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Edição de 31-05-2019
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    Arquivo: Edição de 15-04-2011

    SECÇÃO: Crónicas


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    Sociedade sem Norte

    A minha bússola, além de apontar o Norte, traz um precioso ensinamento: não dar um passo maior do que a perna. Muitos enamoram-se das próprias virtudes como Narciso se enamorou da própria imagem reflectida na água da fonte e intentam realizar as suas ilusões cavalgando um mítico Pégaso que não passará, finalmente, de esquálido Rocinante mas que lhes facilita o acesso aos meandros do poder e do dinheiro. Uns quantos caem do corcel mas há sempre mão amiga que os ajuda a retomar o percurso, entretanto ganharam conhecimentos e cultivaram influências porque, afinal, são cartas do mesmo naipe e, como diz o povo, “uma mão lava a outra”. Mesmo quando se enredam nas teias da lei, dispõem de um esquema de astutos causídicos prontos a utilizar um variado repertório de manobras dilatórias que reduzem à insignificância os casos mais cabeludos. Estes são os donos do momento e, se não logram impor-se pelas supostas virtudes, fazem-no por via da astúcia ao serviço duma ambição desmedida.

    Grandes pensadores investiram contra a inversão de valores que, ontem como hoje, vai corroendo a sociedade e destruindo a própria natureza, movimento este que ganha espaço, não obstante a ganância e o despudor dos que daí retiram grandes benefícios materiais. Entre nós já, no fim do século XIX, Eça de Queiroz e Fialho de Almeida, por exemplo, escalpelizaram comportamentos oportunistas e mentalidades malsãs em prejuízo duma população orientada para a justiça e a equidade. Em tempos mais recentes, outros vêm denunciando as chagas económicas, morais e sociais que se têm tornado mais purulentas à medida que o mundo avança. Felizmente, existem espíritos esclarecidos e de elevada craveira ética que vão alargando a frente de combate à ganância, à corrupção e à irresponsabilidade.

    A chamada globalização facilita o surgimento de formas cada vez mais atrevidas e sofisticadas de capitalismo selvagem que arruína pessoas e sociedades em benefício de poucos. As estatísticas provam que elevadíssima percentagem da riqueza produzida em todo o planeta está concentrada nas mãos de uma reduzidíssima minoria de indivíduos que, além do mais, dispõem de instrumentos de controlo da economia capazes de lhes garantirem uma acumulação cada vez maior e mais agressiva. Os sacrossantos mercados actuam impunemente, buscando ludibriar os órgãos oficiais de supervisão nem sempre atentos como é seu dever, e contando com estruturas de apoio que se erguem, diligentes, sempre que o faro lhes denuncia boas oportunidades de lucro para os insaciáveis especuladores, ainda que à custa dos mais débeis, sejam eles indivíduos ou países. Subitamente, aparecem uns vampiros, antes desconhecidos de quem não estivesse familiarizado com economia e finanças que, ao contrário das habituais manobras capitalistas, amantes das sombras e do recato, ostentam agora a fachada cínica de dráculas impiedosos. Atendem pelo anódino e pomposo epíteto de “agências de notação financeira” (rating), e ameaçam, covardemente, os países em dificuldades orçamentais com as suas peçonhentas cotações acerca do desempenho económico de países e de instituições de crédito. Essas agências, não por acaso todas norte-americanas, falharam, rotundamente, nas previsões da crise do subprime e mostram-se agora tão ousadas como os cãezinhos que ladram furiosamente quando apanhados em falso pelos seus donos, sobretudo tratando-se de países economicamente mais débeis.

    O fenómeno do subprime foi desencadeado em 2006, «a partir da quebra de instituições de crédito dos Estados Unidos que concediam empréstimos hipotecários de alto risco (subprime loan ou subprime mortgage), arrastando vários bancos para uma situação de insolvência e repercutindo fortemente sobre as bolsas de valores de todo o mundo». 1

    A questão tornou-se pública a partir de Fevereiro de 2007 como uma crise financeira no coração do sistema, porém as referidas agências, por incompetência, distracção ou conivência, deixaram-se ultrapassar, acordaram demasiado tarde e, tal como a lebre da fábula, correram, pressurosamente, “em busca do tempo perdido”. A incompetência revelada desagradou muito a sectores importantes do sistema que trataram de chamá-las à ordem. Aproveitaram a oportunidade para identificar alvos convenientes – economias menos robustas da zona euro – e atacá-las fortemente causando-lhes prejuízos talvez irreversíveis: desordem política, fome, desemprego e, no limite, comprometendo a viabilidade da União Europeia e da sua moeda.

