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    Arquivo: Edição de 31-12-2008

    SECÇÃO: Crónicas


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    A Zefa Ricó

    É a Zeca Ricó, está lembrado?” – perguntou o Telmo, soltando o riso maroto a colocar-me à vontade num assunto em que eu poderia ficar meio constrangido.

    «Foi a tua mãe postiça, gostavas mais de estar com ela do que com a tua mãe de verdade.» – alvitrei – Ninguém conseguiu entender aquele chamego1. Era uma situação assim a modos de um cordeiro adoptado por uma reca2, embora o não diga em sentido pejorativo para a Zefa, antes constate a reacção das pessoas da terra à vossa proximidade, um desses fenómenos raros que os meios de comunicação apresentam de vez em quando.

    «É verdade, ela tratava-me com imenso carinho. Era uma pessoa sensível, mas os outros não tinham por ela nenhuma consideração. E talvez por isso afeiçoou-se a mim e fez com que eu correspondesse ao seu afecto. Era uma coitada, feia, pobre, gaga e de uma família que nem sempre se distinguia por boas razões. Eu era criança e não há criança que não goste de atenção e de carinho. Isso não quer dizer que a nossa mãe nos esquecesse, éramos cinco, a seguir seis, depois sete e, além disso, havia uma casa de lavoura para cuidar. Nessa época, a Zefa não tinha ninguém, os filhos dela já estavam criados e emancipados…»

    Vivíamos um daqueles momentos em que a amizade transborda dos corações e se manifesta na revisitação de acontecimentos passados, mesmo que não tenham sido os mais gratos face à situação actual. Frente a frente, bebericávamos um aperitivo e desfiávamos lembranças, sob a capa do sol de Inverno dos trópicos, enquanto as mulheres preparavam o almoço, acompanhando a confecção dos pratos em papo agradável sobre modas, bordados e quejandos, temas envoltos em diferentes opiniões. Nós primos de sangue e amizade nunca desmentida; elas nossas esposas, que recentemente se conheceram e depressa criaram laços, uma portuguesa, outra brasileira filha de ucranianos há muito radicados no Brasil. Cenário: a sala de estar do Telmo e da Josefina (Fina para familiares e amigos), em Apucarana (topónimo de origem tupi que significa “longa floresta”), no norte do Paraná, Brasil. Momentos de relaxe, indiferentes ao passar do tempo, que esses dias pertenciam-nos por inteiro, trinta anos depois do último convívio.

    Entre nós existiu sempre uma grande cumplicidade, quer nos poucos anos em que vivemos na aldeia dos nossos maiores, quer nas visitas que mutuamente efectuámos quando ambos morávamos no Brasil, ainda que em diferentes cidades e estados. O contacto manteve-se, comunicando por carta ou telefone como se não houvesse tanto mar a separar-nos.

    Não obstante as poucas graças que Deus lhe concedera, a Zefa teve os seus amores, fugazes talvez, oportunistas com toda a certeza. Esquivara-se à restrita moral da época que exigia recato às donzelas, fossem elas ricas ou pobres, amadas ou esquecidas, deixara-se guiar mais pelo sentimento do que pela ponderação elementar entre vantagens e responsabilidades e o resultado foram três filhos vingados, de pais diferentes, que se furtaram à responsabilidade que lhes cabia e desviaram a sua rota noutras direcções. Aquele menino fora um presente do Céu para a Zefa e dedicou-se-lhe como se dela houvera nascido. Ele retribuía esse amor, ia para sua casa, partilhava do seu magro pão e deixava-se influenciar pelos seus hábitos tão diversos dos que assimilava em casa dos pais. Inteligente como era, foi aprendendo, em simultâneo, a separar o trigo do joio sem magoar a pobre mulher, continuando a manter estreito relacionamento até que a família viajou para o Brasil e o percurso até aí seguido foi apagado em definitivo. Rapidamente passámos para outros temas sem que o Telmo me tivesse dito em que medida aquela experiência deixou marcas na sua vida.

    A Zefa, além de pobre, era pouco asseada. A casa, pequena, era um exemplo de desarrumação e ela própria vestia-se de tal modo que mais parecia um espantalho que, em dados momentos, saísse duma leira há pouco semeada ou de uma vinha em período de maturação dos frutos. Os adultos não faziam muito caso ao vê-la com uma meia de cada cor ou com uma soca num pé e um chinelo velho no outro. Junto ao fontanário, enquanto a Zefa enchia a cântara, entre as mulheres que aguardavam a sua vez, havia sempre alguém que lhe dizia:

    - Ó Zefa, trais uma meia de cada culidade3!

    Ela gaguejava qualquer coisa que mal se entendia, apoiava a cântara na anca e seguia rua abaixo a resmungar algo que tinha a ver com o facto de se meterem indevidamente na sua vida. As outras riam-se do desacerto da roupa e da fala mas já não mofavam dela porque bem de mais a conheciam.

    Doutro modo procediam os garotos. Quando a viam, soltavam a cantilena:

    - Zefarriqui, Zefarricó,

    ‘spantalho ih, ih!

    Mafarrico oh, oh!

    A estes a Zefa dava outro tratamento: brandia o pequeno cajado que trazia consigo e ameaçava-os, tentando alcançá-los. Eles, porém, eram mais ligeiros e os golpes da Zefa apenas riscavam o ar. A cena completava-se com as invectivas dela a que os miúdos respondiam com gargalhadas, corridas e mais motejos. Curiosamente, a Zefa gaguejava em tudo salvo nos palavrões que se ouviam com muita clareza.

    Sentindo-se alvo das graçolas de quase toda a gente, a pobre mulher escondia-se no seu canto, a remoer a solidão, dali saindo apenas para tratar do pequeno quintal nas traseiras da casa ou se, de todo, fosse necessário. À medida que os netos nasciam, passou a dedicar-lhes o amor que lhe enchia o coração.

    «Olha, cara, você sabe que tenho saudade desse tempo, da aldeia, das pessoas e da Zefa?»

    «É natural ter saudade da infância e de tudo o que está associado a ela, mas, quando fores lá, vais sentir um vazio na alma. Essa aldeia que tens na imaginação morreu com as pessoas que faziam parte da tua vida: a casa dos nossos avós, aquela casa enorme, encontra-se quase abandonada, a dos teus avós maternos está em ruínas e a que vocês habitavam pertence a outra família. As pessoas que ali vivem são simpáticas, teriam gosto em mostrar-te a casa, alterada ao seu jeito e conveniência, a xota, que era quintal e lugar das vossas brincadeiras, ainda lá se encontra, porque a terra não se desloca, apenas se transforma…

    1 chamego – amizade muito íntima;

    2 reca – porca, suína;

    3 tais uma meia de cada culidade – trazes uma meia de cada qualidade.

    Por: Nuno Afonso

     

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