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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 10-04-2013

    SECÇÃO: Crónicas


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    Uma carta especial

    Olá petite demoiselle!|

    Hoje tinhas que ser tu o motivo da minha reflexão e sei que vais entender quando te disser que quase chorei quando soube que o teu mundo desmoronou – afundaste. Lógico que eu podia ficar à distância, alhear-me e ignorar. Seria mais confortável pertencer ao grupo dos que poderão dizer «é bem feito!», ou tanto mais que tu sabes porque, de uma forma ou de outra também nós teremos estado nesse grupo: os juízes em causa alheia, aqueles que apontam o dedo. Mas agora foi a tua vez e também já foi a minha (ressalvando que nunca nos é garantido que não voltará a acontecer) e é a de muita gente que conhecemos e também desconhecemos mas existem, num número muito difícil de quantificar e traduzir em dígitos ou estatísticas.

    A ti, que conheço há mais de vinte anos e interiorizo o teu rosto numa foto que tenho em arquivo de família e que espelha a “miúda” alegre, extrovertida e irreverente que conheci, preciso de dizer-te que sei muito bem aquilo porque estás a passar, a coragem que precisas para te levantar e ir ao encontro de um novo trabalho que nada terá a ver contigo. As pessoas também não terão conseguido entender que estar a trabalhar sob a pressão e exigência de resultados financeiros (como é o caso de se trabalhar num banco) pode transformar pessoas em “escravos” dos números dos outros e isso ter-te-á levado a uma exaustão e a um vazio de ti mesma que será difícil enxergar aos olhos de cada um. Por este teu novo trabalho ser mais “humilde” (nunca menos digno), espero que não te aconteça receberes visitas como se estivesses numa “montra”, para um “ajuste de contas” ou ainda para a confirmação das certezas de alguns – o estado “deplorável a que se chegou”, enviando-se os “toupeiras”, com a missão de ver, para ir contar e não deixar qualquer tipo de margem para dúvidas aos que se esquecem que a roda tanto anda, como desand,a e que todos vivemos numa “roleta russa”.

    Eu sei que neste momento não tens como “fugir” à realidade nua e crua criada por circunstâncias da vida, irresponsabilidade, sonhos e ilusões. Também, em muitos casos as pessoas não saberão identificar e conviver muito bem com a palavra “amor” e andarão sempre na busca curiosa: «Que será? Como será? Será isto mesmo que encontrei?». É que às vezes, o facto dos nossos pais, os pais de tanta gente, quererem deixar aos seus filhos o conforto e estabilidade financeira, idealizarem para eles uma casa, um quarto e mesmo um “modo de vida” não terão tido tempo para nos explicar o que era o amor e como era. Não conhecendo a sua “forma” terá que se andar à procura e as consequências são mesmo imprevisíveis para quem é apanhado nessas “estranhas formas de amar”.

    Tu sabes que não sou mulher de cruzar braços, integrando o grupo de “espetadores” que ficarão a ver qual o desfecho para a tua história. A morares a mais de 2 000Kms e em países diferentes, com culturas diferentes, o ser humano não diverge muito no seu comportamento e também sabes que nada mais poderei fazer a não ser escrever-te e dizer-te, acima de tudo – não desistas. Fixa-te no sorriso dos teus “miúdos” e luta. És mulher para isso e para muito mais. Neste momento não te tens só a ti, tens uma família e uns jovens fantásticos que eu conheço e te dirão a mesma coisa que me disseram um dia: «On t’aime Tata!». Tenho também a certeza que agora, já adultos, não deixarão de fazer a mesma coisa que me faziam a mim, quando vinham de férias a Portugal – ir buscar uma cadeira para eu descansar as pernas num intervalo de três horas e isto até voltar a retomar o trabalho que durava mais de catorze horas, sempre em pé.

    Também, à inspiração mais forte que pode existir para não nos afundarmos – o rosto dos nossos filhos, junta-lhe um: o rosto da tua mãe (a nossa Mamie), e dá-lhe o gosto de ver que a sua “menina” se vai erguer, não se vai esquecer de todo o valor que tem dentro de si, que há-de voltar ao caminho que a vida a fez interromper e seguramente que aprendeu com os erros. Isso vai levar a que se erga mais sábia e logo por si mesmo – muito mais forte. Tenta ainda lembrar-te de uma coisa muito importante: quando um “amigo” te puser a mão no ombro e te disser: «Tadinha, tenho tanta pena de ti», ou ainda: «Foi uma pena não teres aproveitado, ganhavas tão bem», olha para ele e lembra-te do “coveiro” porque esse tipo de amigos são “coveiros”. Um amigo de verdade não te puxa para baixo (mesmo com a mão no teu ombro), não te julga, antes te estende a mão e diz-te, sem cobranças: «Vamos lá, levanta-te, que eu ajudo-te!». Se neste momento não tens esse tipo de amigos só te posso dizer que não te preocupes, pois se acreditares em ti, se tiveres fé naquilo que queres conseguir, se trabalhares muito para conseguires aquilo que queres, a vida trata de os colocar no teu caminho.

    Sorrio muitas vezes de uma coisa que dizia a uma das minhas filhas: «Pode ser que agora que encontrei pessoas que decidiram ficar minhas amigas sabendo que nada tenho para dar, se a vida me correr melhor, pode ser que não me abandonem». Surpresa das surpresas: isso aconteceu-me e ainda mais, chegaram pessoas que eu pensava terem sido “ex-colegas” mas vieram de novo e ficaram, amigos, num laço que até parece um abraço. Se me considerares neste grupo, deixo-te um pedido especial: por favor não desistas – principalmente por ti, depois pelas pessoas a quem mais amas, seguir-se-ão todas as pessoas que representas e que, infelizmente, são tantas. Também, não fiques “escrava” dos erros do passado, aprende com eles e constrói de novo. Eu sei que as pessoas têm tendência de escrever as virtudes na areia e os defeitos no bronze mas não deixes que isso te aprisione o cérebro e a vontade porque os Ingleses dizem que “onde há uma vontade, há um caminho” e não duvido que tu vais encontrar o teu. Eu? Cá estarei para te aplaudir, de pé!

    Por: Glória Leitão

     

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