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    Arquivo: Edição de 30-04-2009

    SECÇÃO: Opinião


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    A crise financeira

    Mesmo que se trate de uma crise que só ocorre uma vez na vida, a verdade é que ela mantém o mundo em polvorosa com as bolsas a não reagirem às preocupantes quebras, não havendo “papel” que tenha escapado à degradação. Os políticos como é seu apanágio, julgaram que o simples anúncio dos governos acorrerem com injecções de capital ou com simples “cartas” de conforto de dezenas de milhares de milhões de euros teriam sustido a evolução da crise, não faltando quem logo tivesse aparecido a declarar que as coisas tinham voltado à normalidade graças ao entendimento havido a nível da UE e EUA. Não foi preciso esperar muito para ver novos afundamentos das bolsas e o ex-presidente da Reserva Federal (Alan Greenspan) a admitir que errou ao acreditar na auto-regulação do sistema financeiro. Endeusaram Friedman e renegaram Keynes, agora é tarde demais e a Inês é morta. Alguma coisa se aproveitará, contudo, se deixarmos de aceitar como axiomas as declarações dos “gurus” da economia e da finança, sujeitando as suas verdades ao crivo analítico de correntes de pensamento diversificadas.

    Não haveria dramatismo se as consequências afectassem, unicamente, os autores das estratégias adoptadas e os beneficiários de operações de alto risco, de contas forjadas, de supervisões acomodadas ou incompetentes e de auditores pagos principescamente para omitirem reservas nos seus relatórios. Mas, infelizmente, estes são os menos prejudicados em resultado das suas condutas. Verdadeiramente fustigados são os pequenos investidores, os contribuintes e os trabalhadores que vêem o desemprego a galopar desenfreadamente. Face a este negro quadro o que nos esperará? Infelizmente não será coisa boa. Economias em recessão e taxas de desemprego de dois dígitos espreitam.

    A frustração do Governo português é perceptível ao ter de lidar com algo que não esperava que lhe batesse à porta. Como já se ouviu, a estratégia governamental e do partido que suporta o governo passava por apertar o cinto nos três primeiros anos da legislatura, para no último abrir os cordões à bolsa com o demagógico argumento de que o sacrifício valera a pena. Já assim fora na década de 80, no tempo do governo presidido por Mário Soares, que não pôde colher os frutos da sua política demasiado austera, em virtude da decisão de Ramalho Eanes que provocou eleições antecipadas, proporcionando a Cavaco Silva contabilizar a seu favor as contrapartidas da asfixia que se viveu nessa época.

    Compreensivelmente assustado com o risco de um “subprime” à portuguesa, o Governo avançou com uma iniciativa que apelidou de solução para os milhares de portugueses que enfrentam o drama de não terem recursos para honrar os compromissos advindos da aquisição de casa, mas as hipóteses de sucesso parecem-nos muito ténues, sendo nossa convicção que as pessoas que recorrerem ao anunciado fundo imobiliário acabarão por, definitivamente, passarem de proprietários a inquilinos.

    Naturalmente que a solução para os problemas que afectam dramaticamente muitas das famílias não será facilmente encontrada, principalmente se insistirmos no paradigma de baixos salários e de precariedade no emprego, políticas que, não obstante praticadas há décadas, não contribuíram para o desenvolvimento do país, não tornaram Portugal mais produtivo e competitivo, antes provocaram o alargamento do fosso entre os muito pobres e os muito ricos, evidência que estudos internacionais recorrentemente demonstram, como mais uma vez, um recente relatório da OCDE, lembra ser Portugal o terceiro país mais desigual do Ocidente.

    Acossado com os sinais de risco de graves convulsões sociais, o Governo anuncia, também, medidas baptizadas de visarem ajudar a economia, as famílias e as empresas. Infelizmente, em nosso entender, são muitas as iniciativas mas poucos serão os resultados. Tratar graves infecções com analgésicos nunca deu bom resultado, nem contribuiu para a cura do doente.

    Com efeito, a falta de resultados das políticas seguidas e a gravidade da situação provocada pela crise financeira, que inevitavelmente se transformou em crise económica, deveria levar os detentores do poder a repensarem as políticas e a seguir linhas de actuação diametralmente opostas, numa tentativa de alcançar resultados adequados ao combate dos problemas que afectam empresas e famílias, sendo o desemprego o maior de todos eles.

    As empresas lutam com dificuldades de tesouraria. As famílias desesperam com os magros rendimentos que obtêm do seu trabalho. Os senhorios vêem o seu património a degradar-se, sabendo que se investirem na sua recuperação, não encontrarão mercado onde possam praticar rendas correspondentes aos capitais dispendidos. Os devedores à banca por empréstimos para aquisição de casa não conseguem suportar os respectivos custos. Os transportes públicos têm de ser fortemente subsidiados pela incapacidade dos utentes pagarem o custo efectivo do serviço. E, face a este quadro de dificuldades o que é que o governo anuncia? “Migalhas” em abonos de família, aumentos salariais para a função pública que, perversamente, se revelarão adequados face à temível perspectiva de deflação, redução de IRC para algumas empresas, mas com efeitos só lá para 2010 e umas pequenas “benesses” em sede de IRS. São medidas que consideramos de “aspirinas” quando o doente precisa de delicada intervenção cirúrgica ou de toma de antibióticos em dose de “cavalo”.

    Se realmente as contas públicas estivessem sob controlo e o governo quisesse enfrentar a “crise” com medidas de efeito adequado e rápido, não precisaria de “queimar” as pestanas para encontrar as soluções, bastaria saldar imediatamente as dívidas do Estado e das autarquias e dar início a uma política de aumento de salários que em três ou quatro anos colocasse as remunerações dos portugueses ao nível da média dos restantes trabalhadores europeus. E, uma vez lá chegados, sujeitar o mercado de arrendamento à lei da oferta e da procura, reduzir drasticamente os subsídios às operadoras de transportes públicos, introduzir o pagamento de portagens em todas as auto-estradas (com taxas mais reduzidas, naturalmente), numa palavra, eliminar a política do subsídio.

    Parece que já estou a ouvir alguns dos leitores de “A Voz de Ermesinde” a classificar a proposta de fantasiosa ou demagógica. Se assim acontecer, recomendo que reflictam o que ganhamos com a política de salários baixos, com défices orçamentais reduzidos e com dívidas astronómicas a fornecedores e a prestadores de serviços às entidades públicas. Será prudente e revelador de sanidade sufragar as políticas seguidas e reeleger os protagonistas que as têm implementado? Mudar é sempre motivo de esperança.

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

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