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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 31-12-2012

    SECÇÃO: Património


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    TEMAS ALFENENSES

    O Capitão da Praça

    Filho natural, mais tarde legitimado, do Bacharel Dr. Manuel Alves Barbosa e de Genoveva Alves Coelho, foi deixado "exposto" à porta de um casal das suas relações no Lugar do Engueiro, Novelas, Penafiel. Terá nascido no ano de 1815.

    O progenitor era Bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra, herdeiro da Casa da Praça, da Quinta e Portal do Ribeiro ou de Transleça e de outro muito vasto património, sendo considerado um dos maiores proprietários de Entre Douro e Minho. Sua mãe, Genoveva Alves Coelho era filha do Ajudante de Ordenanças José Alves Coelho, perecido na Ponte de Negrelos, em 25 de março de 1809, quando forças populares da guerrilha se opuseram tenazmente às forças francesas do General Soult, na tentativa de lhes impedir a travessia do Rio Vizela.

    Caíram nessa luta cerca de três dezenas de portugueses; do lado francês, entre as suas baixas contava-se o próprio Comandante da coluna, General Jardon, herói de muitas batalhas da Revolução e do Império.

    Passemos brevemente os olhos pelo contexto dessa época.

    Viviam-se em Portugal tempos muito difíceis, a Família Real refugiada no Brasil, o ocupante francês, Jean Andoche Junot, impusera a Portugal as punições mais severas, uma indemnização de guerra elevadíssima, o confisco de bens, o saque do ouro e pratas de palácios e das igrejas, os preços dos alimentos dispararam, e a moeda desvalorizou em mais de 70%, ao ponto de quase não haver dinheiro em circulação.

    No mar os navios mercantes portugueses eram apresados, saqueados, vítimas de constantes atos de pirataria.

    A abertura dos portos do Brasil e outras vantagens asseguradas aos Ingleses, mormente o Tratado Especial de Comércio de 1810, concedendo-lhes amplos benefícios, foram golpes muito duros que levaram à falência muitos comerciantes e armadores portugueses.

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    E, quando, após a vitória do Vimeiro, se esperava algum alívio, os termos da Convenção de Sintra apenas cuidaram de salvaguardar os interesses de Franceses e Ingleses, que repartiram entre si os despojos. Os bens que o invasor saqueou aos Portugueses não foram restituídos aos seus legítimos proprietários, foram simplesmente cedidos aos novos ocupantes, os Ingleses, como moeda de troca para uma retirada em segurança.

    Com a Família Real ausente no Brasil, Portugal não passava de um mero protetorado de Inglaterra, governado com mão de ferro por um déspota, um tal Marechal Beresford, de 1809 a 1820.

    Até que, em 24 de agosto de 1820, as tropas da guarnição do Porto saíram para o Campo de Santo Ovídio, atual Praça da República, lançaram uma proclamação contra a ocupação inglesa, semanas depois a revolta chegou a Lisboa, e reunidas as Cortes é exigido o regresso do Rei D. João VI, pressionado a jurar a Constituição que faz cair o Antigo Regime, o Absolutismo.

    Mas, mesmo assim, os momentos de paz foram escassos, senão mesmo inexistentes.

    Primeiro, as desavenças entre os partidários do novo regime, os golpes, as revoltas, a instabilidade permanente, mais tarde o golpe de D. Miguel que, faltando ao compromisso assumido com o seu irmão D. Pedro, se faz proclamar Rei pelas Cortes, por si convocadas à maneira antiga, restaurando o Absolutismo Monárquico, a reação dos Liberais, mais revoltas, a "Belfastada", o exílio, os Mártires da Liberdade, o desembarque do Exército de D. Pedro – o Rei Soldado nas praias de Pampelido, o cerco do Porto, a batalha do Cabo de S. Vicente, a tomada de Lisboa, o prenúncio da derrota das forças afetas a D. Miguel, que viria a ser confirmada nas batalhas de Pernes, Almoster, Asseiceira, para tudo terminar em Évora Monte, com a rendição e o exílio, desta vez definitivo, de D. Miguel.

    Voltemos ao jovem Manuel Alves Barbosa, prestes a completar a segunda dezena de anos de idade e também a seu pai o bacharel com o mesmo nome.

    A sua Casa da Praça fora, durante largas dezenas de anos, sede da Companhia de Ordenanças da Honra de S. Martinho de Frazão, que nomeava o respetivo Capitão, geralmente um oficial da Casa, condição que lhe conferia grande prestígio e influência, em especial, a nível local.

    Porém, a vitória da Revolução Liberal de 1820 viria a decretar a extinção das Companhias de Ordenanças, tidas como importante suporte do Antigo Regime, então substituídas pela Guarda Nacional.

    É neste novo contexto que o velho bacharel, homem atento, bem informado e com dinheiro quanto baste, prevendo como certa a vitória dos partidários de D. Pedro, trata de posicionar o rebento no caminho que lhe irá garantir cargos, prebendas, lugares de relevo, influência e prestígio social nas mais diversas instituições do novo Regime.

    Assim ele, o rebento, o soubesse aproveitar...

    Em 16 de abril de 1834 alista-o no Batalhão do Distrito e, dois dias depois, é nomeado Capitão da 4ª Companhia !!!...

    Consta da respetiva ficha individual: «Alistou-se com 19 anos, e tem 58 pulgadas, cabelos louros, olhos castanhos, solteiro, lavrador-proprietário; he de bons sentimentos a favor de nossa Augusta Raínha ( D. Maria II ) e tem boua conduta civil e militar».

