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    Arquivo: Edição de 15-03-2009

    SECÇÃO: Psicologia


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    A IMPORTÂNCIA DA SAÚDE MENTAL

    Os sem-abrigo

    Este é um espaço de reflexão e diálogo sobre temas do domínio da Psicologia, que procurarei dinamizar com regularidade, trazendo para aqui os principais problemas do foro psicológico que afectam pessoas de todas as idades.

    Na qualidade de psicóloga estou disponível para os leitores de “A Voz de Ermesinde” me poderem colocar as questões que desejarem ver esclarecidas, através de carta para a redacção deste quinzenário ou para o seguinte “e-mail”: joanapatriciadias@sapo.pt

    Que a casa não é uma simples coisa é-nos sugerido, desde logo, pela língua portuguesa, que a faz derivar da palavra latina “casa”, enquanto morada, habitação; palavras da mesma origem, como “acasalamento” e “casamento”, têm o sentido de união entre duas pessoas.

    Um olhar rápido sobre a casa, enquanto símbolo cultural e religioso, também nos revela que a casa não é um lugar qualquer mas o “centro do mundo”. Basta pensar na importância que sempre foi concedida à “casa de Deus”, como centro de vida de uma comunidade, ou à “casa do rei” como centro de uma nação. Também a casa pessoal é centro de gravitação do indivíduo. Ele pode correr mundo mas anseia sempre por poder voltar a casa.

    A casa é, pois, um lugar que proporciona, ao mesmo tempo, um centro e um ponto de união. Enquanto centro, ela estabelece um sentido de separação e de interioridade, pois o centro é aquele ponto interior equidistante de todos os pontos da circunferência. Por outro lado, o centro é também aquele ponto para onde convergem todas as coisas, fornecendo-lhes um sentido de ligação, de relação e de intimidade.

    Vemos, deste modo, que a casa não pode ser “coisificada” como algo que exista apenas enquanto realidade externa, como algo que está aí, diante de mim, como um utensílio que posso usar. A casa está sempre associada a um pronome pessoal, como “a minha casa” ou “a tua casa”. A casa é sempre o espaço de alguém, de um Eu, ou de um Nós, e, por isso, reagimos tão visceralmente ao modo como o outro entra em nossa casa. Habitar uma casa, significa criar com ela uma rede de vínculos interpessoais que a convertem não já numa simples casa mas num lar.

    Podemos vislumbrar isso quando percebemos a importância do momento em que deixamos a casa paterna para constituir a nossa casa. Este passo equivale a um segundo nascimento do Eu que representa que o indivíduo entra na posse da sua própria personalidade. Doravante, não obstante a dor e o risco, o indivíduo conta com os recursos da sua própria personalidade para enfrentar o mundo e encontrar o caminho para a sua autonomia. É como afirmar que já se aguenta nas suas próprias pernas.

    Ou seja, a separação psicológica é o acontecimento essencial que o habitar uma casa materializa. E é esta a intuição fundamental que este trabalho procura seguir ao procurar compreender os sem-abrigo, em função da forma como eles constituíram o seu espaço interno e fundaram a sua casa psíquica. Será que a condição sem-abrigo não reflecte as vicissitudes de um processo de separação e de individuação psíquica particular?

    Não é fácil descrever quem são as pessoas sem-abrigo, nem sequer definir o que é um sem-abrigo. Será sem-abrigo todo aquele que não tem uma casa? Sim, mas embora condição necessária, pode não ser condição suficiente. Uma pessoa ou família que perde a sua casa por um acidente ou catástrofe torna-se um desalojado mas não necessariamente um sem-abrigo.

    Sem-abrigo é alguém que perdeu a casa como lugar de vida, mas também todo um conjunto de laços com a família e com a sociedade. Ou seja, a condição sem-abrigo comporta uma equação de duas partes, em que uma representa a ausência de residência física e a outra representa a ausência dos recursos e dos laços comunitários que lhe permitiriam reverter a situação. No entanto, esses laços sociais têm uma história, podem ter sido construídos e perdidos, ou podem nunca ter existido.

    Não é fácil perscrutarmos as vivências psicológicas de um sem-abrigo. Os esforços para empaticamente nos colocarmos no seu lugar parecem irrisórios face à crueza e desolação das suas condições de vida. Mesmo que fizéssemos a experiência de ir dormir para a rua, viver com eles, como um deles, nunca passaria disso, um viver “como se”. Nunca passaríamos de um “estrangeiro”, sem as raízes e as memórias indispensáveis para compreender o sabor da experiência presente.

    Percebemos a importância dos aspectos psicológicos quando esbarramos com reacções que nos deixam perplexos e chocados, por irem contra às nossas expectativas. Porque é que os sem-abrigo nem sempre nos recebem de braços abertos quando queremos ajudá-los? Porque é que quando as coisas parecem estar a melhorar, há retrocessos? Porque é que este quando tem oportunidade de ir dormir num quarto não aparece, ou aparece e adoece logo de seguida? Porque é que aquele, quando surgiu a entrevista de emprego, falta? Porque é que o outro, quando vai para meter os papéis para a reforma, perdeu a carteira e ficou sem documentos, tendo de se reiniciar todo o processo?

    O grande enigma consiste em saber porque é que eles próprios parecem contribuir para a sua situação, como se tivessem interiorizado a exclusão e a recriassem constantemente através de comportamentos de auto-exclusão compulsivos.

    Repare-se que, ao dizer isto, não é para absolver a sociedade. Pelo contrário, responsabiliza-a ainda mais, porque acentua a gravidade e profundidade dos processos de exclusão. Estes não actuam apenas externamente ao indivíduo mas acabam por ser interiorizados e corroem o indivíduo por dentro, ao ponto dele colaborar no seu próprio processo de exclusão, e até de desumanização, parecendo em casos extremos ignorar-se psíquica e fisicamente, quase indiferentes à dor e ao sofrimento.

    Por: Joana Dias

     

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