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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 30-04-2009

    SECÇÃO: Crónicas


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    Tradições de antanho

    O novo pároco chegou à aldeia e o João Grilo apressou-se a sair-lhe ao caminho a cumprimentá-lo. Não o convidou para sua casa, como costumava fazer a todos quantos ali chegavam, porque sabia que o sacerdote devia abster-se de comer ou de beber antes da celebração da Missa.

    Já trazia na mão a chave da igreja e apressou-se a tocar o sino para avisar os fiéis. Era um toque corrido de umas quantas badaladas. Dali a pouco, faria o primeiro de três chamamentos, ritmado e alegre, utilizando a sineta de tom mais agudo e o sino grande, que emitia sons graves, a fazer o acompanhamento. A cerimónia litúrgica era, pois, anunciada nesses três momentos, porque muitas pessoas andavam pelo campo a apascentar a cria, outras a regar lameiros e hortas, quem tinha filhos pequenos havia que lhes dar banho e vesti-los de lavado, era preciso mediar algum tempo para que pudessem regressar e aprontar-se antes de começar o acto religioso.

    O sacerdote ajoelhou-se diante do sacrário e fez as suas orações. Minutos depois entrou na sacristia seguido do João Grilo que desempenhava funções de sacristão. Enquanto abria o gavetão e retirava os paramentos, os dois entretiveram uma conversa despretensiosa sobre o quotidiano das gentes da terra. O senhor padre interessou-se pela saúde do seu interlocutor, perguntou-lhe pelos filhos, se viviam com ele e o que faziam. Houve tempo ainda para inteirar-se de assuntos da igreja como festas tradicionais, dificuldades sentidas no culto e iniciativas já tomadas para as ultrapassar, quem eram os mordomos disto ou daquilo e outros temas, necessariamente abordados pela rama. Ao terceiro toque dos sinos, o sacerdote vestiu a casula, preparou o cálice e dispunha-se a subir ao altar. Foi então que o João Grilo lhe apresentou um açafate cheio de pequenos cubos de trigo para serem benzidos. Surpreendido, o padre quis saber a que se destinava aquele pão. O João Grilo atrapalhou-se com o inesperado da pergunta, gaguejou que chamavam àquilo “bolo bento” e era distribuído aos paroquianos, cada um retirava o seu bocadinho que guardava e comia à saída da Missa. O celebrante reflectiu por instantes, fez com a mão direita o sinal da cruz sobre o conteúdo do açafate, murmurou uma breve oração e entregou-lho:

    – Esta é a primeira vez que tomo conhecimento de um costume tão estranho e não quero que se repita. Hoje, está autorizado a distribuir esse pão, mas não volte a trazer-mo. Lembra-me certos hábitos do Jansenismo, condenados pela Igreja Católica.

    O João Grilo ficou banzado e, durante a Missa, não parou de pensar o que seria esse tal jansenismo, com certeza era alguma bruxaria, os padres não acreditavam em bruxas, diziam que um bom católico não se mete nessas práticas perigosas para a salvação da alma, às tantas andavam todos a pecar sem o saberem e, da maneira como o padre falou, havia de ser um pecado bem grande, como um veneno mortal, que arrasta as almas para o Inferno, se calhar devia ser mau até para a saúde, quem sabe se muitos dos que morreram e ninguém sabia o motivo era mesmo por causa do bolo bento.

    À saída da igreja, foi dizendo a uns e a outros que, por causa dum tal jansenismo, não haveria dali em diante distribuição de bolo bento, o senhor padre tinha dito que era um veneno perigoso que podia até matar. Alguns riam-se de tamanha ingenuidade como se um niquinho de molete fosse capaz de causar tanto mal, então um molete inteiro seria morte certa e fulminante, eles já tinham comido tantos com presunto ou salpicão, uma delícia e com um copo de boa pinga… e nada tinha acontecido, outros entendiam que o padre não devia ter os cinco bem aferidos para dizer barbaridades dessas e uns tantos queriam saber onde podiam encontrar o tal jansenismo para lhe dizer duas ou três bem ditas. Mas, ao fim de quinze dias, já ninguém se ocupava do assunto, tinham problemas mais sérios a resolver. Que se lhes dava um cibito de pão a mais ou a menos se não enganava a fome de ninguém? Quando outro pároco viesse substituir aquele, o costume seria retomado. Assim aconteceu, de facto e ainda perdura, tenha sido ou não introduzida pelos crentes do cisma Jansenista.

    Se tal tradição era negligenciável, o mesmo não acontecia com o nutrido carolo de centeio negro que um antigo morador, cuja identidade estava para além da memória dos vivos, oferecia a todos os que dele precisassem, em certo domingo de cada ano. Não deixara o seu desejo vertido em documento escrito, mas ele passara de uma para outra geração, ninguém sabe desde quando, e perpetuava, deste modo, a solidariedade da criatura em relação aos mais pobres da sua terra. Procedia, certamente, duma época em que a fome grassava naquela região, talvez ele próprio “tivesse comido o pão que o diabo amassou” e quis que, ao menos um dia, nenhum estômago gemesse por falta de alimento. Tivera um chão na Veiga de Piteirões e o que ele rendesse havia de ser destinado a essa obra de solidariedade. No Domingo de Ramos, terminada a Missa, alguns moradores traziam para a saída da igreja cestos com o pão já cortado que iam entregando a quem lhes estendesse a mão. Chamavam-lhe o “pão do morto” e a terra, cujo rendimento possibilitava a dádiva, era também conhecida como o “chão do morto”.

    E porque de morte falamos, existia um hábito incomum que consistia em distribuir, pelos que vinham de fora para assistir ao serviço fúnebre, uma moeda de valor diferenciado consoante as posses económicas do defunto: os familiares de quem pouco tivera em vida, pouco podiam disponibilizar no momento em que os amigos homenageavam o morto e o valor facial da moeda ia aumentando de acordo com o estatuto de quem partia desta vida e os bens que entre si partiam os herdeiros. Ninguém sabia a que se destinava esse donativo. Havia os que guardavam esse dinheiro e os que o lançavam sobre um pano negro, colocado atrás da essa, para que o sacerdote que presidia às cerimónias rezasse um responso (Pai-Nosso, Ave-Maria e jaculatória a pedir o eterno descanso daquela alma junto de Deus) acompanhado de um aspergir de água benta sobre o morto. Outra hipótese seria a intenção das pessoas enlutadas em concederem aos forasteiros ajuda para que comessem e bebessem alguma coisa, pois a cerimónia era longa e penosa a deslocação de e para as suas terras de origem. Em tempos mais recuados, distribuía-se pão e vinho a todos os presentes, uma vez terminado o serviço litúrgico, com o incómodo que facilmente se imagina. O dinheiro simplificava as coisas. O Concílio Vaticano II, ao determinar a substituição do Latim pelas línguas vernáculas, pusera fim aos ofícios celebrados na sequência da Missa, o que abreviava bastante o tempo de permanência na igreja, consequentemente levara à supressão do encargo.

    As comunidades eram pequenas, os recursos, com frequência, muito escassos, não se falava de solidariedade, mas ela estava presente em todos os momentos da vida em comum, alheia a conceitos e interpretações que, de todo em todo, ignorava.

    Por: Nuno Afonso

     

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