    Poucos dias depois, o Major – Governador Militar do Concelho de Refojos de Riba d'Ave, Joaquim Bento Correia de Miranda e Sá, tem a especial e zelosa preocupação de o comunicar ao bacharel Manuel Alves Barbosa, pai do garboso Capitão. Diz o texto da missiva:

    «Illustrissimo Sr. Dr Manuel Alz. Barbosa:

    No dia de hontem foi elleito a vottos o Ill.º f.º de Vª. Sª. p.ª Capitam da 4ª Comp.ª de Voluntarios do Batalham do meu Comando/ desejarei q. seja do agrado de V. ª Sª. este procedimento / ; por este motivo he indispençavel q. o mesmo Sr. apareça neste Quartel quanto antes afim de puder-lhe Eu declarar-lhe cousas de S. N. R. (Serviço Nacional e Real). Ds. g. a V.ª S.ª. Quartel de Dniz, 20 de M.º de1834. J. B. Correia de Miranda e Sá. P. S. - E rogo a V.ª S.º a graça de fazer Patentiarao Sr. José de Sousa se acha elleito a vottos para Alferes da ditta Comp.ª e da mesma sorte deve comparecer neste Quartel em the amanhã por todo o dia».

    Bastaram dois dias para passar de mancebo a Capitão Comandante da 4ª Companhia de Voluntários de Refojos!

    O poder, a capacidade de influência do velho bacharel seu pai, sobretudo o seu dinheiro, contornavam todo e qualquer obstáculo que lhe surgisse pelo caminho.

    O recrutamento, a instrução, o armamento, o fardamento, o alojamento, o soldo, a mantença da tropa "voluntária" exigia largos recursos e, dinheiro tinha-o o nosso bacharel, disposto a abrir os cordões à bolsa, desde que ciente das vantagens ou proveitos próximos e futuros.

    Ter a tropa do novo Regime do seu lado, dependente da sua "generosidade" naqueles tempos conturbados era, sem dúvida, uma grande vantagem, para si e para os seus.

    Extinto o Concelho de Refojos de Riba d'Ave e instituído o nóvel Concelho de Paços de Ferreira, em 1836, que viria a incluir a Freguesia de Frazão, foi o nosso muito jovem Capitão da Casa da Praça, então com 21 anos de idade, deputado eleito e primeiro Administrador do novo Concelho.

    Cumprido este mandato viria a ocupar o cargo de Vereador Municipal em 1841 e Juiz Ordinário em 1842.

    Foi, ainda, Presidente da Câmara Municipal de Paços de Ferreira em 1845.

    Todos estes cargos exercidos antes dos trinta anos de idade.

    Desapareceu da vida pública, em especial de cargos políticos, de 1845 até 1897, ano da sua morte.

    Passou largas temporadas em Alfena, na sua Quinta do Ribeiro ou de Transleça, nela viria a nascer o seu filho Manuel, no Outono de 1845.

    Tendo herdado de seu pai, o bacharel Dr Manuel Alves Barbosa, um valioso património que o creditava como um dos maiores proprietários de Entre Douro e Minho, errou flagrantemente na administração dos seus bens.

    Deixou-se vencer pelo vício do jogo, que o foi conduzindo, inexoravelmente, à ruína.

    Numa noite fria de novembro de 1848, numa das casas que servia de estalagem no recinto da Feira do Cô, jogavam às cartas, entre outros, o nosso Capitão da Praça e o Padre Félix, Pároco de Penamaior. No centro da mesa o monte não era nada de desprezar, nas costas do Padre, Joaquim Barbosa, o "Índio", criado e guarda costas do Capitão, mirando as cartas, dava pequenos sinais ao seu Patrão. Rebentou forte a zaragata, o "Índio", na confusão, disparou à queima roupa nas costas do Padre, tendo-se a bala alojado no sacro. Detido e levado para a cadeia de Santo Tirso o "Índio" confessou que as pistolas em seu poder pertenciam ao Capitão, seu patrão. Situação delicada para o titular da Casa da Praça, que saído de mansinho da confusão foi visto a lavar as mãos numa bica de água próxima, tinha os punhos da camisa manchados de sangue e, na pressa, deixou lá ficar o anel. O certo é que chegando a ser acusado como conivente e instigador da agressão, passou por maus bocados, até que,finalmente, foi deixado em paz.

    Tal facto não lhe serviu de emenda, continuou na senda do jogo e foi-se arruinando progressivamente, em Alfena foi vendendo, ao desbarato, pressionado pelos credores, primeiro propriedades isoladas em Chãos, Transleça e Junceda, por fim a joia da coroa, a Quinta do Ribeiro ou de Transleça, com todas as suas pertenças, incluindo o monumental portal com o brasão da sua família. Compradores, pela quantia de dez contos de reis, o casal trisavô dos atuais proprietários, José Joaquim Dias de Oliveira e Quitéria Martins (Marques), ele de Campelo, Sobrado, ela de Transleça, Alfena, filha de Manuel da Silva Marques, durante largos anos Administrador do Concelho de Valongo, como consta da Escritura celebrada na Casa da Praça, em 25 de Maio de 1861, pelo Notário Francisco José Lopes de Lima.

    Foi interdito e impedido pela própria família da administração dos bens que lhe restaram, o que o salvou de morrer na miséria.

    Para a lenda ficou na memória das gentes de Alfena que só numa noite de jogo perdeu sete quintas, entre elas a de Transleça ou do Ribeiro, e, por fim, nada mais tendo, jogou a própria mulher, que perdeu.

    Por: Arnaldo Mamede (*)

    (*) Membro da AL HENNA – Associação para a Defesa do Património de Alfena.

     

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