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Edição de 30-09-2020
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    Arquivo: Edição de 28-02-2009

    SECÇÃO: Reportagem


    As cinco horas de Casimiro: «Meto a primeira, arranco e penso na próxima quinta-feira»

    17h da tarde, 18h em Espanha. Um último lanche reforçado em casa, mala no carro, as despedidas sofridas. Depois, cinco horas de viagem pela frente até que se aviste Burgos. Assim são os domingos de Casimiro Sampaio, empresário da construção civil, de há seis anos para cá.

    Fotos VÂNIA DIAS
    Fotos VÂNIA DIAS
    Deixa, na Maia, a mulher e o neto, até à semana seguinte; isto, quando o trabalho lhe permite vir, semanalmente, a casa. E faz-se à estrada. «Perigosas e monótonas», assim são as auto-estradas por onde segue viagem. Abastecer, tenta fazê-lo só em Espanha, porque é «muito mais barato». E só pára para «comer qualquer coisa na fronteira». Para comer e para tentar afastar o sono. Se há dias em que vai acompanhado por alguns funcionários, há outros em que faz a viagem sozinho. E aí é difícil segurar o sono pelas pestanas. Às vezes, as paragens são mesmo necessárias, para prevenir “acidentes”. Desde que está em Burgos, esteve envolvido em «dois acidentes», causados também pelas condições climatéricas. Nem sempre o sono e o cansaço são os factores destes percalços. A verdade, é que quando o Inverno chega, os acidentes quase “duplicam”, devido aos pisos escorregadios e à péssima visibilidade. «Felizmente não foram muito graves», acrescenta Casimiro. «A viagem é longa e mete medo. Já vi de tudo, inclusive corpos mortos envolvidos em sacos de plástico. Isso angustia. Às vezes, também, apanho sustos porque mato acidentalmente animais: veados, cegonhas, coelhos». Casimiro tenta fazer a viagem o mais rápido possível, principalmente, na volta, quando as saudades se sentem no corpo cansado.

    É na fronteira que normalmente faz a sua única paragem: estica as pernas, apanha ar fresco, troca o cartão do telemóvel – o português pelo espanhol ou, na volta, o espanhol pelo português – e vai até ao café “Fronteira”. O que deixa a desejar na previsibilidade do nome, ganha na nostalgia dos afectos que se dividem entre a Fronteira. Lá, Espanha. Cá, Portugal. É uma metáfora para a vida dividida que leva, um condensador, num sítio tão simples como um café.

    Antes de ultrapassar a fronteira, a bifana sacia a já anunciada saudade dos cozinhados quentinhos, ainda que na mão e no meio do pão. O prato quente, esse vem no café, aquele que não há em mais lado nenhum. Depois, e durante uma semana, só o solo espanhol, que de sabor «é completamente diferente. Gosto bem mais do expresso português», diz Casimiro.

    Depois continua a viagem por mais três horas e meia, a 140 Km//hora. Não que não quisesse que o velocímetro apontasse para mais, mas «já apanhei algumas multas por excesso de velocidade. Também temo os acidentes. Se há desejo em mim é o de voltar a casa na semana seguinte», diz Casimiro. Quase todas as semanas se vêem manchetes de jornais ou aberturas de telejornais com acidentes de portugueses que perdem a vida nestas longas viagens. «Só quem passa por isto todas as semanas é que percebe», refere.

    «CLARO QUE SE TIVER

    DE IR PARA OUTRO PAÍS,

    VOU. NÃO QUE QUEIRA,

    MAS TAMBÉM NUNCA

    QUIS SAIR DO MEU PORTUGAL»

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    Sair do país para conseguir dinheiro no estrangeiro foi uma atitude não tanto desejada, quanto realmente necessária para alimentar os “seus”. Está “bem” longe do campo do desejo. A verdade é que face à crise que se vivia no país, com inevitáveis repercussões na construção civil, «não foi uma escolha, foi uma necessidade», afirma Casimiro. No país ao lado, onde o compreender está facilitado pela relativa proximidade “linguística” ou pela possibilidade de se arranhar no “portunhol”, foi a hipótese mais viável. «Claro que se tiver de ir para outro país, vou. Não que queira, mas também nunca quis sair do meu Portugal e tive de o fazer. A verdade é que se chega a um ponto em que não é escolher, é, mesmo, ter de ir», reforça o português.

