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Edição de 30-06-2018
Jornal Online

SECÇÃO: Património


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Ainda a palavra “Ermesinde” (16)

Todas estas crónicas que vimos escrevendo, há cerca de um ano, são de épocas remotas, da viragem para o século X, XI e início do século XII. Todas, ou quase, antes da existência de Portugal. Estamos a falar de épocas em que os documentos escritos não abundam, nem tampouco outros factos que possam comprovar todos os acontecimentos, principalmente os pequenos do dia-a-dia. Tudo isso por várias razões, a quantidade de pessoas que sabiam ler e escrever eram uma pequena parcela da população, e quase todos ligadosà igreja.

PERGAMINHO
PERGAMINHO
Quanto à escrita, e ao seu desenvolvimento, um dos acessórios mais antigos para a escrita foi o papiro, que terá sido inventado pelos egípcios em cerca de 2500 a. C., a escrita ainda estava pouco desenvolvida e era simbólica, cuneiforme e hieroglífica.

A partir do século IV, o pergaminho começou a substituir o papiro como suporte para a escrita, inicialmente elaborados em rolos. Ainda com o pergaminho apareceram os códices, manuscritos1, deixados em folhas soltas, e acondicionadas em forma de livro. Quanto aos códices2 foram um avanço relativamente ao rolo de pergaminho, e gradualmente substituiu este último como suporte de textos e imagens. O códice, por sua vez, foi substituído pelo livro, inicialmente manuscrito e depois impresso. O processo de fabrico de um códice na Idade Média era determinado de forma precisa, a divisão do trabalho era clara3. Cada artesão fazia a sua parte, quem sabia escrever copiava de um livro para outro, era o copista, as peles para fazer as capas eram curtidas na alcaçaria (curtume)4.

LIVRO MANUSCRITO
LIVRO MANUSCRITO
A partir do século XIII, com a substituição do pergaminho pelo papel e o desenvolvimento dos códices, ganhou consistência o livro5. Sendo o livro um produto intelectual e, como tal, contém o conhecimento e expressões individuais ou colectivas. Mas também é nos dias de hoje um produto de consumo, um bem de cultura.

Mas, a História não são só provas físicas, também se faz por indícios, e também por presunções que levam à indução e dedução racional, a acções cognitivas e intelectuais, que devem obedecer à lógica de contexto, tendo sempre em atenção a realidade referencial do passado e a actual.

Com referência a quem vamos retractar, esta Ermesenda é sem qualquer dúvida, aquela, cujo nome mais marcou toda esta região muito homogénea, apesar de hoje separada, como sejam, Ermesinde, Águas Santas e Rio Tinto. Terras estas situadas entre dois rios o Rio Leça e o Rio Tinto6 (este nasce em Ermesinde), com terras bastante férteis, mas altamente povoadas.

D. Ermesenda Guterres

(1074-1147) prioresa

do mosteiro de

S. Cristóvão de Rio Tinto

TÚMULO DE D. TERESA NA SÉ DE BRAGA
TÚMULO DE D. TERESA NA SÉ DE BRAGA
Deste mosteiro, que é base deste artigo, e que foi fundado antes de 1058, na paróquia já existente de Rio Tinto, do concelho de Gondomar, terá sido fundado pelos avós do abade Gomes, conforme nos transmite José Mattoso na sua obra, nada restando actualmente deste mosteiro. Este convento inicialmente dúplice, mas depois feminino das Agostinhas, e situado no local hoje conhecido como Quinta das Freiras. Sabemos que este convento foi protegido por Afonso Henriques, e que após o reconhecimento como reino, este deu-lhe foro de couto a 20 de Maio de 1141, um foro que os posteriores monarcas foram renovando. Este couto englobava as aldeias de Vila Cova, Ranha, Rebordãos, Quintã, Triana, Portela, Areosa, Pinheiro, Gesta, Brasoleiro, Forno, Santegãos, Carreiros, Medancelhe, Casal, Lourinha, Sevilhães, Perlinhas, Ferraria, Vendas Velhas, Vendas Novas, Cavada Nova, São Sebastão, Vale de Flores, Soutelo, Mendalho, Amial e Mosteiro. Quanto à Ermesenda Guterres, é contemporânea de Henrique de Borgonha e de Teresa de Leão7, condessa de Portucale8,não sendo a mesma Ermesenda Guterres que viveu no século X, e que era irmã de S. Rosendo, nem tampouco da mesma família. Segundo José Mattoso, Ermesenda teve como irmãos, Emisu, apenas citada no Censual do Cabido da Sé do Porto (1924), e Gontinha Guterres (1110-1179), patrona do mosteiro de Rio Tinto e do de Moreira, casa com Gonçalo Mendes (1110-1143), com certeza o "da Maia". Os seus pais foram Guterre Mendes (1072-1117) c/c Ónega Gonçalves (1098-1114), com propriedades a norte do Rio Douro, principalmente pela zona de Cete, onde provavelmente teria a sua residência/solar, pois foi sepultado no Mosteiro de Cete9. Esta irmã de Gontinha Guterres10, mulher de Gonçalo Mendes da Maia, terá sido sem dúvida a prioresa do Mosteiro de Rio Tinto11, a quem Afonso Henriques doou o Couto12 de Rio Tinto, em 1141. Couto este que foi criado pelo Conde D. Henrique13 e Dona Teresa e, posteriormente, dado a Soeiro Mendes da Maia, em 1097. Um ano depois, em 1098, Soeiro Mendes da Maia, juntamente com outros bens, doa o couto com todos os seus direitos, tal como o recebera, ao mosteiro de Santo Tirso, que se situava dentro da terra coutada.

