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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 30-06-2012

    SECÇÃO: Opinião


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    O desporto e a crise

    Desde o início do mês de junho que os portugueses se contagiaram com o desempenho da sua Seleção de Futebol, vivendo intensamente os momentos tristes da derrota com a Alemanha, mas vibrando profunda e ruidosamente com as vitórias frente aos dinamarqueses e aos holandeses. Apurados para a fase de playoffs, o carinho pelos rapazes da bola aumentou desmesuradamente quando cometeram a proeza de vencer o jogo dos quartos de final com a República Checa, passando às meias finais para defrontar a equipa campeã do Mundo e da Europa. Os portugueses puderam alimentar a legítima ambição de novamente discutirem o título numa final europeia, sonho que durou mais de cento e vinte minutos, esfriando quando a sorte os abandonou, ao crucificá-los com um penalti de bola à trave que não entrou, premiando os nossos hermanos espanhóis com uma bola ao poste mas encaminhando-a para lá da linha de golo.

    Findo o sonho, jogadores, treinadores, selecionador e dirigentes regressaram ao solo pátrio mais cedo do que deveriam se a sorte os tivesse bafejado, averbando mais um fim inglório quando a sua participação no torneio, certinha e disciplinada qual aluno bem comportado, em todos fez despertar o fantasma que persegue os portugueses na política.

    Foto ARQUIVO
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    Apesar do final imerecido e inglório, a participação da Seleção Portuguesa teve o mérito de, durante quase um mês, proporcionar aos seus compatriotas poderem esquecer a política e as suas consequências. Com efeito, durante o mês dos santos populares, os portugueses puderam associar os folguedos “sanjoaninos” às alegrias futebolísticas e prestar a estas mais atenção que às declarações, decisões e proclamações dos políticos que amanhã se reúnem em Bruxelas para decidirem o que fazer com a crise europeia que, enquanto afetou apenas os países pequenos do sul, não preocupou a Senhora Merkel, que lhes tem vindo a impor receitas incomportáveis e irracionais, sob a ameaça de que o seu não acatamento os conduzirá à bancarrota. Diferente foi quando a Espanha teve de declarar encontrar-se em situação semelhante aos países sob resgate, obrigando a Chanceler alemã a moderar a sua obstinação, embora continue a declarar que determinadas medidas propostas pelos seus pares só poderão ver a luz do dia se passarem por cima do seu cadáver. Confiamos que se referisse a cadáver político e que este não demore a descer à tumba.

    Tal desabafo, por nós entendido como propaganda para acalmar o seu eleitorado, talvez venha a ser atenuado depois da reunião que ela própria sugeriu realizar antes do conclave do referido Conselho Europeu, tendo para ela convidado os representantes dos dezassete Estados da Zona Euro, sendo de admitir que nela a Senhora Merkel venha a impor aos seus colegas algumas medidas restritivas da soberania dos Estados, tais como um superministro das Finanças com poderes tutelares sobre Finanças e orçamentos nacionais, bem como reforçar os poderes do BCE para efeitos de controlo dos bancos centrais de cada país.

    A concretizar-se estas nossas conjeturas, certamente que assistiremos a um coro de ofendidos de que nos estão a roubar a soberania, com os políticos dos partidos do designado arco do governo a dizer qualquer coisa parecida com o seguinte: não haverá perda de soberania porque o Parlamento continuará a discutir e a aprovar os orçamentos nacionais como vem fazendo e os governos que assim o entenderem continuarão a proporcionar a algum ou alguns políticos exibir o título de ministro das Finanças e a evidenciar a jactância de ostentar na lapela do caso o “pin” da bandeira nacional.

    Naturalmente que em termos formais assim será, mas na substância, quem passará a ditar as regras do jogo será o tal superministro europeu, cuja designação é inimaginável que não requeira o “agreement” da Senhora Merkel. Aliás, quando lemos que o governador do Banco de Portugal faz depender os cortes nas pensões dos seus pensionistas de parecer solicitado ao BCE sobre se os referidos cortes, determinados no OE português, isso viola de alguma forma os princípios de independência do BdP, percebemos que a soberania desta instituição resume-se ao poder de intervir sobre algumas questões domésticas, sendo a sua proclamada independência limitada pelo verdadeiro poder do Banco Central Europeu. Julgávamos que só a venda de ouro precisava de autorização do BCE, mas sabe-se agora que questões de simples administração carecem da sua prévia e documentada autorização.

    Ao abordar esta questão na Assembleia da República durante a última sessão de perguntas e respostas com a presença do Governo, houve um deputado que se interrogava: passando a haver um ministro das Finanças e do Orçamento Europeu, o que estaremos aqui a fazer? Passaremos a ser um grupo de amigos que vimos para aqui conversar? Compreensivelmente não obteve resposta, mas perdeu-se uma excelente ocasião de recordar ao parlamentar que já agora é o que se passa naquela casa: debates e mais debates, comissões de inquérito para tudo e mais alguma coisa, sem que da sua existência e dos elevados custos de funcionamento algo resulte que contribua para a resolução da crise que afeta muitos milhões de portugueses que, dia após dia, em vez de ver luz ao fundo do túnel, são confrontados com aumento de impostos (o mais recente é a violência de aumento do IMI), redução de salários, custos de saúde e de educação mais elevados, desemprego subindo exponencialmente, défice longe da meta dos 4,5%, dívida pública em crescendo, venda do património nacional a preços que dizem ser de saldo, perfilando-se no horizonte mais sacrifícios, tudo sem que haja a garantia de que no fim do programa continuemos na zona euro e participantes da União Europeia com algum poder de intervenção na defesa dos legítimos interesses dos portugueses. Como vai longe o tempo em que Mário Soares afirmava que, entrados na UE, passávamos a ter os mesmos direitos que os demais! E como estaríamos bem melhores se a Europa não tivesse derrubado as barreiras alfandegárias, os governantes fossem menos irresponsáveis nos gastos com a coisa pública e tivessem resistido às pressões dos países do norte evitando o desmantelamento do tecido produtivo.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

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