numa situação de calmaria, não conseguimos perceber a movimentação do ar. Quando esta movimentação tem uma maior intensidade, facilmente conseguimos perceber a existência de vento. Apercebemo-nos da movimentação do ar através do impacto que ele provoca na vegetação, nas cortinas e no contacto com a nossa pele. Devemos ter em atenção que quando observamos o ar em movimento, na realidade, não é apenas o ar que se move, pois uma parcela de ar pode conter pólen, bactérias, vírus, pó, fumos, poluentes, entre outros.

    Considerando o planeta Terra como um todo, o vento não é um fenómeno uniforme. Se em Ermesinde estiver uma manhã ventosa, não significa que na cidade de Lisboa, por exemplo, também esteja. Facilmente chegamos à conclusão que os ventos não possuem a mesma intensidade em todos os pontos do planeta e também não possuem a mesma direção e sentido!

    A formação do vento pode ser explicada pelas diferenças de pressão e de temperatura que existem na atmosfera, a camada que envolve o nosso planeta. O ar, mesmo sendo invisível, é constituído por uma mistura de gases. Esse conjunto de moléculas que forma o ar tem uma massa que, consequentemente, tem um peso e este peso exerce uma pressão, a pressão atmosférica.Como há diferenças de temperatura entre as várias camadas da atmosfera, o ar fica com densidades diferentes, o que provoca o movimento das diferentes parcelas por forma a obter o equilíbrio, provocando assim o vento. Na natureza tudo tem tendência para o equilíbrio!

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    «Se não houvesse vento, não havia surf, nem bodyboard, nem certos processos naturais

    Como toda a gente vê, estes dois desportos (surf e bodyboard) têm, por suporte natural, a vaga em rebentação na praia. Acontece que esta onda, um dos principais agentes da dinâmica actuante na zona litoral, não é mais do que a agitação da camada superficial das águas numa determinada “área de geração”, lá longe, no oceano, soprada pelo vento. A ondulação transporta quase toda essa energia (a do vento), sob a forma de ondas ou vagas, a caminho dos litorais, consumindo-a aí, quer na rebentação, quer nas “correntes litorais “, a que dão origem.

    Ao aproximar-se de terra, e à medida que a profundidade se reduz, a crista da onda torna-se, progressivamente, assimétrica, tombando para a frente até rebentar.

    As características físicas da ondulação (altura, período, frequência, etc.) reflectem a energia disponível e dependem da intensidade do vento, da duração da sua incidência e da “distância de colecta”, isto é, a extensão, em comprimento, da região do mar soprada pelo vento. Com poucas perdas durante a propagação, as vagas atingem os litorais, exercendo aí, sobretudo, erosão e transporte. Nos fundos arenosos não consolidados, situados a profundidades susceptíveis de sofrerem as acções das vagas, estas remobilizam uma parte mais superficial da cobertura móvel (em geral, areia), promovendo sedimentação (ou ressedimentação) muito particular, reconhecida pelas marcas de ondulação, ou “ôndulas”, que lhe são próprias.

    A retenção, nas grandes albufeiras das barragens hidroeléctricas, da maior parte dos inertes, em trânsito nos rios, é uma das causas dos recuos verificados em certas linhas de costa. Outra causa reside na extracção industrial de inertes (areias e/ou cascalho), na ordem de muitos e muitos milhões de toneladas por ano, das praias, das dunas e dos rios, incluindo os estuários. O desassoreamento de portos e barras constitui uma outra causa dos referidos recuos. A construção de enrocamentos, como sejam os molhes e os esporões, com o fim de proteger determinados sectores da costa, acabam sempre por transferir o mesmo tipo de problemas para jusante e, geralmente, de forma agravada. A adulteração da paisagem física em nome do desenvolvimento é um facto que está a atingir proporções preocupantes. Os reflexos no litoral da intervenção do homem são hoje bem visíveis e as soluções encontradas, para os minimizar ou eliminar, nem sempre são as melhores. A conclusão a tirar desta realidade é a de que não se pode continuar a planear o litoral de costas viradas para os conhecimentos que a ciência já está apta a fornecer. Há, pois, que saber conviver com o mar e respeitar os seus códigos que já conhecemos com razoável pormenor. No sentido de minimizar estes inconvenientes, tem-se recorrido a ensaios realizados em tanques especiais, onde, em modelos reduzidos, se procuram simular as condições naturais e as alterações a introduzir, a fim de estudar os seus efeitos. Modernamente, com o desenvolvimento dos meios informáticos, estão a utilizar-se modelos matemáticos com idênticos propósitos.

    Em conclusão e resumidamente, pode afirmar-se que a geometria e as características dinâmicas desta franja “onde a terra se acaba e o mar começa” resultam de um conjunto de factores e condicionantes naturais, a que se têm vindo a sobrepor outros, próprios da civilização, que não é despiciendo conhecer melhor. Para além das oscilações do nível do mar, ou eustáticas, e das deformações da crosta, quer epirogénicas quer orogénicas, sobressaem, por serem mais visíveis: a natureza e a estrutura das rochas (e a sua maior ou menor vulnerabilidade à erosão); o clima, em especial no que diz respeito à pluviosidade, à temperatura e aos ventos; e, ainda, outros factores, próprios do mar, como sejam as vagas (intensidade e orientação), as marés e as correntes marinhas. Em complemento das acções mecânicas destes agentes forçadores, são ainda importantes as de alteração química e/ou de dissolução que a água do mar exerce sobre as rochas do litoral, com efeitos variáveis em função das respectivas naturezas. Por outras palavras, pode dizer-se que esta interface da hidrosfera com a litosfera se define pelas leis naturais, ou seja, pelas leis da física e da química, sempre subjacentes aos processos geológicos e biológicos.

    As vagas, desencadeadas por acção do vento, transmitem até ao litoral a energia que dele recebem e têm a sua acção erosiva grandemente potenciada pelo efeito abrasivo dos materiais (areias, seixos, blocos) que põem em movimento. Em resultado desta acção formam-se os litorais de erosão, ou catamórficos, caracterizados por arribas, ou falésias alcantiladas, que recuam à medida que aumenta a plataforma litoral ou de abrasão marinha. Deste recuo restam como testemunhos pontas rochosas, promontórios ou cabos escarpados, muitas vezes prolongados mar adentro por pontuações igualmente rochosas (ilhéus, baixios, escolhos, abrolhos, calhaus, pedras, etc., nos diversos modos de dizer locais), com destaque para a Costa Vicentina e para os cabos da Roca, de S. Vicente, de Sagres e do Carvoeiro, com a conhecida e elegante Nau dos Corvos.

    A.M. Galopim

    de Carvalho

    Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva»

    Por: Luís Dias

     

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