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    SECÇÃO: Cultura


    GENTE DA NOSSA TERRA

    Maria Rambóia, a "viúva alegre" do João

    O Carnaval em Ermesinde não tem sabor sem o tradicional Enterro do João. Apesar de ter havido tentativas de o fazer noutros lugares da cidade, é na Travagem que esta tradição se mantém, há já muitos anos. Diz-nos Jacinto Soares, no seu livro Ermesinde: Memórias da Nossa Gente, que a fama e sucesso desta "liturgia"se deve à boa vontade de alguns carolas, designadamente, Adão das Cruzetas, Avelino Malápio e Abílio Teles, o Rambóia, que estaria ligado a estes festejos desde os seus quinze anos de idade.

    A Voz de Ermesinde foi conversar com aquela que é a guardiã desta tradição, a senhora Maria Amélia da Silva Teles, mais conhecida por Maria Rambóia, irmã do referido Abílio Teles, também ele conhecido por Rambóia.

    Fotos MANUEL VALDREZ
    Fotos MANUEL VALDREZ
    A Voz de Ermesinde (AVE): Como é que tudo começou?

    Maria Rambóia (MR): O Enterro do João é uma tradição com mais de 30 anos de existência e faz-se todos os anos, na terça-feira de Carnaval. Recordo-me que fui convidada pelo meu falecido irmão para interpretar o papel de viúva e desde aí nunca mais deixei de participar nestes festejos. Até costumo dizer que sou viúva há 30 anos. Enquanto o meu irmão foi vivo, a organização do Enterro do João esteve a seu cargo. Depois de ter morrido, a Junta de Freguesia de Ermesinde passou a coordenar a realização dos festejos, o que se mantém até hoje.

    AVE:Como se sente no papel de "viúva do João"?

    MR: A vida prega partidas a toda a gente. A mim também pregou algumas, como não podia deixar de ser. A minha vida mudou muito, desde que comecei a ser a "viúva do João". Passei a ser conhecida por toda a gente. Não deve haver ninguém em Ermesinde que não conheça a Maria Rambóia. Todos me acarinham e muitos dizem-me que se eu deixar de participar nos festejos, acaba tudo: "quando tu faltares, acaba". Recordo, por exemplo, um ano em que o meu marido estava internado no hospital eu não pude participar e a Junta arranjou uma substituta. Mas ela não conseguiu cativar o povo como eu. Muitos diziam: "não há ninguém como a Maria".

    AVE: Acha que a tradição ainda é o que era?

    MR: Com o decorrer do tempo tem havido alterações. Antigamente, havia coroas de flores naturais e o carro em que seguiam era feito à mão. Agora já não é assim. O João aparece vivo, sentado no carro do presidente e é acompanhado por carros alegóricos. Aos meus olhos, o João já não é o mesmo, mas eu faço tudo com muita alegria porque isto para mim é uma paixão.

    AVE: Quem se encarrega de preparar e organizar a festa?

    foto
    MR: A Junta de Freguesia tem muito empenho nesta festa porque atrai muitas pessoas e porque também se sente mais próxima da população. Dá sempre muito trabalho organizar tudo para que não haja falhas. Normalmente, a festa começa a preparar-se com dois meses de antecedência. Mas como este ano o carnaval é mais cedo, no dia 7 de fevereiro, os ensaios e reuniões começaram há duas semanas. Apesar de já ter 77 anos e os ensaios me roubarem horas de descanso, eu não me arrependo porque estou a viver a minha paixão e a fazer aquilo que gosto. Como se costuma dizer, "quem corre por gosto não cansa". Saio de casa às nove horas da noite e só chego depois da meia-noite. É certo que tenho a boleia das funcionárias da Junta, mas tudo isto tira horas ao meu descanso.

    AVE: As "deixas" do João vão ser, este ano, mais reduzidas, principalmente as que têm a ver com a política. Parece-lhe que isso vai tirar interesse à festa?

    MR: Creio que não. O presidente da Junta, o Luís Ramalho, costuma ter muito jeito para arranjar outras também muito engraçadas. Há coisas muito mais importantes e bonitas, sem ser a política.

    AVE: Parece-lhe que o Enterro do João vai continuar por muito tempo?

    MR: Acho que qualquer dia vai desaparecer. Eu não sei por quanto tempo mais vou poder participar na festa. Quando eu deixar de ser a viúva do João, parece-me que vai acabar.

    AVE: Então não haverá ninguém que lhe suceda numa festa de tão grande tradição?

    MR: Ficarei muito triste se isso não acontecer. Mas infelizmente não vejo ninguém em Ermesinde que vá fazer o meu papel, é preciso ter queda e lata.

    Por: Diogo Moreira

     

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