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    Arquivo: Edição de 30-04-2009

    SECÇÃO: Editorial


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    A paz, o pão…

    A luta pela vida passa ainda nos nossos dias pela luta pelo pão.

    Neste período em que se festejou o 25 de Abril voltou a ouvir-se com alguma frequência Sérgio Godinho e dei comigo a pensar sobre a importância da liberdade, da paz e da falta do pão com que alguns países ainda se debatem. Reli a magnífica obra de Heinrich Eduard Jacob sobre 6 000 anos de pão e como ele relata a história do pão e as lutas ao longo dos anos desenvolvidas por diferentes povos em torno do pão desde a Pré-História ao colapso do III Reich, passando pelo Egipto, pela Grécia, pelo Império Romano, pela Idade Média, pela guerra dos camponeses na colonização do continente americano, pela Revolução Francesa, pela Revolução Industrial, pela Revolução Soviética, pelas duas Guerras Mundiais, a que nós podemos acrescentar todas as guerras até aos nossos dias. Directa ou indirectamente é sempre uma luta em torno do pão, «em que o pão esteve envolvido como “personagem” viva da História, “argamassa da vida” e “medula dos mortais”». (1)

    A fermentação foi o grande segredo descoberto pelos Egípcios. O primeiro pão fermentado terá sido descoberto por acaso. Moeda de troca, ao longo dos tempos, já pagavam com pão salários no antigo Egipto. «Nenhum outro produto, antes ou depois da sua descoberta, dominou o mundo antigo , material e espiritualmente, como o pão foi capaz de fazer».

    A própria vida administrativa dos Egípcios foi organizada em torno da produção do pão. Também os Judeus transformaram o pão como ponto de partida para a sua legislação religiosa e social. Os gregos foram férteis na criação de lendas que justificavam a sua religião e a sua ligação ao pão e à terra, através de Elêusis. Os Romanos fizeram do pão um instrumento da sua política de expansionismo e domínio dos povos e é ainda por causa do pão que perderam o Império. «Até que um dia um homem surgiu que unificou tudo o que sobre o pão havia sido pensado, tudo o que por causa deste tinha sentido e feito. E esse homem, Jesus Cristo, disse “Tomai e comei! Eu sou o pão”». (1)

    A Idade Média vai desenvolver-se em torno da terra e do que podiam ou não produzir. São muitas as lendas que nos falam de sacrilégios cometidos contra o pão.

    Como a filha de um padeiro que se recusou a dar pão ao Salvador e acabou transformada em coruja. E num período de fome e de pestes vai mais uma vez o pão e a sua falta ter um papel de relevo que leva à revolta dos camponeses.

    Na própria Revolução Francesa o pão foi uma personagem importante nos acontecimentos como a tomada da Bastilha ou em Versalhes. O que procuravam os camponeses? Cereais e farinha. Napoleão vai concentrar toda a sua atenção em torno da capacidade de desenvolvimento da indústria, desprezando o papel da agricultura, acreditando cegamente no papel da inovação industrial, e esse erro vai contribuir para que o pão tenha tido uma grande importância na sua queda. Muitas vezes a História repete-se… – e ela ensina-nos que nunca foi muito boa política desprezar a agricultura.

    O primeiro motivo de domínio dos Americanos no mundo passou pelo império do trigo, o próprio gosto se alterou neste tempo, o pão branco impôs-se ou seja, o trigo conquistou um lugar de destaque sobre o milho e o centeio.

    Não podemos deixar de referir o papel do pão durante as duas Grandes Guerras e a forma como os diferentes países jogaram com essa arma.

    Hoje o papel do pão continua presente e a falta ou aplicação dos cereais para outros fins levanta diferentes problemas, nomeadamente o peso do pão.

    Vejamos o que a actual crise nos traz e o que a política do abandono das terras, a dependência exagerada dos bens essenciais de outros países que consequências vão ter na nossa terra.

    (1) Heinrich Eduard Jacob, “Seis Mil Anos de Pão”, editora Antígona.

    Por: Fernanda Lage

     

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