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Edição de 31-03-2021
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    Arquivo: Edição de 31-10-2008

    SECÇÃO: Opinião


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    A crise financeira

    O mundo vive assustado uma crise financeira iniciada nos EUA com o “subprime” que rapidamente contaminou os restantes continentes, revelando contornos mais gravosos que os da crise de 1929, também esta iniciada na América do Norte com causas identificadas com a desaceleração das exportações, consequente aumento de stocks de equipamentos e de produtos agrícolas, desvalorização das acções cotadas na Bolsa de Valores de Nova York, falência de muitas empresas e desemprego que terá atingido taxas da ordem dos 30%.

    A actual crise, mesmo que só ocorra uma vez na vida, a verdade é que traz o mundo em polvorosa com as Bolsas a registarem quebras abruptas e persistentes, não havendo “papel” que escape à degradação. Os políticos como é seu apanágio, julgaram que o simples anúncio dos governos acorrerem com injecções de capital ou com simples “cartas de conforto” de dezenas de milhares de milhões de euros teriam sustido a evolução da crise, não faltando quem logo tivesse aparecido a declarar que as coisas tinham voltado à normalidade. Não foi preciso esperar muitos dias para ver novos afundamentos das Bolsas e o ex-presidente da Reserva Federal (Alan Greenspan) a admitir que errou ao acreditar na auto-regulação do sistema financeiro. Endeusaram Friedman e demonizaram Keynes, agora é tarde demais e a Inês é morta. Contudo, alguma coisa se aproveitará se deixarmos de aceitar como axiomas as declarações dos “gurus” da economia e da finança, sujeitando as suas verdades ao crivo analítico de correntes de pensamento diversificadas.

    Não haveria dramatismo se as consequências afectassem, unicamente, os autores das temerárias estratégias e os beneficiários das operações de risco deliberadamente mal calculado, de contas forjadas, de supervisões acomodadas ou incompetentes e de auditores pagos principescamente para omitirem reservas nos seus relatórios. Mas, infelizmente, serão outros os prejudicados e vítimas das incontidas ganâncias.

    A frustração do governo português é perceptível ao ter de lidar com algo que não esperava que lhe batesse à porta. Como já se ouviu, a estratégia governamental passaria pelo apertar do cinto nos três primeiros anos da legislatura, para no último abrir os cordões à bolsa com o demagógico argumento de que o sacrifício valera a pena. Mas, com alguma sorte, a crise poderá, até, vir a favorecer o Governo e o partido seu apoiante.

    É, assim, compreensível que perante o risco de um “subprime” à portuguesa, o Governo anuncie algumas medidas, como a iniciativa que apelida de solução para os milhares de portugueses que enfrentam o drama de não terem recursos para honrar os compromissos advindos da aquisição de casa com recurso a crédito bancário, pese, embora, a nossa convicção que a hipótese de sucesso seja muito ténue, sendo mais forte o receio das pessoas que recorrerem ao anunciado fundo imobiliário acabarem por passar de proprietários a inquilinos, sem retorno à posição inicial.

    Num tempo em que as empresas lutam com dificuldades de tesouraria; as famílias desesperam com os magros rendimentos que obtêm do seu trabalho; os senhorios vêem o seu património a degradar-se sabendo que se investirem na recuperação dos imóveis não encontrarão mercado onde possam praticar rendas correspondentes aos investimentos; os devedores à banca por empréstimos para aquisição de casa não conseguem suportar os respectivos custos; os transportes públicos têm de ser fortemente subsidiados pela incapacidade dos utentes pagarem o custo efectivo do serviço, a terapia para vencer a crise passará por políticas inovadoras e não pelas perspectivadas no OE de 2009.

    Ora, se realmente as contas públicas estão sob controlo, o que impedirá o governo de enfrentar a “crise” com acções de efeito adequado e rápido, como seria saldar imediatamente as dívidas do Estado e das autarquias e dar início a uma política de aumento de salários que em três ou quatro anos colocasse as remunerações dos portugueses ao nível da média dos restantes trabalhadores europeus? E, uma vez lá chegados, sujeitar o mercado de arrendamento à lei da oferta e da procura, reduzir drasticamente os subsídios às operadoras de transportes públicos, introduzir o pagamento de portagens em todas as auto-estradas (com taxas mais reduzidas, naturalmente), numa palavra, eliminar a política do subsídio? Infelizmente não parece que haja políticos com envergadura para esta ousadia.

    Para desgraça dos portugueses, a sua sina será continuar a assistir à política-espectáculo traduzida no paradigma de baixos salários e de precariedade no emprego, políticas que, não obstante praticadas há décadas, não contribuíram para o desenvolvimento do país, não tornaram Portugal mais produtivo e competitivo, antes provocaram o alargamento do fosso entre os muito pobres e os muito ricos, evidência que estudos internacionais recorrentemente demonstram, como mais uma vez é assinalado num relatório da OCDE, que lembra ser Portugal o terceiro país mais desigual do Ocidente.

    A falta de resultados das políticas seguidas e a gravidade da situação provocada pela crise financeira, que inevitavelmente se transformará em crise económica, deveriam levar os detentores do poder a repensarem as políticas e a seguir linhas de actuação diametralmente opostas, numa tentativa de alcançar resultados palpáveis no combate aos problemas que afectam empresas e famílias. Não escondo a percepção de neste momento alguns leitores de “A Voz de Ermesinde” rotularem a proposta de fantasiosa ou demagógica. Se assim acontecer, recomendamos que reflictam o que ganhamos com a política de salários baixos, com défices orçamentais reduzidos e com dívidas astronómicas a fornecedores e prestadores de serviços às entidades públicas.

    A crise de 1929 encontrou políticos de elevada estatura como o foi Franklin Roosevelt que, em 1933 pôs em prática o plano “New Deal”, que consistiu em controlar a inflação, evitar a formação de elevados stocks, desenvolver investimentos em obras públicas e reduzir o nível de desemprego, conseguindo que na década de 1940, a economia norte-americana funcionasse normalmente. Será que os políticos da actualidade terão a visão, o arrojo e a competência para encontrarem e aplicarem as “receitas” que o doente precisa? Ou continuarão mais preocupados com os interesses do partido e das suas clientelas? O risco é grande! As consequências serão dramáticas!

    Por: A. Alvaro de Sousa

     

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