    As semanas em Espanha vão de domingo a quinta-feira. Apesar de chegar tarde ao domingo, a segunda começa cedo, às 7h da manhã: «Vou buscar o pessoal para distribuí-los pelas obras». A este ritual acrescentam-se as rotinas diárias de visitas de obras, reuniões com patrões espanhóis, papéis, burocracias. Estas são tarefas que divide com o seu sócio, Domingos Dias. Ao fim do dia volta a buscar os empregados, que terminam aí o seu dia de trabalho.

    Porém, para Casimiro o dia termina bem mais tarde. Às vezes, são 2h da manhã e ainda está perdido em papéis e em frente ao computador, a tratar de orçamentos e contratos, para que no dia seguinte nada falhe. Todos os seus trabalhadores estão legais. Isso implica o NIE (Número de Identificación de Extranjeros) e o número de Seguridad Social. Caso isso não aconteça a multa é de 6 000 euros. Na verdade, a inspecção é frequente: «Tive duas inspecções só no espaço de quinze dias», afirma Casimiro. Estes processos não são apenas importantes para “safar” multas. «Caso haja algum problema com algum trabalhador – de saúde ou algum acidente de trabalho – as despesas estão asseguradas», diz. «Cada trabalhador fica na ordem dos 600 euros mensais», mas assim «está tudo devidamente tratado e legal», acrescenta.

    Há seis anos que as suas semanas se dividem entre falar português e espanhol. Agora já domina os dois: «força da necessidade». Os telefonemas dos patrões são constantes: os espanhóis «são menos exigentes a nível de perfeição, mas mais exigentes na produção e cumprimento de datas; aí eles não perdoam». «Os espanhóis são também mais frios, mesmo em termos laborais. Não querem saber se algum dos empregados está doente, o trabalho aqui é para se fazer e ponto final», relata o empresário. Mas eles gostam de “nós” porque pagam menos e obtêm um melhor serviço, diz Casimiro.

    O português considera Espanha um país mais desenvolvido, onde há «mais possibilidades de singrar se as pessoas se fizerem à vida». Claro está que é necessário contornar alguns obstáculos, um deles é o «racismo dos espanhóis». «Às vezes, somos mal servidos nas cafetarias, as pessoas são antipáticas», diz Casimiro. Isto não é regra geral, mas sente-se muitas vezes.

    As viagens não se esgotam na longa jornada entre Portugal e Espanha. Na verdade, os seus dias são alimentados pelo carro, Madrid, Alcazar de S. Juan, Alcobendas, Melgosa, Ayedo, Ahedo del Butron, Villarcayo – são paragens frequentes. Isto, quando não se é visitado pelo imprevisto. Em Burgos «às vezes tenho de deixar o carro tão longe que mais valia ir a pé», ri. O «trânsito e as dificuldades de estacionamento estão na ordem do dia». «Também já tenho umas amolgadelas no carro. Os espanhóis não são nada “meiguinhos”, basicamente, é até bater», acrescenta indignado. Casimiro já teve mesmo um episódio em que estava parado dentro do carro e bateram-lhe três vezes até conseguir estacionar, aqui «isso é normal», acrescenta.

    Na hora das refeições, a situação é tão característica como a dos carros, pelas especificidades culturais, que de saborosas pouco têm. «Não gosto nada da comida de cá, é tudo finalizado com molhos; tento satisfazer a fome com bocadillos ou, às vezes, no Burger King ou McDonalds», diz.

