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    Arquivo: Edição de 15-02-2013

    SECÇÃO: Literatura


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    A VOZ DAS PALAVRAS

    Alguns Amores

    O amor é um tema de eleição da totalidade de poetas e prosadores. Esta questão acaba por se repetir e reinventar em crónicas, romances, poemas, teatro e demais escritos. A visão, representação e interpretação do amor na literatura varia de acordo com o autor, a época e corrente literária. É um tema extraordinariamente difícil de descrever e, por isso, tão variável. Não há uma linha condutora, e, como tal, existem brechas tão abruptas no tipo de representação desta questão. Para se entender o amor de hoje, na literatura portuguesa, é imprescindível refazer as andanças humanas por esse território tão fluido, percorrer o caminho dos nossos antepassados.

    Nas letras portuguesas, o amor é, em grande parte, sentimento de paixão, nostalgia de um sentimento vivido em felicidade, mas que não foi possível alcançar. A primeira grande manifestação do amor infeliz e doloroso encontra-se patente nos cantares de amigo. Exemplo de cantiga de amigo composto pelo rei D. Dinis:

    «Non chegou, madr’, o meu amigo,

    e oj’est o prazo saido!

    Ai, madre, moiro d’amor!

    …» (1)

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    Mas a nossa poesia rainha do Amor é precisamente a trágica paixão entre D. Pedro I e Inês de Castro, que nos continua a impressionar pela sua intemporalidade, força e todos os sentimentos envolvidos: amor, ódio, conflito de interesses, intriga, inveja. Os restos de ambos jazem juntos até hoje, são dois corações que repousam lado a lado, viveram em plena luta pelo seu amor e agora descansam em paz, pois a paixão pode vencer a morte. Inês de Castro é uma figura da história de Portugal e é descrita inúmeras vezes como tema de várias obras literárias, não só na literatura nacional, como também na de outros países. A primeira aparição dos amores de D. Inês dá-se com as Trovas à Morte de Inês de Castro, de Garcia de Resende, no “Cancioneiro Geral” de 1516. A influência da obra de Camões, na literatura portuguesa, contribuiu em muito para consolidar Inês de Castro como uma das suas personagens mais férteis. Um dos poemas mais marcantes é precisamente o canto III:

    [120]

    «Estavas, linda Inês, posta em sossego,

    De teus anos colhendo doce fruito,

    Naquele engano da alma, ledo e cego,

    Que a fortuna não deixa durar muito,

    Nos saudosos campos do Mondego,

    De teus fermosos olhos nunca enxuito,

    Aos montes insinando e às ervinhas

    O nome que no peito escrito tinhas.»

    Também Bocage lhe dedicou uma cantata, Ruy Belo, Miguel Torga, Natália Correia, etc..

    No Romantismo, o amor vem à cena principal conduzindo à felicidade, quando aprovado pela sociedade, ou à loucura e à morte, únicas soluções possíveis ao par amoroso que ousa desafiar a ordem estabelecida, recuperando a coita medieval. Em “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, as rivalidades paternas também inviabilizaram o amor de Simão e Teresa, levando os amantes a um desfecho trágico. As personagens camilianas são sempre destinadas aos impulsos do coração e refletem a não realização física do amor. Obra escrita num estilo extraordinariamente simples, numa linguagem coloquial e autêntica, o “Amor de Perdição” é ainda um dos frutos do conceito platónico do amor: «Tudo o que o amor adquire lhe escapa sem cessar» e, por esta razão, diz Camilo sobre Simão que o jovem «amou, perdeu-se e morreu amando». Simão, personagem que Camilo acentuou, deixar-se-á morrer por amor.

    Em “Eurico, o Presbítero”, de Alexandre Herculano, as imposições paternas afastaram inicialmente Eurico de Hermengarda, depois irremediavelmente separados pelo sacerdócio em que se refugiara Eurico, tentando esquecer a amada.

    A modernidade vive a crise do sujeito, que se perde nos meandros do mecanicismo, do progresso, da aparência, da sexualidade, apontando os descaminhos que envolvem a relação amorosa. “Enseada Amena”, de Augusto Abelaira, evidencia a dificuldade de diálogo devido à falta de clareza interna. A poesia de Miguel Torga e a obra “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, configuram-se como modelos de respostas possíveis ao homem contemporâneo em seu anseio de amor. Realçam o enlace de Psique – a alma – com Eros – o amor, num movimento que requer primitivamente o mergulho na própria interioridade para depois efectuar o encontro com o outro, enredando descida e elevação, reclusão e abertura.

    E como não poderia deixar de ser, finalizo esta crónica com uma autora cuja temática recorrente foi o amor e traçou os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: desejo, tristeza, solidão, sedução, saudade e morte:

    Amiga (2)

    Deixa-me ser a tua amiga, Amor,

    A tua amiga só, já que não queres

    Que pelo teu amor seja a melhor,

    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágoa e dor

    O que me importa a mim?! O que quiseres

    É sempre um sonho bom! Seja o que for,

    Bendito sejas tu por mo dizeres!

    Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...

    Como se os dois nascêssemos irmãos,

    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

    Beija-mas bem!... Que fantasia louca

    Guardar assim, fechados, nestas mãos,

    Os beijos que sonhei p'rá minha boca!...

    Florbela Espanca in “Livro de Mágoas”

    (1) “Cantigas d`el rei D. Dinis”. Ed. Álvaro J. da Costa Pimpão. Lisboa, 1942.

    (2) Espanca, Florbela. “Sonetos”. Lisboa: Europa-América, 4ª ed., 1985.

    (*) avozdasp@gmail.com

    Por: Ricardo Soares

     

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