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Edição de 30-09-2020
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    Arquivo: Edição de 30-11-2009

    SECÇÃO: Crónicas


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    Morder a própria cauda

    O que Ricardo Araújo Pereira diz “à séria” numa das suas crónicas da “Visão” pensa a maioria dos portugueses a brincar: o nosso país esteve, está e, provavelmente, continuará a estar “na cauda da Europa”. Aceitamos esta realidade e, como única reacção, refocilamos nela, tão conformados como Job, na sua desgraça, a coçar as feridas do corpo com um dos cacos que restavam da sua anterior opulência; nós alisamos as rugas do nosso espírito, saudosos dum passado melhor que jamais tivemos. Job possuía a sua inquebrantável fé em Deus, nós invejamos a “sorte” dos outros. A fé redime e fortalece; a inveja envenena a criatividade, empece a energia, conduz à inanidade. Job foi largamente recompensado por Deus (não sabemos de que modo readquiriu filhos e fazendas, mas acredito que algo deve ter feito para lá chegar, porque Deus não ajuda madraços, a minha santa mãe, na sua delicadeza, dizia malandros em lugar de madraços); nós chafurdamos na acomodação, no desenrascanço, no queixume. Falece-nos a coragem, com frequência o heroísmo, dos nossos conterrâneos que vão para outras terras e ajudam-nas a prosperar do mesmo passo que eles mesmos prosperam.

    Enquanto assim pensarmos e agirmos, mui difícil será apartamo-nos da “apagada e vil tristeza” da nossa existência colectiva. O pior é que não temos nenhuma razão que justifique tal atitude a não ser um entorpecente complexo de inferioridade que resulta da hereditária insistência na variante económica que não ata nem desata desde há séculos. Esquecemo-nos de que há mais vida para além do “deve e haver” contabilístico que nos esmaga.

    Nas últimas décadas, temos andado à procura de países que tivessem ou tenham um nível de desenvolvimento inferior ao nosso. Convenceram-nos de que uma sociedade é tão mais respeitável e equilibrada quanto maior for o seu Produto Interno Bruto, o famigerado P.I.B.. Uma vez que pertencemos à União Europeia, um clube de ricos em que se contam países como a Alemanha, a França, a Inglaterra, a Itália, a Holanda, a Bélgica, a Dinamarca, o Luxemburgo, a Espanha, mas que, nos derradeiros anos, tem admitido uma quantidade enorme de nações que pertenciam à chamada Europa de Leste, voltámos os olhos para a Grécia, que também já deu cartas ao mundo, logo a seguir para os recém-chegados – afinal, há sempre alguém pior do que nós, como diz o povo, e sabermos que estamos à frente de alguém é já um consolo – e, quando os media informaram que a pátria de Péricles, de Aristóteles, de Platão e de uma plêiade de outros grandes vultos das Ciências, das Artes e da Literatura, já apresentava índices superiores ao nosso, entrámos em depressão, criticámos a inacção do governo, assumimos o estatuto de desgraçadinhos, o famoso discurso da tanga. Mais recentemente, atingimos a esquizofrenia ao dizerem-nos que quase todos os antigos “satélites de Moscovo” passaram à nossa frente sem nenhuma cerimónia.

    A União Europeia estabeleceu como norma que todos os seus membros devem manter o défice do P.I.B. abaixo dos 3% entre outras exigências. Desta forma, os nossos governos têm-se esforçado por respeitar esse limite, o que se vem revelando muito difícil. Infelizmente, outros indicadores da pujança económica deste rincão, revelam-se igualmente desastrosos: o aumento do desemprego, o crescimento da dívida externa, a diminuição das exportações e, sobretudo, a desigualdade entre ricos e pobres, cada vez mais acentuada. Aquilo a que, sem muita exactidão, se costuma chamar classe média está, de há uns anos a esta parte, a sofrer uma redução preocupante.

    Será a nossa gente menos dotada que as de outros países? Já sabemos que não. Nenhum sociólogo ou antropólogo sério apoiará seus estudos na superioridade da inteligência e da capacidade criadora de uns povos relativamente a outros. Algumas teorias espúrias foram apresentadas para alimentar os sonhos megalómanos de certos ditadores, de que ainda sentimos o fétido cheiro, e conduziu ao extermínio de milhões de pessoas sem que daí resultasse qualquer benefício para a ciência e a evolução da Humanidade.

    A beleza contrastante do nosso país é, internacionalmente reconhecida. Impressiona que um território exíguo apresente quadros naturais tão belos e tão diversos. Simultaneamente, apresenta uma variedade e riqueza culinária incomparáveis e valores culturais difíceis de encontrar noutra parte do mundo. A tanto não será alheio o facto de Portugal se afirmar como a nação mais antiga da Europa que se manteve como um bloco coeso no interior das suas fronteiras, não obstante o breve período da dominação filipina, descobriu novos mundos e edificou um império imensamente maior que o tamanho do seu próprio corpo que soube defender heroicamente, mesmo nos períodos de maior fragilidade, ante a cobiça dos grandes reinos do Velho Continente.

    É preciso que os portugueses compreendam que mais importante do que a força é a inteligência, a capacidade criativa e a habilidade inata de saber contornar as grandes dificuldades que, a cada momento, revelámos no decorrer dos séculos. Aqui nasceram e viveram homens que influenciaram positiva e decisivamente a evolução da Humanidade, dirigentes de alta estirpe como alguns dos nossos reis e infantes: D. Afonso Henriques, D. Dinis, D.João II, o Infante de Sagres, homens de ciência como Pedro Nunes, Garcia da Orta, professor Egas Moniz vencedor do Prémio Nobel da Medicina, António Damásio que contrariou o grande Descartes, João Magueijo que pôs em questão a teoria de Einstein sobre a velocidade da luz, escritores e poetas que são objecto de estudo e formação para gente de todo o mundo como Camões, Fernando Pessoa, Cesário Verde, José Saramago galardoado com o Nobel de Literatura em 1998, António Lobo Antunes e uma nova geração que já frequenta os grandes areópagos internacionais. Temos portugueses a leccionar nas mais prestigiadas universidades mundiais, médicos interna e externamente famosos e premiados pelo seu trabalho em equipas pioneiras, jovens que se distinguem nas mais variadas áreas do conhecimento e da actividade humana.

    Não são os outros que nos subvalorizam, essa atitude é da nossa inteira responsabilidade. A nós compete assumi-la e valorizá-la. Não mordamos a própria cauda.

    Por: Nuno Afonso

     

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