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Edição de 30-06-2020
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    Arquivo: Edição de 15-05-2010

    SECÇÃO: Editorial


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    À mesa...

    «Não nos sentamos à mesa simplesmente para comer, mas para comer com, e esta convivialidade constitui, no quadro de valores do mundo mediterrâneo de então, um factor que distinguia o homem civilizado do bárbaro». (1)

    Tenho andado às voltas com o livro de José Tolentino Mendonça “A Leitura Infinita – Bíblia e Interpretação” e felizmente encontrei a melhor das justificações para o prazer de partilhar uma boa refeição com os amigos. Para mim sempre foi muito clara a diferença entre prazer e gula, em tudo, não só no que se refere à gastronomia.

    Sempre entendi que a gula não respira prazer, é a ânsia de ter tudo, de comer tudo, de não saber partilhar, não dá tempo de ver se o copo do vizinho está vazio, se os alimentos chegam para todos, não se compadece com o prazer de oferecer a melhor parte a um amigo como oferta ou reconhecimento.

    Esta tradição milenar de celebrarmos à volta da mesa os acontecimentos mais significativos da vida, festejar com um brinde, é pretexto para usar da palavra, para nos tocarmos com cortesia e afecto.

    José Tolentino Mendonça descreve-nos muitos momentos simbólicos da refeição e lembra a determinada altura que «os banquetes gregos eram regulados por duas etapas: o deipnom (a refeição propriamente dita) e o pótos ou simpósio, um tempo posterior ao pasto, ocupado com o beber e conversar. Emergia o tema de diálogo comum, pelo qual todos os convivas se interessavam. Alinhavam-se argumentos e contra-argumentos que permitiam a cada um (ou alguém de destaque), no seu discurso e na disputa, manifestar a sua sabedoria». (2)

    Muitas das actuais tradições populares ainda integram este ritual das refeições, colectivas ou apenas familiares e em muitos casos associadas ao ciclo agrário: «(…) fossem as primeiras espigas recolhidas, as que dariam um pão, ainda muito elementar, cozido sem qualquer fermento de anteriores colheitas e que na sua essencialidade significava um momento primicial, uma espécie de recomeço para a vida. Pão ainda sem a plenitude do seu sabor, mas já sinal de um outro sabor». (2)

    Lembro ainda a quantidade de festas das colheitas que se celebram por todo o mundo, as ceifas, as vindimas...

    Assistimos nos últimos dias a grandes celebrações católicas a que me apetecia associar aos banquetes gregos a missa com a partilha do pão e do vinho, e o “simpósio”, o que se disse, o que ainda se diz e o que daí resulta…

    Católicos ou não, não se pode ficar indiferente “ao simpósio”, à mensagem, ao que ela representa nos nossos dias. O povo de Deus não é apenas aquele que leva a bandeira, que grita Viva o Papa! Foram momentos belos, mas muito centrados nos presentes. Onde estavam os nossos irmãos com fome, os escorraçados sem saberem porquê, os desprezados da sociedade, os que vão pagar a crise das aventuras dos ricos, os pobres despidos de bens físicos e intelectuais?

    (1) Cf. Plutarque, Propos de table, Belles Lettres 1972, Paris, citado por José Tolentino Mendonça.

    (2) Tolentino Mendonça, José, A Leitura Infinita – Bíblia e Interpretação, 2008, Assírio e Alvim.

    Por: Fernanda Lage

     

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