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Edição de 31-03-2020
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    Arquivo: Edição de 15-05-2009

    SECÇÃO: Editorial


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    Para além da crise económica vivemos uma crise de identidade

    Muitos dos problemas e contradições do nosso tempo passam pelo desenraizamento das populações, que por razões económicas e culturais, se deslocaram dos seus países de origem ou do meio onde nasceram. Não é preciso fazer um grande esforço de memória, muitos de nós temos ainda presente o que se passou em Portugal nos últimos cinquenta anos, quer pela sua vivência, quer pelo relato dos que nos são mais próximos.

    Se pensarmos que quase metade (48%) da população activa nos anos cinquenta se concentrava na actividade agrícola, e se acompanharmos a sua evolução ao longo dos anos – 42% nos anos 60, 32% nos anos 70 e apenas 5% em 2001 (1), e ainda que nos últimos anos ela tem diminuído, podemos afirmar que Portugal, salvo raras excepções, abandonou por completo o mundo rural.

    Porém, não se tratou apenas de uma mudança de trabalho, de conhecimento, mas correspondeu também a uma mudança de enraizamento, à falta de ligações familiares, a novas formas de vida, de pensamento, que em muitos casos levou ao isolamento ou à negação, ao esconder das suas origens. As chamadas segundas e terceiras gerações de jovens destas populações deslocadas adquiriram formas de viver que, em muitos casos, são profundas roturas, cheias de incompreensões de parte a parte. Se a tudo isto juntarmos o papel dos meios de comunicação social, a escola pública obrigatória, o convívio com outras culturas, nomeadamente através da música, do cinema, da televisão, o contacto com uma sociedade consumista e hedonística, incompatíveis com o tempo e o espaço das famílias deslocadas para as cidades, se a tudo isto acrescentarmos uma guerra colonial, a queda de um regime autoritário, a integração de meio milhão de retornados, compreendemos o crescimento desregrado das cidades, a necessidade de construção de bairros de rendas económicas cujo crescimento nada tem a ver com o aumento de nascimentos, antes pelo contrário – a taxa de natalidade diminuiu mas a esperança de vida aumentou, o que determinou, nos nossos dias, um envelhecimento crescente das populações.

    Esta mudança de paradigma, de uma sociedade rural para uma sociedade urbana e, nos últimos anos, cada vez mais cosmopolita e mais plural, criou e tem acentuado nos últimos tempos alguns conflitos geracionais, culturais e étnicos que começam a despoletar com o agravar da crise económica e da falta de valores sentida por estas gerações que cresceram em guetos, cultivando a violência como forma de defesa e ataque, rejeitando valores e princípios que não conhecem ou combatem, caminhando sem objectivos, sem responsabilidades, renegando a família, a escola, arriscando tudo sem limites.

    Muitos destes jovens não perceberam que ao questionarem valores que consideravam desarticulados das novas realidades, tinham que contrapor outros valores e não cair na indiferença que nada criou de positivo. Alguém dizia: «Estamos mais velhos e mais cansados». A indiferença, o individualismo, levou ao enfraquecimento do sentido de responsabilidade de cada um de nós, criando e desenvolvendo o sentido de habituação perante a pobreza, as guerras, a violência, situações que passaram a ser normais e com as quais nos habituamos a lidar.

    Deixámos os campos, mas não ficámos mais urbanos por isso, poucos souberam aproveitar essas mudanças e, sob o ponto de vista económico, ficámos mais dependentes.

    Perdemos saberes, que poderiam ser explorados com inovação e criatividade, acreditámos demasiado no progresso e na possibilidade de tudo ser resolvido por outros, é altura de pensar que somos nós todos em conjunto que temos que mudar o mundo e não ficar à espera que alguém o faça por nós.

    (1) “Um Olhar sobre a Pobreza”, Alfredo Bruto da Costa (coord.) e vários, ed. Gradiva, 2008.

    Por: Fernanda Lage

     

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