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    Arquivo: Edição de 15-04-2011

    SECÇÃO: Editorial


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    «Foi bonita a festa, pá»...

    Hoje, envolvidos com os problemas da crise financeira, é natural que a poesia de Abril nos passe um pouco à margem das nossas vidas.

    Hoje as pessoas estão descrentes e cansadas.

    Hoje já não existe a verdade.

    Hoje temos medo da verdade.

    Mas mesmo assim penso que devemos festejar Abril e lembrar os poetas, essas vozes que continuam a encher-nos a alma e a dar alento para continuar.

    Penso que, mesmo com todas as contradições e com todos os problemas financeiros actuais, é tempo de festejar o 25 de Abril e com ele a liberdade.

    «Esta é a madrugada que eu esperava

    O dia inicial inteiro e limpo

    Onde emergimos da noite e do silêncio

    E livres habitamos a substância do tempo». (1)

    Sair de um regime em que a liberdade era oprimida, onde nos sentíamos sós e isolados no mundo, é qualquer coisa de fundamental para cada um de nós e para o País. Festejar um Portugal democrático continua e continuará a fazer sentido.

    É a festa de um sonho.

    «Já murcharam tua festa, pá

    mas, certamente

    esqueceram uma semente nalgum canto do jardim». (2)

    Foi e será um sonho para muitos, mas mesmo assim Portugal é hoje um país muito diferente, temos um serviço nacional de saúde, acesso ao ensino para todos, liberdade para nos expressar e comunicar.

    Mas Abril é um sonho de uma festa

    Foi bonita a festa, pá…

    Hoje resta-nos a memória da luta e do prazer com que muitos portugueses sonharam um país novo, com mais igualdade, um país onde não tivéssemos medo de envelhecer, porque acreditávamos nos apoios sociais, onde não tivéssemos medo da fome porque tínhamos trabalho, onde as famílias viviam juntas sem terem de emigrar à força, onde era possível encontrar meios de subsistência sem termos de esmolar junto dos mais ricos.

    Mesmo assim vou lembrar Abril e com ele todos os poetas e artistas que cantaram, representaram, e escreveram este sonho e dessa forma o eternizaram para todo o sempre, e todos os criadores e investigadores que tornaram e tornam Portugal um país reconhecido internacionalmente.

    Uns ainda vivos na nossa companhia, outros que foram partindo mas continuam presentes nas nossas vidas.

    «Canta a Primavera, pá

    Cá estou carente

    Manda novamente algum cheirinho de alecrim». (2)

    Abril será sempre essa força que nos ajudará a vencer e a acreditar no sonho, porque o que era utopia para muitos tornou-se realidade e é essa crença que nos dará força para aguentar e ultrapassar mais este desafio.

    E porque Abril também é Zeca Afonso:

    «Não me obriguem a vir para a rua

    Gritar

    Que é já tempo d’embalar a trouxa

    E zarpar

    A gente ajuda, havemos de ser mais

    Eu bem sei

    Mas há quem queira, deitar abaixo

    O que eu levantei (…)». (3)

    (1) Sofhia de Mello Breyner Andesen, “O Nome das Coisas”

    (2) Chico Buarque, “Tanto Mar”

    (3) Zeca Afonso, “Venham Mais Cinco”

    Por: Fernanda Lage

     

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