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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 31-10-2016

    SECÇÃO: Crónicas


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    Morrem-nos pessoas e referências

    Chamavam-lhe "o Brasileiro" quando regressou do outro lado do Atlântico, então com vinte e seis anos, e passou a frequentar a Escola do Magistério Primário de Bragança. Simpático, elegante, com entoação e ligeira pronúncia adquiridas em alguns anos de permanência no Brasil, de pronto se tornou figura destacada num estabelecimento de ensino maioritariamente frequentado por mulheres. O "Brasileiro" era referenciado onde quer que fosse. Até o Cantarias já o conhecia de uma ocasião em que foi "dar uns toques" ao campo do Desportivo na zona do Toural, ele que fora jogador e agora cuidava daquele pelado e dos equipamentos. "Porque não aparece cá em hora de treino da equipa?" - perguntara - mas o nosso homem tinha mais em que pensar: tirar o Curso do Magistério e dar início à carreira de professor.

    Juntos tínhamos viajado desde o Rio de Janeiro onde convivêramos e trabalháramos durante alguns anos. O nosso retorno tinha razões diferentes: a ele tinham-lhe suspendido o que considerava um castigo pelo menor aproveitamento escolar, ilustrado com algumas reprovações, embora não carecesse de dotes intelectuais; eu viera em missão "diplomática" de tentar convencer a minha mãe a repatriar-se de novo, agora com os meus seis irmãos, para passarmos a viver juntos no Brasil, tarefa votada ao fracasso, com a negativa da minha mãe. Ele, órfão de pai quando ainda balbuciava os primeiros sons, fora viver com a mãe e a irmã, um pouco mais velha, junto da família materna, a ausência do pai preenchida por dois austeros tios sacerdotes um dos quais chamara a si a educação do pequeno. Concluído o antigo 5º ano do Liceu, entendeu o tio que talvez servisse de terapia ao rapaz passar uns tempos no Brasil em contacto com o mundo do trabalho quem sabe até se não tomaria gosto à atividade comercial a que a maioria dos portugueses se dedicava. Mau juízo aquele, porque o jovem já pensava pela sua cabeça e esta dizia-lhe que fora degredado que aquele não era o futuro que almejava. Agora estava firmemente convicto de que ser professor era o seu destino.

    Começáramos a trabalhar no Itú, um café, bar e restaurante que o meu pai adquirira, remodelara e de que era um dos sócios. Nessa diáspora invulgar, morámos em casa do tio Zé Fontes, na Rua Real Grandeza a cerca de trezentos metros do local de trabalho. Nenhum de nós gostava do que fazia mas ele sentia-se como peixe de rio atirado para um charco, onde lhe era penoso respirar. Apesar de contrariado, ia cumprindo as obrigações e, quando o tio clérigo lhe levantou a "pena" contra a promessa de arrepiar caminho, não hesitou. Combinámos a viagem para a mesma ocasião e aí viemos nós voltando costas ao Cruzeiro do Sul (1)

    Viajámos num Caravelle da TAP com escala no aeroporto do Sal em Cabo Verde, então e por alguns anos ainda, colónia portuguesa. Os passageiros, na sua maioria, eram patrícios (2) que regressavam ao país natal, alguns para uma estada temporária, outros, mal sucedidos nos objetivos que tinham alimentado, de volta à "santa terrinha" para se refazerem do insucesso. Aproveitando o tempo de escala, foram-se chegando ao oficial da base, querendo justificar o próprio inêxito com críticas aos brasileiros que outra coisa não faziam senão contar anedotas de portugueses: "Era uma vez dois amigos: o Manoel e o Joaquim…" assim começavam todas elas terminando com uma demonstração de falta de inteligência se não de rematada estupidez pretexto para sonoras gargalhadas. Por educação, o oficial ouvia as lamúrias mas abstinha-se de fazer comentários. E olhava-nos em busca de "socorro" que o nosso dever de neutralidade inviabilizava. Afinal, éramos todos portugueses.

    Demorei-me por cá ainda uns meses, porém, ante o justificado fracasso da missão que me trouxera, voltei ao Rio enquanto o "brasileiro" terminava o Curso e seguia a profissão para que estava vocacionado.

    O apodo de "brasileiro" correspondia ao meu primo António Afonso que se efetivou como professor em Vinhais onde granjeou respeito e estima de alunos e da sociedade vinhaense. Familiares e conterrâneos tratávamo-lo carinhosamente por Toninho. Quando voltei do Brasil, seis anos mais tarde, fui convidado para passar uns dias em sua casa. Aceitei com alegria e tivemos ocasião de passar em revista episódios da infância e da estada comum Além-Atlântico. Testemunhei o desvelo que lhe dedicava sua sogra Dª Delfina e a harmonia reinante no seu lar.

    O Toninho morreu e deixou uma lacuna impossível de preencher. Precocemente viúvo, enfrentou com coragem a tarefa de prosseguir sozinho a educação dos dois filhos e de ajudá-los até ao limite das suas possibilidades. Visto que ambos residiam com as respetivas famílias na área do Grande Porto e na impossibilidade de ir viver com algum deles, de comum acordo decidiram que viesse para um Lar desta área. Visitei-o ali com a frequência possível. No mês passado, deixou-nos e um pedaço de nós morreu com ele.

    (1) Cruzeiro do Sul - pequena constelação austral, muito popular no Brasil que a incluiu na sua bandeira. Também a Austrália e a Nova Zelândia a têm nos respetivos símbolos nacionais.

    (2) Patrícios - designação dada pelos brasileiros aos portugueses. Usa-se também, em sentido lato, como sinónimo de compatriota.

    Por: Nuno Afonso

     

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