IGREJA DE SALVADOR DE MOREIRA
IGREJA DE SALVADOR DE MOREIRA
Depois de 1140, sob a direcção da prioresa Ermesenda Guterres, o número de doações não aumenta, mas esta compra alguns bens na vizinhança do mosteiro, ora essa região vizinha é Ermesinde e Águas Santas.

Nesta data 1140: S. Cruz do Bispo, c. Maia. D. Ermesenda Guterres, prioresa do mosteiro de S. Cristóvão de Rio Tinto, D. Emisu Guterres e outros dão a Paio Soares e aos seus confrades a ermida de S. Cruz do Bispo (Censual do Cabido da Sé do Porto págs.44-45). Ermesinde pertencia às Terras da Maia.

Depois de 1147, deixa de ser referenciada nos documentos, terá morrido no desempenho da sua função de prioresa deste convento, que chegou a ser dos mais importantes no início da fundação do país.

Sabe-se, que foi extinto a 6 de Janeiro de 1535, ficando com os seus privilégios o mosteiro beneditino de Ave Maria no Porto.

1 Um manuscrito é um documento escrito à mão, tradução literal do latim manuscriptum.

2 Um códice (ou codex, da palavra em latim que significa "livro", "bloco de madeira") é um livro manuscrito, em geral do período da Antiguidade tardia até à Idade Média.

3 Diz Trithemo, abade de Spanheim no séc. XV: "Uma pessoa corrige o livro que outra escreveu, uma terceira ornamenta com tinta vermelha, outra encarrega-se da pontuação, outra das pinturas, como outra cola as folhas e encaderna. Ainda outras que preparam o couro e as lâminas de metal que devem ornar a encadernação. Uma outra corta as folhas de pergaminho e outras as vão polindo, uma outra traça, a lápis, as linhas que devem guiar o escrevente".

MOSTEIRO DE SÃO CRISTÓVÃO DE RIO TINTO, EXTINTO EM 1535
MOSTEIRO DE SÃO CRISTÓVÃO DE RIO TINTO, EXTINTO EM 1535
4 Curtume (ou alcaçaria) é o nome dado às operações de processamento do couro cru e, por extensão, ao local onde este processamento é feito.

5 Livro (do latim liber, um termo relacionado com a cortiça da árvore) é um objecto transportável, composto por páginas encadernadas, contendo texto manuscrito ou impresso e/ou imagens e que forma uma publicação unitária.

6 O rio que dá nome à freguesia com o mesmo nome, do concelho de Gondomar, e que a atravessa sensivelmente a meio, numa orientação aproximada Norte-Sul, nasce em Ermesinde, a cerca de 200 metros de altitude, e desenvolve-se ao longo de 10,6 quilómetros, indo desaguar no rio Douro, no Freixo. O rio Tinto tem uma extensão de 5823 metros no município de Gondomar. Para quem não sabe é aquele riacho que passa por baixo da Rua Presas de Sá (a rua de acesso à rotunda da auto-estrada).

7 Teresa de Leão, condessa de Portugal de 1112 a 1128. Era infanta do reino de Leão e condessa do Condado Portucalense.

8 Em galaico-português: Tarasia ou Tareja de Portugal, mais conhecida em Portugal apenas por Dona Teresa; c.?1080 - Póvoa de Lanhoso ou Mosteiro de Montederramo, 11 de Novembro de 1130.

9 Fundado no século IX, segundo a opinião de alguns investigadores, ou nos finais do século X (985), segundo registos dessa época, teria sido uma basílica dedicada a São Pedro (Monasterio Sancti Petri de Ceti), ocupada por monges beneditinos.

10 Patrona dos mosteiros de Rio Tinto e de Moreira.

11 DR177 - Documentos medievais portugueses. Documentos régios; e, TT Rio Tinto - Arquivo Nacional da Torre do Tombo, II, 9, 11, 12.

12 Encoutar uma terra era entregá-la ao Clero, que passa a ter poder sobre a dita, na cobrança de impostos, impôr leis, e executar a justiça.

13 Conde D. Henrique morreu pelos anos de 1112.

Bibliografia

Fernandes, A. d. (2001). Portugal Primitivo Medievo. Arouca: Associação da Defesa do Património Arouquense.

Fletcher, R. A. (1993). A Vida e o Tempo de Diego Xelmírez. Vigo: Editorial Galaxia.

Gaio, F. (1938). Nobiliário de Famílias de Portugal. Braga.

Mattoso, J. (2002). A Abadia de Pendorada das Origens a 1160. Lisboa: Círculo de Leitores.

Mattoso, J. (2001). A Nobreza Medieval Portuguesa. Rio de Mouro: Círculo de Leitores.

Mattoso, J. (2002). O Monaquismo Ibérico e Cluny. Rio de Mouro: Círculo de Leitores.

Por: Carlos Marques

 

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