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Edição de 30-06-2018
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    Arquivo: Edição de 28-02-2018

    SECÇÃO: Crónicas


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    Pontualidade, a quanto obrigas

    Queira-se ou não, a vida humana, como a de todos os seres vivos, está inserida no tempo e é por ele condicionada. Refiro-me, obviamente, ao tempo em sentido estrito, não às suas marcações e aos seus efeitos. Marcações que o homem introduziu e efeitos que ele tenta distinguir, compreender, nomear, regular e controlar. Como tantas outras categorias da vida e da expressão linguística o tempo é objeto de estudo, talvez de todas a que mais ocupa a mente humana porque desse estudo têm resultado muitos avanços na compreensão do que somos, de como nos situamos no universo e face a outros seres criados com vista ao aperfeiçoamento da nossa comum existência.

    Desde muito cedo e ao longo de milénios, nossos antepassados tiveram como grande e fundamental preocupação a própria subsistência e a dos seus mais próximos. O que designamos por tempo resumia-se à sucessão do dia e da noite, o primeiro para procurar alimento, os bons sítios onde obtê-lo, as melhores formas de o conseguir e de afeiçoar utensílios para um adequado desempenho no trabalho; a segunda para renovar forças e procriar. Os modos de viver foram evoluindo progressivamente. O dia começava mal os primeiros raios de luz rompiam por entre as copas das árvores ou permitiam adivinhar as formas rochosas na escuridão das cavernas. Essa maneira de administrar o tempo persistiu por larguíssimo período da existência humana quase até aos nossos dias sobretudo no mundo rural onde o cronómetro mais não era do que os primeiros raios de luz a intrometerem-se por frinchas de portas e de janelas anunciando o dia e o gradual surgimento da noite a estender sobre a terra seu manto de sombras. O intelecto do homem evoluiu permitindo a aquisição de novos e cada vez mais complexos conhecimentos pela observação do mundo à sua volta, pela troca de saberes que conduziu a mudanças significativas no seu modus vivendietoperandi. Essa capacidade de assimilação e de criatividade que fez evoluir a nossa espécie cada vez mais, melhor e a um ritmo mais intenso, conduziu-nos ao estágio em que nos encontramos, permite-nos avaliar o percurso já efetuado e perspetivar avanços até há bem pouco insuspeitos.

    Nem sempre foi regular essa caminhada. Dizem os estudiosos que a invenção da primeira forma de escrita pelas implicações que daí resultaram - a possibilidade de fixar mensagens duradouras passíveis de serem interpretadas por alguém conhecedor do código nelas utilizado, na mesma época ou em épocas posteriores -, assinala o fim do que se convencionou chamar Pré-História (cerca de 95% da existência humana sobre a Terra). À História estão atribuídos apenas 5%. No entanto, e uma vez que cada nova descoberta possibilita um significativo acrescento ao já conhecido, compreende-se a mais rápida e profícua apreensão do conhecimento. A cada hora, a cada dia, a cada mês, a cada ano, "o mundo pula e avança" como dizia António Gedeão, pseudónimo do Professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho, beneficiando das cada vez mais avançadas condições técnico-científicas apoderadas pelos homens. De épocas remotas ficaram-nos testemunhos claros da valorização dada ao aproveitamento do tempo em provérbios e expressões correntes e de grande sabedoria tais como:

    Deus ajuda quem muito madruga.

    Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer.

    O tempo rende muito quando bem aproveitado.

    Embora de criação "recente", achei por bem incluir no infindável número de provérbios antigos, esta jóia do grande humorista brasileiro Millôr Fernandes:

    Quem mata o tempo não é assassino, é suicida.

    Com intenção diversa, é bem conhecido o provérbio inglês: "Time is Money" revelando, não sobremaneira o valor social do tempo, mas uma conceção economicista da vida.

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    Por via da complexidade da vida presente, tornou-se em absoluto necessário um controle mais exigente do nosso tempo por meio de marcadores apropriados que trazemos connosco no bolso ou no pulso, ou que temos ao nosso dispor em locais bem visíveis como as torres das igrejas, em colunas à margem das vias públicas e em diversos outros locais. Em muitas residências, havia os relógios de sala hoje remetidos a uma função meramente decorativa. Os relógios estão, hoje, ao nosso dispor nos automóveis, na rádio, na televisão, em telemóveis, computadores e outros. Hoje ninguém pode alegar desconhecimento da hora para justificar um atraso.

    Já era assim há mais de vinte anos quando ainda me encontrava no exercício dos deveres profissionais. Os colegas sabiam do meu escrupuloso respeito pelos horários dado muito importante para quem exercia qualquer função em estabelecimentos escolares tais como diretores de turma ou diretores de departamento além das fundamentais funções docentes. Havia, na minha escola, uma colega bem conhecida pelo mau hábito, bem português por sinal, de relaxar em tão importante aspeto. Era de todos sabido o seu habitual atraso à primeira aula do dia sinalizada às 8,20h com tolerância máxima de 10 minutos atendendo ao facto de muitos professores viverem longe e nem sempre se registar um trânsito fluído a essa hora. As Auxiliares-de-Ação-Educativa tinham como uma das suas funções vigiar o cumprimento dos horários dos docentes e apor o carimbo de falta a quem não entrasse na sala à hora marcada. Mas se o atraso no início de uma aula era negativo, tornava-se exponencialmente prejudicial aquando das reuniões de avaliação dos alunos no fim de cada período letivo. Uma vez que os professores não tinham todos as mesmas turmas, os blocos de reuniões sucediam-se ao longo de dois dias e ainda uma manhã. O atraso de um professor, que excedesse o período de tolerância, à primeira reunião do dia podia dar origem à transferência dessa reunião para o fim do processo e a menos um dia de férias. Houve uma ocasião em que a Alexandra Videira tinha uma turma de que eu fazia parte ao primeiro tempo do primeiro dia. Estávamos reunidos na sala à hora marcada com exceção da Alexandra. Os minutos iam passando e a colega não aparecia. Só perto de meia hora mais tarde deu entrada na sala de reuniões cheia de justificações nada convincentes tendo em conta os seus conhecidos hábitos. Houve reações a começar pela diretora de turma que tentou explicar-lhe as consequências do seu atraso. Pura perda de tempo! Infantilmente, alegava que esse hábito era hereditário, já o avô, já o pai… Na era da eletrónica é de todo inaceitável o atraso, não já pelo incómodo causado a terceiros, mas pela infindável teia económico-social desse modo interrompida com as imagináveis consequências.

    Por: Nuno Afonso

     

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