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Edição de 31-03-2020
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    Arquivo: Edição de 15-05-2009

    SECÇÃO: Crónicas


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    O valor da pontualidade

    O céu mostrava indícios de arrependimento por ter despejado água noite afora. As nuvens continuavam lá, algumas bastante negras, prenhes de chuva peneirada por medida larga, em contraste com outras de tonalidade mais clara e convidativa para os viandantes. Apesar do frio, a recordar tradicionais meses de Inverno, as nuvens aparentavam, pela quase imobilidade e os fortes contrastes claro/escuro, as que vemos representadas em algumas telas de Caravaggio.

    Quem, inadvertidamente, arriscasse caminhar pelas ruas da cidade sem protecção, tinha de procurar abrigo, nos alçados de edifícios até que as nuvens mais negras ficassem à distância, para poder retomar a marcha. Todavia, a ideia de que elas não se deslocavam era mera ilusão óptica: quando, alargando a passada, se julgava tê-las vencido e que, a seguir, viria um espaço mais bonançoso, lá estavam elas, de cenho carregado, advertindo que não ousassem desafiá-las, melhor faria o caminhante em suspender seu intento antes de arriscar forte constipação.

    Optei pela retirada estratégica e, recolhido, aguardei melhor oportunidade para retomar a caminhada diária. Lembrei-me de que já não tinha um rígido horário a cumprir o que me reconfortou. Com frequência, mergulhado nos meus pensamentos, sobressalto-me com as demoras mas, no mesmo instante, fico mais tranquilo: as tarefas que subsistem posso remetê-las para outro momento e voltar a minha atenção para aquilo de que gosto, sem desgaste psicológico.

    É difícil encontrar quem não pense que um dia encontrará a tranquilidade necessária para fazer o que lhe der na gana sem pensar em compromissos e horários, aquele toque irritante do despertador a interromper, bruscamente, o ilusório sono da manhã, a campainha esganiçada ou o besouro metido a gente chamando para o início do trabalho, o esforço para apanhar o autocarro que passa a determinada hora e nos permite chegar a tempo, a rotina diária com os mesmos sons autoritários de deixa, recomeça, larga que amanhã tens mais do mesmo, fins-de-semana que acenam com programas lisonjeiros e que, mal nos damos conta, já “deram às de vila diogo”, como a onda que refresca a areia da praia e logo retorna ao mar. É verdade que há muito foi generalizado aos trabalhadores o direito a férias anuais pagas, bem como ao subsídio de Natal. Todavia nem todos podem dispor desse dinheiro que já tem muito para onde ir, a época que atravessamos é tão conturbada que até a expressão “tempo de vacas magras” deixou de ser referência por falta de correspondência à realidade actual.

    O homem moderno tem alguma dificuldade em adaptar-se ao ritmo que a vida lhe exige, salvo excepções bastante raras. Quem se habituou a ser pontual, supera mais facilmente essa exigência, sabe dosear o tempo de modo a estabelecer uma conexão adequada entre as diversas obrigações quotidianas: tempo de repouso, hora de levantar, de se preparar e de tomar o pequeno almoço, de ajudar o cônjuge quanto aos filhos, de dirigir-se ao penúltimo transporte – o último é sempre arriscado – que o conduzirá ao local de trabalho. Superadas estas etapas, é provável que tudo o mais se torne fácil.

    O PORTUGUÊS É REFRACTÁRIO

    À PONTUALIDADE

    Infelizmente, o português é, por norma, refractário à pontualidade. Considera aceitável e mesmo natural chegar atrasado aos compromissos previamente estabelecidos, sejam obrigatórios como o emprego ou uma entrevista de responsabilidade, sejam interpessoais em que a sanção pelo incumprimento não exista. Neste último caso, é frequente chegar com meia hora de atraso, talvez até um pouco mais ou de todo não comparecer. Com certa frequência, chega-se ao cúmulo de marcar uma reunião para as nove e meia, contando que ela comece às dez, porque todos já sabem como as coisas funcionam entre nós. Resulta daí que as pessoas responsáveis são penalizadas se não quiserem transigir com a balbúrdia instalada. Quem precisa de um trolha, de um picheleiro ou de um electricista e este lhe promete estar em sua casa nos próximos dias, será obrigado a contactá-lo uma, duas, três ou mais vezes para, quando ao artista der jeito, finalmente responder ao compromisso verbal que assumiu.

    A falta de pontualidade é ainda mais grave no meio empresarial. “Tempo é dinheiro” defendem os ingleses, considerados os que mais respeitam os horários, e… “com o dinheiro não se brinca” é lugar-comum de todos conhecido. As relações económico-financeiras verticais e transversais no mundo dos negócios só podem funcionar saudavelmente se forem respeitados os prazos e condições acordados. O fabricante de um produto estabelece com cada cliente prazos de entrega da mercadoria e acordam o pagamento a noventa dias. Estes, por seu turno, estabelecem com o seu banco o financiamento para essa data. As empresas que adquiriram tais produtos comprometem-se com outras firmas e com a respectiva entidade bancária, obedecendo ao mesmo prazo de entrega e de pagamento. Alguns negócios desenvolvem-se em cadeia de tal sorte que uma falha, ocorrida em qualquer dos seus elos, vai causar perturbação em todo o esquema, quantas vezes originando cancelamentos dos quais decorrem prejuízos desnecessários. Se o mercado funcionar segundo as normas correctas, em países com outra mentalidade o processo decorre com a precisão de um relógio suíço, ao invés do que sucede entre nós onde a falta de respeito pelos prazos de entrega e de pagamento são correntes, independentemente de crises que possam ocorrer. Donos de pequenas empresas, que necessitem de peças para satisfazer os seus clientes, afirmam ser mais eficaz e mais rápido o envio, quando o pedido é feito directamente à empresa multinacional que as fabrica, em qualquer país da Europa ou da Ásia, do que se for dirigido à sua delegação central no nosso país.

    Para muitos estudiosos a falta de inclinação dos povos latinos para cultivarem a pontualidade associada ao método é apontada como responsável pelo seu menor desenvolvimento em relação a outras famílias europeias como os anglo-saxónicos e os escandinavos no decurso dos últimos séculos. Chegam a pretender comparar o tipo de colonização realizada por portugueses e espanhóis com o dos ingleses e holandeses seguindo o mesmo critério. Embora discordando, reconheço que eles são mais organizados e eficientes no que respeita ao cumprimento atempado das suas obrigações e que bem faríamos nós em seguir-lhes o exemplo.

    Por: Nuno Afonso

     

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