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    Arquivo: Edição de 19-07-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Road book

    Na área do ensino está praticamente encerrado mais um ano letivo. Numa escola de gente grande por onde passei e a que vulgarmente se chama faculdade estão os meus colegas de turma que terminam agora a sua licenciatura. Preparam as suas monografias, que irão espelhar pedacinhos de saber que lá recolheram. Por sua vez a sociedade recebe mais umas dezenas de pessoas que vão adicionar conhecimento ao seu desempenho profissional, ou ainda tornarem-se mais competitivos no mundo do trabalho que, infelizment,e se torna cada vez mais raro e até difícil de manter. Penso que com o avançar da idade cada conquista que se consiga obter dá-nos uma sensação de plenitude que nos preenche interiormente a um ponto em que, por vezes, pensamos não caber lá mais nenhuma emoção. Acontecia-me isso cada vez que eu entrava na “minha” faculdade e nunca me importei se ia bem ou mal vestida, se era bonita ou feia, se era gorda ou magra – sabia que estava lá a aprender e a viver momentos únicos, em tempos únicos, que eu saboreava naquele enorme átrio da entrada onde existia a tal claraboia que me deixava ver a noite. Quando a olhava, durante todo o ano letivo em que lá pude ficar, sentia a minha vida no topo de uma pirâmide, a de Maslow.

    Eu tinha-me preparado para descer essa mesma pirâmide mas confesso que foi duro quando precisei de cortar laços e desligar-me dos sons, da emoção e da vida de uma faculdade. Agarrei-me à ideia de que não era a única que não podia ficar e, de certeza, que muita gente, bem melhor pontuada que eu, merecia ter passado por lá, ter ficado e ter terminado. Depois, dei por mim a pensar que o facto de não ter podido ficar não significava que tinha que parar de aprender, ainda mais que tinha a ajuda preciosa da vida, que é generosa porque nos dá a oportunidade de o fazer, num saber que não é desprestigiado de forma alguma – o conhecimento empírico, enriquecido pelo facto de agora, parte dele ter nomes próprios, conforme aprendi, aprendendo e questionando e procurando respostas que quase sempre dão lugar a novas perguntas – um jogo que pouco a pouco me vai ajudando a adicionar conhecimento e que felizmente nunca se esgota.

    Pintura de Camille Pissarro
    Pintura de Camille Pissarro
    Quando a vida nos direciona para uma coisa em que podemos escolher um tema para trabalhar torna-se mais fácil ao fazê-lo, procuramos algo que se identifique connosco e com a nossa maneira de ser e depois desenvolvemos. Sem que me desse conta disso os meus colegas iam trabalhando para passar os anos letivos e, embora palmilhando por caminhos diferentes eu fui andando a par com eles dedicando-me à construção de um “road book” – o “mapa de navegação” de uma mulher que aprendi a conhecer e que se foi erguendo do chão com os seus 17 euros mensais disponíveis e uma mão cheia de papéis: comprovativos de formação. Em temas escolhidos de forma aleatória, os 76 apontamentos que assinou (e que de alguma forma estão ligados entre si), foram-se tornando na sua companhia – compreendiam-na. Claro que seria bem mais fácil não se fazer, não se falar, não se escrever. Ao não seguir por esse caminho a cobrança às vezes é pesada e tem rostos que por vezes se transfiguram em animosidade. Devia ter-se dito mais? Devia ter-se dito menos? Devia ignorar-se pequenos e singelos enaltecimentos? Devia ter-se duvidado da coragem vista nos outros, que seria afinal outro tipo de sentimento? Equacionar isso e procurar um caminho que agradasse a “gregos e troianos” era seguir um caminho que não era o seu e aqui deitava-se a perder todo o trabalho na procura de si mesma.

    De repente, surgindo do nada, alguém pergunta: «Posso utilizar pequenos trechos dos seus textos na motivação do meu grupo?» – Era por esse motivo que tinha sido escolhida esta linha de orientação para a escrita: em algum ponto comum a vida nos cruza na vida de alguém; contudo, nunca será mesmo convergente no seu todo e a única forma de se “sentir como o lobo” é vestirmo-nos com a sua pele. Ao ter feito isto, esta mulher foi sendo auxiliada pelo tempo, que a foi ajudando a definir o trajeto que ia sendo desenhado no tal “mapa de navegação”, feito sem copiloto. As coordenadas, em forma de emoções, sensações e vivências seriam feitas na primeira pessoa que à sua maneira, ia anotando – o declive das rampas, os níveis e desníveis de um caminho palmilhado com uma visão muito própria, sem plágios e contraponto. Já existia a visão dos “outros”, pois esta mulher já lá tinha estado “misturada” no meio de um povo sábio que costuma dizer que nas costas dos outros lemos as nossas. Mas também, alguém sensato escreveu: «Antes de julgares a minha vida ou o meu carácter calça os meus sapatos e percorre o caminho que eu percorri e vive as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorre os anos que eu percorri, tropeça onde eu tropecei e levanta-te assim como eu fiz. Cada um tem a sua própria história e só assim poderás julgar-me». E são frases simples, como esta, que dão a coragem suficiente para continuar a seguir em frente em vez de perder tempo a andar a atirar pedras aos telhados uns dos outros.

    A conjugação das letras que formaram as palavras dos textos que foram apensos ao que poderia ter sido uma monografia e onde nunca foi utilizada a palavra “perfeição”, podiam ter começado numa simples redação da escola primária, podia ter sido escrito numa sala de aulas de uma qualquer escola secundária, de uma qualquer sala de formação ou na sala de uma qualquer faculdade. Se a palavra “fica” foi um erro de decisão certo é que nada tinha disto sido possível se esta mulher não tivesse passado as portas de uma escola de gente grande, onde recebeu uma pequena fita de pulso em tinha sido escrita uma frase de Peter Drucker – «A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo». Desta forma e como introdução desse “road book” que vai ser entregue, a um dado momento está lá escrito um agradecimento por ter sido devolvida a uma mulher a simples capacidade de voltar a sorrir. A vida de um ser humano ainda tem o valor que nós lhe quisermos dar e, com tudo isto, em extremos em que seja imperativo fazê-lo, esta pessoa (que poderia ser qualquer outra pessoa) e que trabalha numa área social, pode continuar a fazer o que tem feito: agarrar as pessoas em queda, e ter a capacidade de lhes dizer – «olhe para mim, eu já estive desse lado!» – uma das utilidades que ela encontrou na forma como pode retribuir a oportunidade que recebeu da vida: servir de exemplo!

    Por fim, aqui ficam os parabéns a todos os que enfrentaram um ano letivo, a todos os que tentaram cumprir os objetivos a que se propuseram, a todos os que conseguiram e ainda aos que encaram a formação como uma ferramenta preciosa para si mesmos, tal como tenho presenciado nas salas por onde continuo a passar e que são frequentadas por tanta gente que não desiste de procurar uma oportunidade para si e contribuir na construção e reconstrução de um país que está e sempre estará cheio de vidas dentro – a nossa e a dos outros, isto porque a vida também me ensinou que nós nunca caminhamos sozinhos.

    Por: Glória Leitão

     

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