    «Assim, criaram-se títulos negociáveis cujo lastro eram esses ‘créditos podres’. Foi a venda e compra, em enormes quantidades, desses títulos lastreados em hipotecas subprime o que provocou o alastramento da crise, de origem estadunidense para os principais bancos do mundo. Por uma razão que se desconhece (?), e que hoje, após o estouro, ainda deixa pasmos muitos analistas, tais papéis, lastreados em quase nada, obtiveram o aval das agências internacionais de classificação / …/ que deram a eles a sua chancela máxima – AAA – normalmente dada a títulos tão sólidos quanto os do Tesouro dos EUA – tornando-os muito mais confiáveis…Com essa benevolente classificação de risco, tanto os investidores como os fundos de investimento e os bancos passaram a disputar a aquisição desses títulos no mundo todo e esses títulos passaram a servir como garantia para a tomada de novos empréstimos bilionários, alavancados na base de 20 para 1. A partir do dia 18 de Julho de 2007, a crise do crédito hipotecário provocou uma crise de confiança geral no sistema financeiro e falta de liquidez bancária ou seja falta de dinheiro disponível para saque imediato dos correntistas dos bancos». 2

    As grandes economias como a dos Estados Unidos e as dos países emergentes como a China, a Índia, a Rússia e o Brasil, conhecidos pela sigla BRIC, parecem resistir aos graves problemas económico-financeiros resultantes da crise, embora com alguns constrangimentos mas, como sempre acontece, é para os países mais fracos que se volta a cabeça dos monstros financeiros. As agências de notação financeira são os porta-estandartes desses abutres insaciáveis.

    Recentemente, ouvimos o ex--presidente Mário Soares declarar: «O que são os mercados? São poucas pessoas que põem os políticos de joelhos». E são do Professor Boaventura de Sousa Santos, no n.º 944 da revista “Visão” as observações mais certeiras e contundentes: «…o capitalismo necessita de adversários credíveis que actuem como correctivos da sua tendência para a irracionalidade e para a autodestruição a qual lhe advém da pulsão para funcionalizar ou destruir tudo o que pode interpor--se no seu inexorável caminho para a acumulação infinita de riqueza por mais anti-sociais e injustas que sejam as consequências/…/ Durante o século XX esse correctivo foi a ameaça do comunismo… Nos últimos 30 anos, o FMI, o Banco Mundial, as agências de rating e a desregulação dos mercados financeiros têm sido as manifestações mais agressivas da pulsão irracional do capitalismo».

    Simultaneamente, tem-se agudizado, em Portugal, como noutros quadrantes, o fenómeno da corrupção à sombra de um sistema político-partidário permissivo quando não incentivador. São do conhecimento público escândalos como os do BPN e BPP, o caso Face Oculta e outros que rolam nos meios judiciais há alguns anos (Portucale, contrato de aquisição de submarinos e outros) sem que se vislumbre uma solução. Com toda a probabilidade, nenhum dos principais acusados nesses processos será condenado.

    Como é possível admitir que um país de tão grandes realizações tenha chegado a esta situação? O economista Vítor Bento numa entrevista concedida à revista “Visão” (nº 943) a propósito da sua obra mais recente “Economia, Moral e Política” adianta a seguinte explicação: «À medida que as religiões foram perdendo importância nas suas vidas, as sociedades deixaram de ter referenciais morais que provinham daquilo que era reconhecido como uma autoridade e tinha, por isso, um valor absoluto. Esses referenciais centravam-se em valores intangíveis. Quando essa autoridade é posta em causa, sem que outra referência a substitua, entra-se num processo de relativismo moral em que cada um define a sua própria escala de valores em função das suas conveniências. Da excessiva fluidez daí resultante, a valorização monetária emergiu como nova âncora valorativa das sociedades e condicionou muitos comportamentos, levando a exageros como os que temos testemunhado».

    Há muito tempo que altos responsáveis da Igreja Católica em Portugal vêm chamando a atenção para a “crise de valores” que se faz sentir na sociedade portuguesa. A rapidez da mudança social é cada vez maior e a Sociologia ensina que os aspectos não-materiais da cultura (valores morais e sociais) levam mais tempo a consolidar do que os aspectos materiais. Presentemente, é muito difícil definir o rumo do futuro.

    Por: Nuno Afonso

     

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