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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 30-07-2010

    SECÇÃO: Editorial


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    A aprendizagem para além dos programas

    Para atingirmos uma sociedade mais igualitária é natural que o ensino se tenha tornado cada vez mais massificante e facilitista. Se calhar foi um percurso necessário para combater o analfabetismo mais primário, mas correram-se alguns riscos que poderiam ser evitados. A integração europeia, a abertura de fronteiras físicas e culturais deram um grande contributo para um maior conhecimento social e cultural, criando intercâmbios, facilitando o acesso dos nossos alunos e professores a outros sistemas de ensino e a outras culturas. No entanto a obrigação de cumprir estatísticas que nos aproximassem da Europa num curto espaço de tempo tem contribuído para que o nosso ensino se tenha contentado com programas de estudos que, na sua generalidade «têm progressivamente sido enfraquecidos no seu conteúdo». (1)

    De qualquer modo não podemos confundir a luta por uma escola mais humana, mais exigente, mais acompanhada, com propostas que ponham em causa o direito a uma escola pública de qualidade.

    Hoje fala-se em grandes agrupamentos de escolas, justificados por razões pedagógicas, pelo acesso a melhores equipamentos, que nalgumas situações serão verdadeiras mas de modo algum são a solução. A reciclagem de professores, o intercâmbio entre escolas poderiam corrigir esse défice sem a necessidade de deslocar diariamente todos os alunos de um lugar, das suas relações de vizinhança, da sua família e da sua terra.

    Precisamos em primeiro lugar de professores que, «(…) nomeadamente nas chamadas áreas científicas tenham uma formação de base cada vez mais exigente. Só deste modo poderão ministrar com segurança, a todos, conhecimentos científicos correctos e perceber os sinais dados por aqueles alunos mais interessados, motivando-os para abordagens de temas complementares» (1). Para se conseguir este diálogo que leve ao descobrimento de talentos em diferentes áreas os professores, para além da sua formação, precisam de tempo e espaço e isso só se consegue com turmas adequadas, cujo número de alunos seja compatível com o desempenho quer do professor quer da própria turma. A escola tem que despertar nos alunos o interesse pelo saber, para que cada um, segundo as suas apetências, procure por si, acompanhado na escola ou noutros locais, um complemento de saberes que são fundamentais para a vida.

    As novas tecnologias têm vindo a criar um certo fascínio compreensível e necessário mas não podemos deixar de exercitar a nossa mente a vários níveis. A dependência constante do auxílio da máquina de cálculo é um bom exemplo de preguiça mental, recordo o constante recurso à máquina de calcular ou ao computador para resolver pequenas contas ou raciocínios. Quantas vezes vi alunos recorrerem à máquina de calcular para resolver um problema de escalas 1/10 ou 1/100.

    A propósito lembro um professor de Arquitectura que, tendo reparado que um aluno trazia sempre os desenhos muito sujos de gordura procurou saber onde ele morava e quais eram as condições de trabalho que ele tinha em casa. Quando descobriu que o rapaz vivia num quarto com poucas condições e que, para desenhar, utilizava uma mesa de cozinha, resolveu mandar um estirador da escola para a pensão onde o aluno estava hospedado.

    Chegado o momento de avaliação os desenhos estavam limpos, mas tinham perdido qualidade. Então o professor resolveu mandar buscar o estirador porque os desenhos anteriores eram melhores e disse-lhe: «É melhor continuares a desenhar na cozinha porque o estirador tirou-te toda a expressividade!…».

    Sempre defendi bons equipamentos, novas tecnologias nas escolas, mas cuidado!, se não formarmos gente capaz de pensar, de saber e aplicar conhecimentos, com destreza intelectual e prática nas áreas do fazer, de nada nos servem as ferramentas de último grito.

    (1) João Paulo Carvalho Dias, “A Massificação do Ensino”.

    Por: Fernanda Lage

     

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