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    Arquivo: Edição de 01-03-2014

    SECÇÃO: Património


    TEMAS ALFENENSES

    Gaspar Dias, cristão-novo, de alcunha Matado - As atribulações de um alfenense em Terras de Vera Cruz

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    Chegados ao Brasil, então chamado Terra de Vera Cruz, no ano de 1500, apenas três dezenas de anos depois a Coroa Portuguesa tomaria, verdadeiramente, decisões no sentido da exploração económica, povoamento e desenvolvimento, numa palavra, a colonização desse imenso território.

    Nos primeiros anos seguintes à descoberta, os portugueses, mais interessados no comércio das especiarias com o Oriente e outros negócios com territórios africanos, apenas enviavam, de quando em vez, algumas expedições que tinham por objetivo o reconhecimento territorial para efeito de afirmação da soberania, o estabelecimento de pequenos entrepostos ou feitorias destinadas à exportação de pau-brasil e o combate ao comércio clandestino feito por embarcações estrangeiras, nomeadamente francesas.

    A expedição de Martim Afonso de Sousa, em 1532-1534, assinala o início da colonização do território, com a fundação da Vila de S. Vicente, o primeiro núcleo populacional do Brasil, situado no atual Estado de S. Paulo, com a instalação de uma administração por forma a promover o povoamento e consequente desenvolvimento económico.

    Em consequência do relativo sucesso desta expedição, a Coroa Portuguesa – reinava D. João III – decidiu dividir o território em Capitanias Hereditárias, replicando, deste modo, as soluções seguidas para os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde.

    É opinião geral que este sistema fracassou, por vários motivos, designadamente o absentismo dos Capitães donatários ou seus representantes. 

    Apenas duas Capitanias, Pernambuco e S. Vicente, conseguiram singrar no sentido do desenvolvimento e prosperidade, graças à cultura sistemática e intensiva da cana de açúcar e sua transformação industrial nos chamados engenhos, de modo tal, que alguns anos depois Portugal era o primeiro produtor mundial de açúcar.

    Em recompensa e reconhecimento por importantes serviços a Portugal, em África, na Índia, em Malaca e também no Brasil, para onde partiu em 1532, ao comando de uma esquadra com a missão de expulsar e perseguir navios franceses que infestavam o litoral da colónia, Duarte Coelho recebeu de D. João III a doação da Capitania de Pernambuco, que ele próprio denominou de "Nova Lusitânia".

    Duarte Coelho Pereira pertencia à ilustre família dos Coelhos, da nobreza agrária de Entre-Douro-e-Minho, Senhores de Felgueiras, Fermedo e Vieira e administradores da Gafaria de Alfena, cujas rendas das respetivas terras, emprazadas em regime de Enfiteuse por três vidas a casais alfenenses, revertiam para o sustento dos gafos, para o seu hospital e capela de S. Lázaro, na margem esquerda do Leça.

    Uma vez nomeado Capitão Donatário, Duarte Coelho assumiu por inteiro a nova missão que o seu Rei achou por bem confiar-lhe. 

    Em 1535, com a idade de 60 anos, desembarcou em Pernambuco acompanhado da esposa, D. Brites de Albuquerque, dos filhos, do cunhado Jerónimo de Albuquerque, o celebrado "Adão Pernambucano", por ter sido pai de 24 filhos, uns legítimos outros legitimados, e muitos outros parentes, além de várias famílias do norte de Portugal, muitos deles cristãos-novos interessados em escapar à feroz perseguição religiosa que então grassava na Península Ibérica.

    Tudo leva a crer que, dada a relação próxima entre a família Coelho, Senhorios e Administradores das terras da Gafaria e os casais alfenenses seus enfiteutas, alguns nossos conterrâneos terão integrado a  comitiva ou as levas seguintes, convidados por amigos, vizinhos ou familiares.

    E aqui entra o nosso herói, Gaspar Dias, cristão-novo, de alcunha Matado, filho de Manuel Dias e de Isabel Afonso, natural de Alfena. 

    Seus familiares próximos sofreram  graves dissabores com o Santo Ofício, nomeadamente sua tia paterna Leonor Lopes e marido Manuel Lopes, mercador, residentes na cidade do Porto, ela sentenciada pela Inquisição de Coimbra, em 1559, a «abjuração em forma de penitências espirituais, não sair do Reino sem licença»  e seu irmão Estêvão Dias, vendeiro, preso em Quintela de Lampaças, Bispado de Miranda, em 1582, acusado de «judaísmo, heresia e apostasia», condenado pela Inquisição de Coimbra, em 1586, a «confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo sem remissão, levará ao auto hábito penitencial com insígnias de fogo, instrução na fé, penas e penitências espirituais».

