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    Arquivo: Edição de 15-12-2013

    SECÇÃO: Património


    TEMAS ALFENENSES

    A emigração para o Brasil e as suas marcas na paisagem urbana de Alfena (1)

    Fotos ARQUIVO AL HENNA
    Fotos ARQUIVO AL HENNA
    Até agora não podemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo, a terra é em si de muitos bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo de agora assim os achamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem."

    Neste pequeno extrato da célebre Carta ao Rei D. Manuel assim Pero Vaz de Caminha, escrivão da Feitoria de Calecut, enviado na armada sob o comando de Pedro Álvares Cabral, descreve em 1 de Maio de 1500, a Terra  de Vera Cruz "descoberta" alguns dias antes.

    Curiosa e, de certo modo, premonitória a semelhança que estabelece com a sua região natal, o Entre-Douro-e-Minho, como que adivinhando o futuro que estava para vir, pois seria desta Região do Noroeste Português que partiriam levas sucessivas de colonos e emigrantes que, maioritariamente, nos séculos seguintes viriam a promover a colonização e o povoamento dos imensos territórios que hoje constituem a República Federativa do Brasil.

    Todos nós temos, por certo, conhecimento de familiares próximos ou mais afastados, de simples vizinhos ou conhecidos, que abalaram das suas terras de origem, temporária ou definitivamente, à procura de melhores condições de vida no Brasil.

    Nos anos seguintes após a "Descoberta", o seu povoamento foi pouco significativo com  algumas pequenas feitorias no litoral para exportação do pau brasil e por degredados, pessoas condenadas em Portugal por crimes diversos, largados e abandonados à sua sorte, alguns dos quais conseguiriam integrar-se nas comunidades indígenas locais.

    A colonização inicia-se, de facto, em 1530, com a criação das Capitanias Hereditárias, atribuídas a elementos da Nobreza, que recrutavam colonos aos quais concediam Sesmarias, largas áreas  de terrenos com prazos fixados para a exploração e desenvolvimento da agricultura e pecuária, principalmente o cultivo da cana-de-açúcar.

    A notícia chegada a Portugal da descoberta de grandes jazidas de ouro originou em pouco tempo a partida de grande número de homens,  grande parte jovens, originários do Minho, em busca de fortuna, uma autêntica corrida ao ouro. Contudo, esta emigração não substituiu a anterior, colonos e emigrantes sempre coexistiram.

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    Este surto migratório, de tão intenso, fez despovoar de homens aldeias inteiras do Noroeste,  de modo tal que o Governo se viu obrigado a impor restrições à emigração com as leis publicadas em 1709, 1711, e 1720. 

    "Tendo sido o mais povoado, o Minho é hoje um estado no qual não há pessoas suficientes para cultivar a terra", escreveu um autor da época.

    Entre finais do Séc. XVIII e a primeira metade do Séc. XIX a emigração sofreu um forte decréscimo, comparando com o período anterior, contudo, prosseguiu, agora em muito menor escala, em termos de quantidade, porém, de qualidade superior, com a partida de jovens adolescentes instruídos, filhos segundos ou terceiros de agricultores mais ou menos abastados, com idade de 14 anos e até menos, para assim escaparem ao serviço militar.  

    Estes jovens eram recomendados aos cuidados de parentes ou simples conterrâneos, comerciantes estabelecidos no Rio de Janeiro, S. Paulo, Salvador e outras cidades, não raras vezes sucedendo-lhes à frente dos respetivos negócios. 

    Alguns  regressaram ricos às suas terras, compraram propriedades, construíram grandes casas, possuíram bens móveis e imóveis, muito dinheiro e ações em grandes companhias e bancos. 

    Por vezes, por falta de sucessores diretos, decidiram legar às suas comunidades asilos, hospitais, escolas e outros melhoramentos, tornando-se mecenas e benfeitores, merecendo, justamente, o reconhecimento e consideração dos seus concidadãos.

    Alfena, terra situada na província de Entre-Douro-e-Minho, a que mais gente mobilizou para a colonização e povoamento do Brasil, não podia deixar de dar  o seu contributo.

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    Chegaram até nós vários documentos que testemunham a presença de alfenenses no Brasil, desde os primórdios da colonização no Séc. XVI até aos tempos mais recentes: 

    Gaspar Dias Matado, metade cristão-novo, natural de Alfena, termo do Porto, barqueiro de profissão, filho de Manuel Dias e Isabel Afonso, casado com Beatriz Luís, acusado do crime de "proposições heréticas", caiu nas garras da Inquisição, em 1593, no Recife, tendo sido condenado em "auto de fé privado, por sentença de 18-08-1595".

    Manuel Moreira Bello, natural do lugar da Rua, Alfena, contraiu matrimónio cerca de 1720, em S. Salvador da Baía, com Mariana Josepha de Meneses, natural de Luanda, Angola, tiveram quatro filhas das quais houve larga descendência, espalhada por todo o território brasileiro.

    Um outro Moreira Bello, de seu nome José, também natural do lugar da Rua, Alfena, talvez sobrinho do anterior, proprietário de duas fazendas e de uma dezena de escravos, no Estado de Minas Gerais, fez testamento em 1804:

    "Em nome da Santíssima Trindade (...) eu José Moreira Bello, estando em meu perfeito juízo, doente de cama da moléstia que Deus foi servido dar-me, faço meu testamento da forma seguinte:

    Declaro que sou natural de S. Vicente de Alfena, Bispado do Porto, filho legítimo de Silvestre Moreira Bello e de sua mulher Brites Mendes de Oliveira, já falecidos (...) declaro que nesta terra de Minas fui casado com Quitéria Maria de Jesus (...) tivemos um filho de nome Pedro..."..

    Por: Arnaldo Mamede - Al Henna

     

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