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Edição de 30-11-2019
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    Arquivo: Edição de 30-04-2016

    SECÇÃO: Crónicas


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    Um dia histórico

    Não me incluía no grupo dos que escutavam rádios clandestinas ou que tinham familiares e amigos implicados na conspiração. Originário de uma terra esquecida para além dos contrafortes do Marão, nem por isso menos ciosa da Pátria comum, procurava ultrapassar barreiras que me tinham sido colocadas pelo Estado Português. Formado em Ciências Políticas e Sociais na PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro reembarcara para o país dos meus antepassados com a expressa garantia, dada pelo Consulado Português na antiga capital brasileira, de que o meu diploma seria reconhecido neste lado do Atlântico, ao abrigo do chamado Acordo Cultural Luso-Brasileiro. Dispensando a argúcia que se recomendava em casos tais, levei algum tempo a compreender o logro em que havia caído.

    A entrada direta na Universidade não me foi concedida com base no canudo que trouxera comigo, mas pelo certificado de conclusão do Curso Colegial (equivalente ao Ensino Secundário) na vertente de Humanísticas com bons resultados. Após meses de correspondência trocada entre mim e o Ministério da Educação Nacional inscrevi-me em Filologia Românica ("Românicas" como era vulgarmente chamado) na Universidade do Porto.

    Apesar de ter sido criado em Portugal, de ter feito o ensino primário e de ter concluído o 6º ano do Seminário em Bragança, os meus passos foram seguidos, mal desembarquei em Lisboa, pela famosa PIDE através da Polícia de Segurança Pública adstrita ao Governo Civil de Bragança. Admitido como professor no Colégio de S. João de Brito dessa cidade, teria que me apresentar com regularidade no Governo Civil se o Diretor do Colégio não se tivesse responsabilizado pela minha integridade e bom comportamento "cívico e moral" socorrendo-me de um chavão muito utilizado nessa época. Nem assim a PSP deixava de fazer umas "visitas" ao Colégio. Lembro-me de ter visto esses homens fardados a entrar e a sair do edifício mas estava muito longe de pensar que o objeto das suas idas e vindas era eu próprio. Creio que o Diretor terá sido "aconselhado" a não me dar conta do que acontecia em relação à minha pessoa. Cumpriu o que prometera e só revelou o acordo quando eu estava para sair. Presumo que devem ter feito outras diligências como o discreto acompanhamento quando saía do Colégio para a cidade e nos Correios mas nunca dei conta de que a minha correspondência tivesse sido violada ou de que alguém me vigiasse.

    Na manhã de 25 de abril de 1974, desci, a pé, a Rua dos Bragas, como fazia diariamente, entrei na Rua de Cedofeita em direção ao Largo de Carlos Alberto, contornei a igreja das Carmelitas, passei junto ao Quartel da GNR e entrei no edifício onde funcionava a Faculdade de Letras. Cumprimentei o senhor Madureira, o simpático funcionário da portaria, e dirigi-me para a sala 57, o espaço onde costumávamos ter aulas. Apesar de a Revolução estar na rua, nada o faria supor, uma vez que não se registava qualquer nervosismo desusado. O senhor Madureira nada acrescentou ao cumprimento habitual e, dentro do edifício, respirava-se a normalidade a que todos nos habituáramos. A menos que a distância temporal tenha distorcido a minha perceção da realidade, ainda tivemos a primeira aula mas, quando a campainha tocou para a segunda, alguém entrou na sala, em grande excitação falando de revolução e de tanques com militares nas ruas. Num instante a sala ficou vazia, todos corremos para a rua. A calma, que reinava ainda há pouco mais de uma hora, transformara-se num frémito nervoso, sorrisos meio incrédulos, muitos esperavam ver tanques a passar cheios de homens fardados, passavam de um lado para o outro da rua, entabulavam-se conversas com pessoas desconhecidas.

    Da secretaria chegou o aviso de que não haveria aulas nesse dia. O que ainda não sabíamos é que o ano letivo terminara. O que aconteceu dali em diante é impossível descrevê-lo no espaço desta crónica.

    Por: Nuno Afonso

     

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