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Edição de 31-10-2019
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    Arquivo: Edição de 31-07-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    À terra onde fores ter…

    Este ano repetia-se um evento na cidade onde trabalho – uma feira do livro levada a efeito apesar da crise que atravessamos, numa gravidade sem memória, e que me tem dado uma consciência e responsabilidade social. Foi isso que me fez estar lá, no Parque Urbano de Ermesinde, durante uma semana, ao lado deste pequeno arauto. Repetia a experiência do ano anterior e, sentindo-se efetivamente os efeitos da crise quanto a compras, o mesmo não acontecia com o número de presenças que estiveram lá, respeitando e valorizando a coragem de pequenos editores e livreiros que não viraram a cara a este evento – uns a dar força e coragem aos outros porque, não tendo chegado todos nos mesmos navios, certo é que neste momento não estamos alheios à sensação de que estamos todos no mesmo barco, tal como dizia Martin Luther King. Depois, estar lá, horas a fio a conviver com a cultura e a arte, ver pessoas que nos cumprimentavam como se fôssemos da casa, autarcas que nos identificavam pela simples coragem de se “ser”, receber ainda a visita de pessoas que faziam perguntas e queriam simplesmente “saber”, obrigava-me a pensar no quanto me fazia sentido lembrar um dito popular, “a nossa terra é aquela que nos dá de comer”.

    No que me foi possível fui raciocinando por mim própria na procura de explicações para o facto de nesta terra onde trabalho nunca me ter sentido estrangeira, pois nunca me foi cobrado o facto de não pertencer à casta pura de Ermesinde – se calhar isso acontece devido ao facto de quase toda a gente que por aqui mora ter vindo de algum lugar. Grande parte em cima de carris, trouxeram famílias, trouxeram sonhos e esperanças, encheram de gente esta cidade que cresceu e se alargou e onde todos tiveram um lugar. Pagaram os seus impostos, desenvolveram-se, envolveram-se social e culturalmente na terra que, pouco a pouco passou também a ser a sua e dos seus descendentes, conforme me tem sido dado a perceber. Para mim, estas conclusões eram parcas para o meu sentir-me em casa e na busca incessante de repostas (que não detenho) para os meus porquês, voltei a indagar junto de pessoas do saber. As diversas respostas foram que não era de todo estranho que sendo eu uma maiata (de origem vermoense), me sentisse integrada e aceite a trabalhar em Ermesinde tendo em conta que: «Ermesinde já foi… Maia».

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    Teimosa, fui tentar perceber porque toda a gente me respondia desta forma e encontrei o que procurava num apontamento do Ricardo Ribeiro, publicado no jornal “A Voz de Ermesinde”, onde a uma dada altura, se escreve que nas vésperas do Liberalismo, o «antigo concelho» da Maia, na comarca do Porto e Província do Minho integrava 48 paróquias e uma delas era S. Lourenço de Asmes (atualmente Ermesinde). Seria somente após a Guerra Civil que as Terras da Maia foram desmembradas, por influências de caciques locais e pela aplicação da Reforma Administrativa do Liberalismo, em 1836. Estavam certos os meus “professores”, embora eu sinta que de alguma forma existem alguma barreiras instituídas não pelo caciquismo, mas tão somente porque em meios mais pequenos e de alguma ruralidade, as pessoas que vinham mais fragilizadas se foram acantonando por sonhos comuns, por angústias comuns, por formas de saudades também comuns de tudo o que precisaram de deixar para trás e que de alguma forma os faz estar sempre conotados com uma imigração que quase sempre leva à mesma pergunta – de onde é que vocês vieram?

    O pleno direito de se ser é por vezes ambíguo – a tal faca de dois gumes, o que em certos casos leva a uma ostracização, involuntária mas de alguma forma subjacente, mesmo que se trate das tais pessoas que se consideram gente de preceitos e de bem, ainda mais que “à terra onde vieram ter, fizeram como viram fazer”, para serem aceites, para se sentirem integrados, porque fizeram questão de entrar nas contas dos acontecimentos sua freguesia, pagar os seus impostos e adotar as suas leis. O tempo também foi mudando as suas vontades, ainda mais que o amadurecimento ajuda a perceber que ninguém é dono de coisa alguma e também não tem qualquer defeito ter-se conseguido ultrapassar a bitola que os “mais” definiram como medida de crescimento para os “menos”, que se atrevem, ousam sair dos limites das suas terras e, ainda, levam a sua ousadia até aos quatro cantos do mundo. Era mais do que desejável que estas pessoas não se sentissem verdadeiramente imigrantes dos seus próprios destinos em que até o próprio coração os atraiçoa porque divide-os e baralha-os na escolha do nome da tal terra (que se pode dar como garantidamente certa e nossa) que, desta vez, será a que nos há de comer.

    Gostei de conhecer um pouco da história das Terras da Maia, ainda mais que foi sob o nome desta cidade que cresci e aqui germinou a minha formação de menina e moça em tempos de um autarca, que era professor e me faz recuar a 1972, quando nos visitava na escola. De estatura demasiado elevada para nós, que éramos crianças e o envolvíamos com a nossa alegria, queria saber: como nos estávamos a sentir na escola, que professores nos faltavam, que disciplinas gostávamos mais, etc.. Certo é que, atualmente, gosto de me sentar a pensar e rascunhar junto à estátua que lhe foi merecidamente erguida e surpreendia-me quando há tempos atrás via um senhor de alguma idade afagar-lhe a mão, em sinal de respeito que terminava com um aceno. No hábito que tenho de pensar que ninguém consegue chegar a lado nenhum sozinho, hoje, senti necessidade de escrever este apontamento para o pequeno arauto (de terras que já foram da Maia), num dos computadores da Biblioteca Municipal Dr. Vieira de Carvalho, um espaço de portas abertas à utilidade pública que felizmente as diversas autarquias com quem a vida me vai cruzado se esmeram por colocar ao serviço de todos, quer sejam conterrâneos, imigrantes ou emigrantes.

    Por: Glória Leitão

     

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