    Perante tais ameaças, ainda jovem, Gaspar terá partido para o Brasil, estabelecendo-se como barqueiro no Recife, então um pequeno povoado, com ótimas condições portuárias, que a capital, Olinda, distante pouco mais de uma légua, não possuía.

    Tudo indica que Gaspar Dias terá prosperado, já que ao cabo de poucos anos residia num paço, género de casa distinta, apalaçada, emprestava toalhas para os altares da igreja e nela fazia  tenção de construir, fora do arco da capela-mor do lado do Evangelho, um altar a Santa Catarina, só que o seu vigário Jácome Ribeiro Queixada apenas autorizava do lado da Epístola.

    Tudo terá corrido sem sobressaltos até ao dia do ano de 1593 em que o Visitador do Santo Ofício, Heitor Furtado de Mendonça, se estabelece em Olinda, faz as suas proclamações e aguarda que lhe cheguem as denúncias, as mais das vezes, vinganças mesquinhas de cristãos-velhos, roídos de inveja face ao sucesso dos vizinhos cristãos-novos, muitos deles, apenas aparentemente convertidos, já que secretamente continuavam a professar a religião de seus antepassados.

    O que  chegou até nós destas visitações mostra que parte significativa da população branca continuava a judaizar, na sua maioria comerciantes, fazendeiros, armadores de navios, gente de relativo poder económico.

    Gaspar Dias também não escapou à delação torpe, em 18-11-1593, um seu vizinho de nome Pantaleão Jorge, cristão-velho, natural do Porto, «apareceu sem ser chamado nas casas da morada do Senhor Visitador do Santo Ofício (...) por querer denunciar coisas tocantes ao Santo Ofício (...) um dia à tarde estando à porta de Brás Ferreira, falando com ele  Gaspar Dias (...) ouviu ao dito Gaspar Dias que ia buscar umas toalhas suas de mesa que estavam no altar da igreja que ele emprestara e o dito Brás Ferreira, tanoeiro, (...) lhe disse que já as não podia tornar ao serviço de sua casa, então o dito Gaspar Dias disse as palavras seguintes, tanto serviço faz a Deus um bom casado na sua cama e casa como um sacerdote que celebra missa no altar e logo ele denunciante e o dito Brás Ferreira lho contradisseram e ele sustentou e aporfiou que dizia bem e três ou quatro vezes repetiu (...)».

    SANTO ANTÓNIO DO RECIFE - PERNAMBUCO (Séc. XVII)
    SANTO ANTÓNIO DO RECIFE - PERNAMBUCO (Séc. XVII)
    Fosse por ter entendido como sendo para si alguns dos "recados" das prédicas aquando da leitura das sentenças no cadafalso, como afirmará ao depor, ou por inconfidência de algum dos intervenientes no processo, "violação do segredo de justiça" como agora se diz, o facto é que o nosso homem decidiu tomar a iniciativa, apresentando-se ao Visitador, não sem antes, provavelmente, ter garantido o afeiçoamento de alguns depoimentos.

    «Aos dez dias do mês de outubro de 1594, nas casa da morada do Senhor Visitador (...) apareceu sem ser chamado Gaspar Dias e por querer confessar a sua culpa (...) disse ser natural de Alfena, termo da cidade do Porto, cristão-novo (...) de idade de 40 anos mais ou menos (...) casado com Beatriz Luís que não sabe se é cristã-nova ou velha (...) tem uma só filha Susana solteira da idade de 11 anos, (...) que ontem no cadafalso, ouvindo publicar as sentenças ouviu este caso e por isso lhe lembrou e por isso vem ora pedir perdão e confessar a sua culpa (...) e perguntado mais nem ele réu nem outro parente nunca foi preso nem sentenciado pelo Santo Ofício, mas que ouviu dizer que seu irmão Estêvão Dias foi preso pelo Santo Ofício não sabe onde (...) e também ouviu dizer que seu tio Manuel Lopes foi preso pela Inquisição de Coimbra (...)».

    Beneficiando, em especial, de um depoimento "amigo" do seu Vigário Jácome Ribeiro e (...) «por vir confessar a sobredita culpa da qual não há mais informação contra ele (...) com a repreensão do seu Vigário entendeu que dissera mal (...) Mandam que o réu Gaspar Dias seja repreendido nesta mesa e que se confesse e comungue de confesso de seu confessor quatro vezes no ano seguinte fora da obrigação da quaresma e pague somente quatro mil reis para as despesas do Santo Ofício e pague as custas (...)».

    Gaspar Dias, de alcunha Matado, cristão-novo, natural de Alfena livrou-se de boa, saindo airosamente de uma situação muito complicada que, em muitos casos, tinha desfechos bem trágicos.

    Por: Arnaldo Mamede - Al Henna

     

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