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    Arquivo: Edição de 30-11-2012

    SECÇÃO: Editorial


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    Este país do eterno nevoeiro

    Se há fenómeno na natureza que me inquieta e provoca uma sensação de medo, insegurança, e em simultâneo uma admiração e um convite ao imaginário, que transforma o real nos cenários mais diversos e inspiradores de histórias e vivências, é sem dúvida o nevoeiro.

    Na subida para as Penhas Douradas e na descida para Manteigas, encontro por vezes a serra cercada de nevoeiro e esta sensação repete-se. Se, por um lado, o medo na condução se intensifica, por outro lado a beleza de ver os vales transformados em rios, lagos e mares, e as montanhas e povoações em ilhas, convence-me a arriscar.

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    “E olhei para o vale: tinha desaparecido

    tudo! Submerso! Era um grande mar plano,

    Cinzento, sem ondas, sem praias, unido.

    E só havia, aqui e além, o estranho

    Vozear de gritos pequenos e selvagens:

    Aves perdidas naquele mundo vão,

    Como que suspensos, e sonhos de ruínas

    E de silenciosos eremitérios.”. (1)

    Foi desta forma que me senti na última vez que atravessei a serra, perdida, suspensa.

    Na minha mente corriam imagens narrando os últimos tempos da vida deste país.

    E porque o nevoeiro é inspirador lembrei-me de Fernando Pessoa:

    “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

    define com perfil e ser

    este fulgor baço da terra

    que é Portugal a entristecer -

    brilho sem luz e sem arder,

    como o que o fogo-fátuo encerra.

    Ninguém sabe que coisa quer.

    Ninguém conhece que alma tem,

    Nem o que é mal nem o que é bem.

    (Que ânsia distante perto chora?)

    Tudo é incerto e derradeiro.

    Ó Portugal, hoje tu és nevoeiro…

    É a Hora!”. (2)

    E é com profunda tristeza que associo este poema ao momento atual do nosso país, país a atravessar uma profunda crise: política, de valores e de identidade.

    Que país é este em que todos os dias somos bombardeados com diretivas, leis e comunicados que põem em causa a democracia e a vida das pessoas com a maior das ligeirezas?

    Desta vez o nevoeiro conduziu-me para outro mundo, não o da beleza mas para um mundo de incertezas, de mentiras, de medos profundos. O nevoeiro que esconde a realidade, que encobre o precipício profundo com nuvens que nos dão a sensação de um mar plano, a estrada que não tem fim, mas que só é visível nos primeiros metros, a procura de uma luz que nos indique o caminho.

    Sem tiros, sem bombas, vivemos uma guerra que se abateu sobre nós e cujas consequências são ainda imprevisíveis.

    A esperança está a morrer, a fome está aí, não há nevoeiro que a esconda.

    Resta-me acreditar que o nevoeiro é um acidente de percurso, que vai e vem, assim a natureza o queira!...

    (1) Giovanni Pascoli, Nella nebbia (in “Primi Poemetti”, Bologna, Zanichelli,1905), citado por Umberto Eco no romance “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”.

    (2) Fernando Pessoa, in “Nevoeiro”, último poema da “Mensagem”.

    Por: Fernanda Lage

     

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