    Uma portuguesa, Isabel Ramos, «veio para cá fazer companhia ao marido, e faz refeições a cinco euros». De vez em quando, é assim que se «matam as saudades da comida boa portuguesa», mas o saber bem, «aquele de satisfação, só ao fim-de-semana, em casa», nostalgias de Casimiro.

    Os seus funcionários vêm a casa normalmente de 15 em 15 dias. Porém a estadia proporciona novos desenlaces que alimentam a “mistura de pessoas”, o melting pot.

    «OS ESPANHÓIS SÃO DIFERENTES,

    TÊM DIFERENTES NOÇÔES DA VIDA,

    FORMAS DE ESTAR, E ENCARAM

    COM EXTREMA NORMALIDADE

    COMPORTAMENTOS QUE EM PORTUGAL

    SÃO VISTOS COM ESTRANHEZA»

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    Vários “viver juntos” fazem com que nem todos venham quinzenalmente a Portugal. Este é o caso de Paulo Lopes, 30 anos, funcionário da empresa de Casimiro, que encontrou em Mary uma companheira. Namoram há mais de dois anos e Paulo já a trouxe a conhecer o seu país e a sua família. Entendem-se bem na língua, mas, por vezes, as diferenças são sobretudo culturais: «Os espanhóis são diferentes, têm diferentes noções da vida, formas de estar, e encaram com extrema normalidade comportamentos que em Portugal são vistos com estranheza». Não estivesse Paulo habituado à diferença cultural – que o acompanha nos seis anos de vida em Espanha – e seria complicado dialogar com a sua namorada. Quando a trouxe a Portugal, a rapariga espanhola não achou muita piada à comida, mas disse que os portugueses eram «simpáticos e hospitaleiros». Assim, Paulo visita menos vezes Portugal e começa a criar raízes em Burgos, para além das laborais, os vínculos são também afectivos.

    Caras ficam também as chamadas. Durante a semana manter o contacto é imprescindível para «não ir abaixo». Saber como está a correr o trabalho: se andam bem agasalhados (no Inverno) ou como estão a superar o calor – Espanha é mais excessiva do que Portugal, quer no frio, quer no Verão –; se se comeu bem; e tentam atenuar-se as saudades pelo liame da voz.

    Cá – em Portugal – Casimiro deixa Olinda e Nandinho. Mulher a quem lhe custa o peso na mão para fechar a porta do carro e dizer: «Vai com cuidado!». Quando se vira, sabe que só na próxima semana, a realidade é de novo próxima, e não apenas telefónica. Nandinho foi crescendo com a “ausência” do avô. Agora com 13 anos já percebe melhor a situação, ainda que se note a tristeza do domingo nos seus olhos.

    Durante a viagem, os telefonemas não são poupados. «Não adormeço até saber que ele chegou bem», diz Olinda.

    Não é uma nova rotina que se entranhe facilmente como a “com”. Fazer a vida “sem”, custa mais, é “penoso”. Para quem fica e para quem vai.

    O dia mais desejado é a quinta--feira. Quando a viagem se faz com mais vontade, a vontade do regresso. Quando parar na fronteira não é preciso porque o prato vai estar à espera em casa: quando se sabe que o solo vai dar lugar ao expresso, quando diminuem os indicativos do número de telefone, quando se sabe que Portugal, casa, família e amor rimam com felicidade. Voltar não lhe custa nada. O pior é o ir, o domingo e as cinco horas – as 17h do relógio e as cinco que duram a viagem: «Não há fardo pior do que ouvir boa viagem e vai com Deus. Também não há alegria maior do que o olá de quando chego. E quando chego, não penso no regresso. Só quando chegam as 17 horas, meto a primeira, arranco e penso na próxima quinta-feira – é assim que me alimento», remata Casimiro.

    Por: Vânia Dias

     

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