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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 31-10-2012

    SECÇÃO: Editorial


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    Cortaram os ramos, só falta a árvore!…

    Era uma vez um país com muitas árvores, algumas estavam doentes, outras tinham sido invadidas por muitas ervas daninhas, muitas estavam fraquinhas, os ladrões sugavam-lhe a melhor seiva, algumas precisavam de uma boa poda, pois os ramos frondosos eram uma verdadeira ilusão e não deixavam os outros darem fruto.

    As podas são sempre muito ingratas, “quando não se sabe da poda”.

    Podar sim, mas por quem sabe.

    Sempre ouvi dizer que quando não se sabe podar o melhor é não mexer, a natureza encarregar-se-á de o fazer.

    De repente, e fora do tempo, eis que aterram nesse país um grupo de podadores que ao verem tantas árvores esfregaram as mãos de contentes:

    - Tanta árvore e tanta lenha! …

    E logo o mais esperto explicou:

    - Estas árvores precisam de uma grande poda, faz-se uma limpeza radical, abatem-se algumas, de preferência as mais fracas. Vamos fazer uma poda a sério, desta forma tornamos este país mais transitável, com espaço para o investimento estrangeiro, deixamos só as de grande porte, porque não temos meios para as podar, e como são fortes aguentam-se, mesmo cercadas de ladrões.

    Foto ANDERSON PORTO
    Foto ANDERSON PORTO
    Algumas árvores ficaram amarelas, as folhas começaram a cair fora do tempo, por causa da seca, e lá foram morrendo aos poucos.

    O grande ideólogo da teoria da poda vai mais longe e começa a fazer as contas:

    Terreno livre, bons acessos, e lenha..., lenha igual a euros..., e melhores frutos para a exportação!

    O povo deste país olhou estupefacto para a forma e os meios utilizados nesta poda, uns admiradores das novas tecnologias tentavam entender como seria possível inverter tudo em tão pouco tempo, outros mais simples, mas convictos dos saberes adquiridos ao longo dos anos interrogavam-se:

    - Não é possível, é fora de época, eles estão a cortar os ramos que dão fruto!

    Olha!

    - Deixam os ladrões…

    Cortaram, cortaram, umas porque eram fracas, outras porque incomodavam a passagem, e deixavam ainda outras por razões estéticas, para encobrir algumas asneiras que entretanto tinham feito.

    O entusiasmo por arrecadar lenha e mais lenha tornou os podadores cegos e cortaram todos os ramos que iriam dar fruto.

    O povo aguentou, aguentou, mas quando se apercebeu que não ia haver fruta e que estavam a dar cabo do seu país, das suas árvores, plantadas pelos seus pais e avós, revoltou-se e gritou:

    - Queremos as nossas árvores!

    Alguns podadores também repararam que as árvores já não tinham ramos nem folhas e interrogavam-se.

    - Será que elas vão rebentar?!

    Claro que sim, diziam alguns.

    Outros olhavam para as árvores transformadas em paus ao alto e começavam a imaginar que o melhor era deitá-las abaixo e exportar a madeira.

    Esta ideia foi muito aplaudida pelos modernaços, gente viajada, muito prendada e até licenciada, com muitos conhecimentos. Por acaso até têm uns amigos que vendem árvores de plástico, que se colocam em lugares certos, ao gosto do freguês, sem sujar as mãos na terra.

    Porque as mãos, essas têm de se manter aparentemente limpas, para assinar e transacionar capitais.

    Por: Fernanda Lage

     

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