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Edição de 30-11-2020
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    Arquivo: Edição de 10-12-2009

    SECÇÃO: Crónicas


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    Livros e leituras

    Há um tempo para os diospiros, outro para as boas laranjas, ainda outro para as cerejas, mais um para amoras, morangos, pêssegos, melões e melancias e não falta a época da pera-rocha e das maçãs de variadas estirpes. Há horas para brincar e para falar sério, para erigir utopias e para concretizar projectos, para lutarmos pelos nossos direitos e para nos solidarizarmos com as dificuldades alheias, para os nossos sonhos e o respeito pelos outros. A cultura, no entanto, é de todos os tempos e de todas as horas.

    É bem verdade que o conceito é muito vasto e, quantas vezes, ambíguo. Pode significar soma de conhecimento detido por alguém ou o conjunto de valores, praxes, mitos, ritos e tradições característicos de uma comunidade. Ainda que compreendido em acepções diferentes, ambas as valências podem concentrar-se nas mesmas pessoas e nos mesmos grupos.

    Em sentido lato, a cultura obtém-se pelo estudo, pela observação e pela reflexão. Existe um espólio de conhecimentos que a humanidade foi adquirindo através de sucessivas gerações, cada uma acrescentando os seus contributos ao que lhe foi legado pelas que a precederam, num processo de enriquecimento constante e cada vez mais célere.

    Desde que o ser humano aprendeu a fixar, por meios que se foram alterando ao longo do tempo, os seus pensamentos, sentimentos, técnicas e criações artísticas, tornou-se mais fácil aumentar o espólio comum, e torná-lo acessível a todos. Este processo de fixação fez-se, inicialmente utilizando tabuinhas de argila, passou pelos rolos de papiro, precursores do livro (o mais antigo que se conhece data de 2440 anos A.C), e pelos rolos de pergaminho( processo de fabricação conhecido desde 500 anos A.C) até chegar ao codex (séc. I da nossa era), reunião de folhas de pergaminho em cadernos cozidos com linhas, até ao aparecimento do papel manuscrito e, a partir de 1450, do livro impresso. Desde então, este tem sido o maior veículo de transmissão cultural. O seu monopólio durou cerca de meio milénio. Na 2ª metade do séc. XX, o canadiano Herbert McLuhan proclamou, com veemência, o fim do livro e o início da Idade da Electrónica. A leitura, segundo aquele filósofo, era”um processo deveras cerebralizado pouco acessível aos mass-media”. No entanto, o livro continua a desempenhar a função que o justifica e não parece que a sua morte esteja iminente. Como pode ler-se na Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, «o livro continua a ser uma forma de fixação de textos, manuseável e de fácil consulta e obriga ainda a uma permanente reflexão que cria profundidade e possibilidade constante de comparação». Acresce que o manuseamento do livro é, só por si, uma vantagem pelo lisonja dos sentidos desde a visão, passando pelo olfacto, até ao tacto. O prazer de compulsar e de folhear um livro é inigualável e quem, alguma vez, teve essa experiência não quer mais prescindir dele.

    Hoje, talvez seja um acto banal a escrita de um livro e a sua publicação, a julgar pela quantidade de obras de autores nacionais e estrangeiros que inunda o mercado da edição em Portugal. Nas livrarias e nas grandes superfícies comerciais há milhares de volumes a exibirem-se, sedutores, ante os olhares de um número, infelizmente reduzido, de leitores. Se atentarmos em determinadas obras expostas num certo dia e as procurarmos uma semana mais tarde, provavelmente já terão sido retiradas para dar vez a outras. Com frequência, é tão efémera a sua disponibilização aos olhares dos interessados que os funcionários apressam-se a dizer que já não podem responder ao pedido, ainda que os tenham em stock no interior do estabelecimento.

    Lamentavelmente, existem neste país mais consumidores de material impresso do que verdadeiros leitores. Quem embebe o olhar fascinado sobre revistas de mexericos, atendendo mais à expressão icónica do que à verbal, coscuvilhando o que fazem e debitam as figuras mediáticas, sem nenhum critério de apreciação linguística, não pode considerar-se leitor; os que procuram num livro apenas o desfilar de personagens e o desenrolar atabalhoado de uma qualquer história contendo episódios curiosos, quantas vezes escabrosos, indiferentes à técnica da escrita, à correcção da linguagem e à beleza do estilo, será, mais do que tudo, um ledor, jamais um leitor; os que adquirem livros não para os lerem mas, apenas, para adornarem a sala e passarem por intelectuais aos olhos dos visitantes não têm outro mérito que o de reconhecerem o prestígio do objecto-livro, nunca do livro-amigo-e-mestre. Já ouvi a alguém dizer que a sua irmã gostava muito de ler mas, tanto quanto eu sei, não vai além das revistas da moda, talvez nunca tenha lido um livro a sério.

    Existe, claro, o reverso da medalha: o de quem escreve. A Língua Francesa reserva para o que, de facto, possui atributos compatíveis com o nobre exercício da escrita literária o termo écrivain; àquele que não possui dons que lhe concedam merecimento artístico e científico chamam écrivant. A paronímia engana muita gente. Actualmente, há uma proliferação de autores sem qualquer nível que entopem os escaparates das livrarias e quejandos. Quem se dê ao cuidado de passar os olhos por algumas páginas de certos livros verificará, sem dificuldade, o fraco nível de literacia dos respectivos autores. Estão enxameadas de erros ortográficos e, mais grave ainda, de severíssimas ofensas à morfologia e à sintaxe. Gosto de frequentar as livrarias, de passear a vista sobre as obras expostas, de ler as indicações na contracapa, de espreitar, aleatoriamente, o conteúdo. Tenho deparado, muitas vezes, com erros mais grosseiros e agressivos do que, porventura, o vírus da gripe A. De pronto, fecho o livro não vá ser contagiado e tornar-me agente disseminador da traiçoeira pandemia. Entrei, há pouco tempo, numa livraria em Centro Comercial recém-inaugurado. Por curiosidade, abri um “romance histórico” de famoso cozinheiro da nossa praça. Santo Deus! A abundância de incorrecções era tamanha que fiquei a pensar que, se o autor cozinhasse como escreve, já teria envenenado muita gente porque não bastariam os sais de frutos ou a Alka Seltzer para aliviar os males de estômago de incautos leitores do Mestre Cuca.

    É urgente que se olhe com respeito para a língua pátria e contenham seus ímpetos todos os que não tenham noção do ridículo.

    Por: Nuno Afonso

     

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